Exuberância Interior
No Royal Mansour Marrakech, mosaicos feitos à mão, jardins, fontes e riads revelam a riqueza da arquitetura tradicional marroquina
Sair de casa para conhecer o melhor hotel da África — e o 13º melhor hotel do mundo, segundo a lista mais recente do World’s 50 Best Hotels — significa levar na bagagem as mais altas expectativas. Ao entrar no saguão do Royal Mansour Marrakech e tentar absorver todos os seus encantadores detalhes, porém, entendi que a experiência não seria sobre qualquer ideia preconcebida da hotelaria de luxo. Seria, sim, sobre expandir os sentidos e conhecer um modo de valorizar as tradições que voltaria comigo na forma de inspiração.
Não há sombra de minimalismo ou paredes lisas, sem graça, no ambiente que recebe os hóspedes. Enquanto me refrescava com uma toalha geladinha perfumada com água de flor de laranjeira, os padrões geométricos do piso levavam o olhar para a fonte central. O barulho suave das águas é uma constante: está também no chá de hortelã servido como um espetáculo, com o bule de prata sendo habilidosamente afastado do copo até o alto, sem uma única gota respingar. Nas colunas, o zellige, um tipo de mosaico cerâmico esmaltado cujo colorido conversa com os painéis de gesso esculpidos à mão. Sob os arcos típicos da arquitetura marroquina e as luminárias, muitos outros segredos seriam revelados.

Por fora, o Royal Mansour Marrakech é tão austero quanto a maior parte das construções da medina, a parte central murada das antigas cidades muçulmanas. Apenas muros terracota, não tão altos quanto estamos acostumados aqui no Brasil. No horizonte, vale lembrar, nenhuma construção pode ser maior que a Mesquita Koutoubia, com 69 metros de estrutura. É um sinal de respeito à religião e também uma maneira de cultivar uma atitude modesta, sem incitar a cobiça de quem está fora.
Do lado de dentro, a propriedade construída durante 5 anos como um sonho pessoal do Rei Mohammed VI para celebrar a arte, a história e a arquitetura marroquinas ocupa exuberantes 5 hectares. É uma vastidão projetada pelos escritórios OBMI, dos Estados Unidos, e Axe International, do Marrocos, com decoração do 3BIS Architecture Intérieure, da França.
Mas os verdadeiros responsáveis pela beleza do hotel são anônimos: cerca de 1.500 artesãos locais que decoraram minuciosamente cada cantinho. Os trabalhos não são assinados — no Islamismo, apenas Deus é o criador e reclamar a autoria de uma obra poderia ser considerado arrogância. O acabamento e o capricho são mesmo divinos, mas mantêm um admirável toque humano. As pequenas imperfeições são celebradas para nos lembrar que nada ali é feito por uma máquina.
Não há quartos e suítes convencionais no Royal Mansour Marrakech. Os longos corredores foram substituídos por ruelas que levam aos riads, termo que originalmente designa esse pátio interno das casas e que passou a ser usado como sinônimo dos próprios palacetes de três andares que recebem o hóspede.
São 53 riads de estrutura similar: no térreo, um pátio privado com uma fonte e depois uma confortável sala de estar, onde uma garrafa de champagne Ruinart no balde de gelo, tâmaras, nozes e frutas frescas dão as boas-vindas. Subindo as escadas, o quarto principal e o banheiro, repleto de amenities (o óleo de banho e o demaquilante da marca de cosméticos marocMaroc são incríveis).
No rooftop, uma piscina particular e espreguiçadeiras para lembrar que a vida pode ter outro ritmo. O riad superior tem 140 m² e o premier riad, 175 m², ambos com um quarto.
Com dois quartos, o riad privilege tem 430 m². Comprovando que o alto luxo marroquino não aprecia limites, há ainda o riad prestige, de três quartos e 850 m², e o grand riad, de quatro quartos e 1.800 m², normalmente reservado para chefes de Estado (ou amigos do rei, já que estamos numa propriedade real).
Para conseguir dar destaque a todos os detalhes da decoração e não cansar os olhos com tanta informação, o equilíbrio impera. Nos restaurantes, como o de alta gastronomia marroquina La Grande Table Marocaine e o francês La Grande Brasserie, com menus assinados pela chef Hélène Darroze (sim, a chef que soma seis estrelas Michelin em seus restaurantes), as cores terrosas dominam o ambiente.
Já nos 2.500 m² do Spa Royal Mansour Marrakech, o branco dá o tom. A entrada de luz natural abundante passa pelo entrelaçamento das paredes de ferro, projetadas como mandalas ao estilo mourisco, e desfaz qualquer tensão. O mesmo acontece com quem experimenta um dos tratamentos oferecidos no spa. Terapeutas experientes assinam algumas das terapias holísticas, mas nenhuma experiência traduz melhor a tradição marroquina que o hammam.
Como numa cerimônia de purificação, o hóspede deita-se numa sala de mármore branco deliciosamente aquecido e recebe um banho transformador. O calor do ambiente ajuda a abrir os poros da pele, que é massageada com óleos e depois esfoliada com firmeza, mas sem brutalidade. Depois de receber muitos baldes de água morna no corpo todo, você é convidado a tomar uma ducha e mergulhar na piscina aquecida. Para integrar a experiência, há um cômodo só para degustar um chá e descansar sobre as almofadas protegidas por um moucharabieh de madeira entalhada.
Antes de deixar os limites do hotel e mergulhar na bagunça de sons e estímulos da praça Jemaa El Fna, ponto central da cidade, a uma breve caminhada de distância, são os jardins projetados pelo paisagista espanhol Luis Vallejo que abraçam o visitante com suas palmeiras e oliveiras centenárias, entre outras espécies. Elas guardam abaixo delas, no subsolo, uma rede de túneis secretos por onde os mais de 700 funcionários circulam para atender os hóspedes com maior discrição. Mora aí o mistério da hospitalidade que nos leva para o céu: nas pessoas que nos atendem e carregam a história daquela terra.
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