Plantas reconectam os moradores desta casa à natureza

Na pequena varanda do apartamento ou no quintal com direito a pomar e fonte, o verde é um convite para reduzirmos a marcha e nos reconectarmos com a leveza.

Por Texto: Raphaella de Campos Mello | Fotos: Luis Gomes | Produção visual: Michelle Moulatlet Atualizado em 20 dez 2016, 23h13 - Publicado em 10 mar 2014, 19h40

Houve um tempo, não muito distante, em que era impossível cogitar a existência de uma casa sem quintal. Naquela época, os ponteiros eram mais preguiçosos – ou as pessoas mais generosas com o relógio e, por tabela, consigo mesmas – e os dias não podiam passar sem o cochilo na rede, as crianças brincando no balanço de corda, o café na varanda. De lá para cá, boa parte das cidades se adensou. Arrastado pelo turbilhão das mudanças, o cotidiano se adaptou ao confinamento. Mas a memória coletiva guarda a lembrança da vida a céu aberto e tem força suficiente para trazer, nem que seja num espaço pequeno, a atmosfera folgada, repleta de frescor e leveza que só as plantas trazem. A possibilidade de recriar esse passado luminoso – ou a certeza de que não existe futuro possível distante da ecologia – inspira o investimento no jardim, que, mais do que material, é afetivo. Tamanho não está em questão. Quer seja um vaso na minúscula varanda do apartamento, quer seja um quintal agraciado com pomar e fonte, a relação está dada. É nessa porção das residências que a vida parece descer alguns degraus, penetrando no fino estrato dos sentimentos. Não é difícil perceber a mudança de tom. O vento faz música com os galhos das árvores, a respiração se abranda e o coração pode sonhar enquanto as preocupações dão trégua, como se respeitassem o momento do devaneio. Ali, com os pés na terra ou os olhos pousados nos singelos vasos de suculentas ou na despedida do sol, nada é mais importante do que a pausa. Enquanto se toma a fresca, como se dizia, ou se assiste a chuva, planos são feitos, refeitos e os nós, enrijecidos pela insistência dos anos, soltos.

Tempo, tempo, tempo e logo recebemos o chamado do presente. As maritacas capricham na afinação e as rosas exalam seu perfume. Hora de acionar todos os sentidos. É por isso que, em espaços verdes, as pequenas manifestações da vida se fazem notar, ainda que em escala microscópica: zumbidos denunciam o laborioso trabalho dos insetos, plantas e flores se exprimem em lentas coreografias, o sol faz desenhos de improviso, aquece a pele; já a rota da brisa prenuncia a chegada e a partida das estações. A escritora Clarice Lispector (1920–1977) sabia disso. Na crônica intitulada Primavera Se Abrindo, ela relata o deslumbre diante de uma prímula, presente de uma amiga: “(…) planta tão misteriosa que no seu mistério está contida a explicação inexplicável de uma presença divina: o segredo do cosmos”. O motivo de tamanho encantamento é o fato de que os brotos dessa espécie “se abrem e se dão ao mundo” no primeiro dia da primavera. Mas só sensores bem alinhados aos pormenores da natureza capturam esse detalhe majestoso. “A gente está sentada perto e eis que elas vagarosamente vão se abrindo, se entregando à nova estação, sob os nossos olhos espantados. E a primavera então se instala”. Como bem descreve Clarice, a natureza nos ajuda a sair do transe da rotina e a reconhecer o milagre que é estar vivo e desperto.

Fertilizante para a alma

Mas as benesses de um canto verde não se resumem à passividade da contemplação. Todo jardim, por miúdo que seja, requer cuidado, entrega, doação. Ora as plantas demandarão a delicadeza de um afago, ora pedirão vigor, como é de se esperar das intervenções de emergência. “O jardineiro está dando a sua parcela de contribuição para o Universo”, alegra-se a paisagista Gabriela Pileggi Monteiro de Barros, proprietária da loja Jardineiro Fiel, em São Paulo. Seu colega de ofício, Odilon Claro, dono da Anni Verdi, também na capital paulista, enxerga benfeitorias que vão além de se admirar o belo. “Ajudamos a nós mesmos criando mais verde em nossas cidades”, reflete ele. As recompensas desse zelo se tornam alimento para o espírito. “É gratificante fazer uma poda e ver que a planta agradece nos presenteando com vários brotos”, confessa Gabriela. Por tudo isso, o trato do mundo vegetal é uma espécie de terapia. “Temos a chance de observar a natureza em movimento e de intervir quando necessário. Num misto de prazer e leveza”, declara a paisagista paulista Paula Galbi. Satisfação à parte é colher os frutos das árvores do quintal e oferecê-los à família e às visitas ou, então, empregar nas receitas hortaliças e temperos colhidos na hora. Não podemos esquecer que áreas externas são cenários ancestrais de partilha do alimento e celebração de ritos de passagem. A mesa posta sob a pérgola florida ou sob a frondosa tenda ramada desperta nos convidados o desejo de saborear o encontro dando a ele matizes primaveris. Esse tipo de reunião fazia parte da rotina da casa do pintor Claude Monet, em Giverny, no nordeste da França. Na propriedade de estilo provençal, o artista viveu por 43 anos, de 1883, até sua morte, em 1926. Os belíssimos jardins, retratados em muitas de suas telas, foram moldados sob suas pinceladas, com o auxílio de um time de jardineiros. O segredo do primor desse pequeno paraíso particular, com direito a lago e uma ponte em estilo nipônico, está na combinação das cores e na permissão para que as espécies crescessem em total liberdade. Circundados pelo colorido da vegetação, renomados pintores, poetas e escritores da época, participavam de almoços e de piqueniques – como não gostava de dormir tarde, o anfitrião preferia receber as pessoas no turno do sol. Assim, no dia seguinte, podia acordar cedo e se entregar ao trabalho. Monet também cultivava uma horta de onde saíam ervas e temperos frescos. No fim da vida, pintar recortes de seu amado refúgio passou a ser seu maior empreendimento. Essas e outras histórias, que nos inspiram a criar uma relação muito pessoal com jardins, quintais e varandas, estão reunidas no compêndio de receitas À Mesa com Monet (Sextante), escrito por Claire Joyes, profunda conhecedora da vida e da obra do artista, que era capaz de extrair da luz natural e da paisagem os mais sublimes sentimentos.

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