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Projeto faz link entre favelas de São Paulo e do mundo

Roma, Nairóbi, Moscou, Bagdá e Mumbai vêm conhecer comunidades paulistanas e trocar experiências na Jornada da Habitação, que começa dia 27.

As favelas são cidades. Em São Paulo, 3 milhões de pessoas vivem em assentamentos precários. Em Mumbai, na Índia, são 8 milhões e em Nairóbi, no Quênia, 2,5 milhões. Por isso, “não são um corpo estranho, apartado; ao contrário, são uma importante parte da cidade contemporânea”. Os números e a frase estão no manifesto de 11 pontos sobre moradia informal feito para o projeto Jornada da Habitação (chamado, em inglês, de São Paulo Calling).

Promovida pela Secretaria da Habitação da cidade de São Paulo (Sehab), a jornada vai discutir, durante seis meses, as políticas de habitação desenvolvidas na capital paulista e em outras cidades do mundo que também enfrentam os desafios da moradia informal – cada uma a seu modo. Será como um intercâmbio cultural e de experiências.

Segundo Lorenza Baroncelli, da equipe de curadoria – encabeçada pelo italiano Stefano Boeri, editor chefe da revista Abitare –, a ideia é construir uma plataforma, uma metodologia para transformar a cidade. O projeto parte do princípio de que “para entender o assentamento informal, é preciso vivenciá-lo”, diz Eliene Coelho, coordenadora do Habisp (Sistema de informações para Habitação Social na Cidade de São Paulo).

Além de Mumbai e Nairóbi, participam Medellín (Colômbia), Bagdá (Iraque) e cidades onde não parece caber a ideia que se tem de favela: Roma (Itália) e Moscou (Rússia). Conheça a realidade dos assentamentos informais nessas cidades na nossa galeria de fotos.

Jornada da Habitação

 

As ações começam na exposição de abertura, no Centro Cultural São Paulo, no dia 27 de janeiro. Lá, as cidades contarão suas histórias e seus projetos de forma interativa. E, até junho, dois dias por mês serão dedicados à jornada numa das comunidades paulistanas participantes. A primeira – São Francisco, em São Mateus, na zona leste – trocará experiências com representantes de Roma, nos dias 28 e 29 deste mês. As próximas envolverão Nairóbi e Cantinho do Céu (às margens da represa Billings, na zona sul), Medellín e Bamburral (em Perus, zona noroeste), Mumbai e Paraisópolis (na zona sul), e Moscou e Heliópolis (zona sudeste).

 

E já que, para entender, é preciso vivenciar, além das rodadas de discussão, haverá barracas na rua para formar um mercado de comida e artesanato, e um restaurante com pratos típicos brasileiros, além de partidas de futebol e apresentações de samba e capoeira. Os estandes da exposição das cidades também circularão pelas comunidades.

 

“Estamos apresentando uma maneira diferente de pensar e de trabalhar o problema”, diz Eliene Coelho. “Queremos mostrar que os assentamentos são parte da cidade e da história. Trabalhar com eles pode dar muitos frutos e são esses possíveis frutos que queremos mostrar.”

O Manifesto

 

Conheça outros pontos do manifesto elaborado pelos pesquisadores envolvidos no projeto Jornada da Habitação, com colaboração de Stefano Boeri, projeto Urbz (de Mumbai) e Sehab.

 

As favelas são rápidas

A cidade informal cresce rapidamente. Às vezes, mais do que a capacidade da administração pública de planejar o seu desenvolvimento.

 

As favelas são necessárias

Em vários países, os assentamentos informais são a principal forma de acesso à vida urbana de milhares de migrantes e camponeses – parte de um fluxo de urbanização que todos os anos move milhões de habitantes do planeta do campo para as cidades.

 

As favelas são pequenas cidades

Muitas vezes distantes do centro, as favelas são sistemas autônomos, distintos, transformando o sistema urbano ao qual pertencem em uma unidade composta de várias pequenas cidades.

 

As favelas nunca são iguais

Cada uma tem sua característica, sua linguagem, sua atividade, sua música, seu ritual e suas aspirações. E cada uma segue sua lógica de organização e de identidade. 

 

As favelas são áreas urbanas dinâmicas

Nelas, as necessidades de sobrevivência e a ausência de restrições e regulamentos podem incentivar o desenvolvimento de pequenas empresas artesanais e de serviços ao cidadão.

 

Favelas e economia do conhecimento

Nelas, pode-se viver com pouco e optar por aprender. Cada ideia pode tornar-se um ofício e a criatividade produz economia. Por isso, as favelas representam um modelo auto-organizado de economia do conhecimento.

 

Favelas, urbanização e sociabilidade

Os assentamentos informais têm uma estrutura física única, composta de milhares de pequenas construções edificadas em clusters ou seja, uma muito próxima da outra. Uma estrutura compacta, pequena, intimista, onde cada canto é vida. Intimidade significa que todos sabem da vida de todos e têm cumplicidade nos bons e maus momentos. Por isso, as favelas representam um novo modelo de urbanização e de sociabilidade.

 

As favelas e a organização de grupos legais e ilegais

As favelas são um território fértil para a implantação de organizações de todo tipo. Religiosas, comerciais, de serviços, culturais e, às vezes, organizações criminosas vinculadas ao tráfico de drogas. Essas organizações informais podem aumentar o grau de autoproteção nos assentamentos informais.

 

As favelas continuam a mudar

Elas estão em contínua mutação e evolução. Modificam-se e crescem, atendendo às exigências dos indivíduos e das famílias que ali moram. Revelam uma história de desenvolvimento fundamental, configurado através da história de vida de cada migrante, cada família, cada comunidade que nela vive.

 

Uma cidade viral

As favelas são uma cidade ecológica que não muda nunca o território de forma irreversível. Mas são também “cidades virais”, onde todos os espaços livres são ocupados, o que transforma a paisagem em uma natureza bio-humana: cada espaço é invadido, não existem lacunas em que a cidade possa desacelerar, respirar.

 

As favelas são, portanto, uma parte essencial da cidade contemporânea. Melhorá-las não significa pensar um novo modelo de cidade, mas ajudar uma parte dela a crescer para que as outras também cresçam.

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