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Ruy Ohtake: “A simetria me incomoda”

O Apartamento de Ruy Ohtake, num flat projetado por ele em São Paulo, expressa em cores, curvas, concreto aparente e obras de arte uma visão bem particular sobre a arquitetura e o jeito urbano de morar

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Entrar nesta cobertura, no 17º andar de um flat numa das mais elegantes ruas da capital paulista, desconcerta. Demora um pouco até que se entenda como se distribuem os ambientes, talvez por causa da distração provocada pelas obras de arte de grande porte, como a coluna vermelha de Franz Weissmann, e por móveis marcantes, a exemplo da estante-cabideiro-bar-mesa amarela de 18 m de comprimento desenhada pelo morador, o arquiteto Ruy Ohtake. Passado o ofuscamento inicial, percebese que duas escadas conduzem a mezaninos que não se comunicam e, de tão pequena, mal se nota a cozinha. A explicação para a planta não convencional, nas palavras do arquiteto: “Decidi morar aqui quando o prédio estava em obras. Durante três anos, ocupei metade deste andar, equivalente a oito unidades do flat. Depois, comprei a outra parte e juntei as duas”, conta Ruy, que se orgulha de ser “o primeiro paulistano a viver no primeiro flat da cidade”. Em 1982, 13 anos antes de mudar-se para o atual endereço, ele aderiu a esse estilo de vida. “Não me preocupo com a administração da casa. Não tenho lavanderia nem sinto falta de uma cozinha equipada. Para café e comidas triviais, vou à cafeteria, no andar de baixo. Para todo o restante, aos restaurantes da rua Amauri”, diz, referindo-se ao polo gastronômico localizado sob seus pés, a uma descida de elevador

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Autor de diversos outros flats e hotéis, Ruy adaptou-se como ninguém a esse jeito contemporâneo de morar. A rotina doméstica é tão descomplicada que até o forno de micro-ondas, sem uso, seguiu para o apartamento do filho, Rodrigo. A fiel Anésia, sua camareira exclusiva há 12 anos, no fundo não se conforma. “E se quiser tomar um chazinho tarde da noite?”, pergunta-se, preocupada. Para o arquiteto, o sentido de retiro desta cobertura reside em outras instâncias. “Aqui é um lugar para mim. Nem recebo muita gente. Para a última festa, a banqueteira teve até que trazer um fogão”, conta. A falta de uma infraestrutura considerada básica por muitos não significa, de forma alguma, descuido com a casa. “Agora estou mexendo no jardim sobre a laje, quero ter mais grama… Lá, gosto de tomar sol e ler”, fala. A leitura, por sinal, é uma atividade importante na rotina do arquiteto, a julgar pelos cadernos de jornal separados sobre a mesa, incluindo edições de domingo do The New York Times. Rodeado de obras assinadas por nomes como Amilcar de Castro, Tarsila do Amaral, Alfredo Volpi, Pablo Picasso, Carmela Gross, Luiz Paulo Baravelli, Roberto Burle Marx e Oscar Niemeyer – esta última, com dedicatória –, o arquiteto defende que a arquitetura, como a arte, deve trazer emoção e surpresa, nunca indiferença. E isso, segundo ele, se consegue pela mistura de formas, cores, texturas e materiais. Um equilíbrio difícil? “Muitas vezes, é um desequilíbrio. A simetria me incomoda.”

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