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Por uma arquitetura mais humana: qual é a cidade ideal para você?

A&C inicia uma série de reportagens dedicadas a discutir o papel da boa arquitetura na humanização dos espaços. Aqui, lançamos uma luz sobre os caminhos para moldar cidades mais voltadas às pessoas.

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Qual é a cidade ideal para você? De acordo com o estrelado urbanista dinamarquês Jan Gehl, papa em planejamento urbano, é aquela com uma escala mais humana – definida por praças, calçadas generosas e ruas fechadas nas quais as pessoas andem a pé despreocupadamente e descubram detalhes da arquitetura, das texturas, das cores, dos aromas, dos sons, das pessoas… da vida no lugar. O prazer de percorrer a urbe evoca a sensação de pertencimento e, por tabela, de civilidade. Essa experiência foi simplesmente desaparecendo em meio a construções monumentais e avenidas tomadas por carros, sobretudo a partir dos anos 60, quando os princípios modernistas passaram a nortear a expansão das cidades. Batizado por Jan de Síndrome de Brasília, em alusão às proporções espantosas da capital federal, esse jeito de pensar as metrópoles gerou distorções, hoje no alvo do dinamarquês. Pesquisador da Royal Danish Academy of Fine Arts, em Copenhague, ele é um crítico feroz dos automóveis e dos edifícios gigantescos, que, em sua opinião, relegaram as pessoas a segundo plano. Com seu currículo formidável (liderou a transformação de sua cidade natal e participou da reconstrução de Nova York, Melbourne e Estocolmo), tem autoridade de sobra para sentenciar: metrópoles mais saudáveis, seguras e sustentáveis são resultado natural do respeito ao desejo coletivo. “No mundo inteiro, o corpo, os sentidos, as habilidades e o comportamento humano devem ser o ponto de partida para a arquitetura e o planejamento urbano, que emolduram nossa vida.”

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Passar uma cidade a limpo exige vontade e coragem políticas. Com uma população de 8 milhões de habitantes, Nova York é um dos exemplos mais emblemáticos disso. O prefeito, Michael Bloomberg, e seu PlaNYC, implementado em 2007, tornaram-se modelo de gestão sensível a aspectos humanos. De quebra, Nova York agora ostenta o título de cidade mais verde do planeta. A ampliação de espaços públicos e o estímulo à substituição do carro pela bicicleta estão no receituário do político. Para abrir caminho aos pedestres, ele não hesitou nem em fechar o cruzamento mais nervoso da cidade, a Times Square, aos carros. De tão certeiras, essa e outras intervenções urbanísticas (confira os exemplos abaixo) acabam pulverizando reações negativas dos habitantes. Isso não causa grande surpresa, pois novas ideias realmente levam tempo para emplacar. “As resistências sempre esmorecem quando se vê que a cidade está mais agradável”, explica Jan Gehl, convidado por Bloomberg para participar do PlaNYC. Surfando na onda de renovação, os nova-iorquinos aproveitam cada vez mais o bom design a seu serviço. À primeira vista, o efeito são ruas e praças lotadas, com os moradores e seus cachorros a pé, de bike… curtindo a vida, convivendo. O sopro de reurbanização passou também por inúmeras cidades europeias. Barcelona, Paris e Londres, por exemplo, provam que, quando não é tratada com frivolidade, a arquitetura tem o poder de infuenciar o mundo, de certa forma reinventar a realidade, o jeito como vivemos e até mudar comportamentos. “Primeiro formamos as cidades, depois elas nos formam”, avalia o urbanista dinamarquês. A dialética está lançada.

Copenhague

 

Eis uma cidade que está sempre se reinventando. Hoje, movidos por um sentimento ecológico, os dinamarqueses apoiam em peso a revitalização dos espaços públicos. Mas, em 1962, quando o plano de mudança previu transformar uma importante avenida comercial, a Stroget, num extenso calçadão, os comerciantes reagiram. Não acreditavam que um lugar gelado boa parte do ano pudesse atrair visitantes a pé. Erraram feio. Um ano depois, comemoravam o sucesso da empreitada com o triplo das vendas. “O ponto de partida foi o interesse na qualidade da cidade para as pessoas”, revela o urbanista Jan Gehl. Há 50 anos os habitantes da capital dinamarquesa veem as bicicletas tomando o lugar dos carros em suas ruas. Até 2015, a perspectiva é que metade das viagens na cidade serão feitas de bike.

Londres

 

A capital britânica sempre contou com uma malha de transporte público efciente. Mesmo assim, o número crescente de carros chegou a ameaçar a paz do trânsito. Nem as campanhas a favor do uso de ônibus e metrô deram certo. Para dar cabo do problema, o governo criou um pedágio. Desde 2003, os motoristas pagam 8 libras por dia para circular pelo centro expandido da cidade (de 45 km²), controlado por câmeras. Moradores têm desconto de 90%. Mais de 110,5 milhões de libras dessa receita foram investidos na melhoria do transporte público. A partir de 2020, veículos poluentes não serão mais permitidos na região. Calçadas, profusão de árvores plantada se um boom de cafés fizeram de Melbourne o paraíso dos pedestres. Ali, a circulação a pé aumentou 39% durante o dia e dobrou à noite

Melbourne

 

Antes caracterizada pela baixa densidade e alta dependência do automóvel, a superurbana cidade australiana passou por uma transformação e tanto desde o início dos 90 até 2004. Sob o comando do urbanista Jan Gehl, ganhou mais árvores, jardins, restrições à circulação de carros e outras melhorias nos espaços públicos da área central. Tais medidas atraíram estudantes universitários e impulsionaram a expansão da região em 62%. Hoje, Melbourne convida a deliciosas caminhadas e passeios de bonde por percursos arborizados. Suas ruas planas fizeram das bikes um sistema de transporte popular. Calçadas, profusão de árvores plantadas e um boom de cafés fzeram de Melbourne o paraíso dos pedestres. Ali, a circulação a pé aumentou 39% durante o dia e dobrou à noite.

Nova York

 

Uma série de iniciativas para reinventar a cidade está em curso desde 2007. Trata-se de uma empreitada e tanto, já que Nova York tem 8 milhões de habitantes. O High Line Park, criado sobre uma ferrovia suspensa de Manhattan; a transformação do Meatpacking District (antiga área de açougues e abatedouros) num dos pontos mais charmosos da ilha; o fechamento do cruzamento frenético da Times Square; a surpreendente revitalização do Brooklyn, agora lugar dos moderninhos hipsters nova-iorquinos; e espaços públicos tomados de mesas e cadeiras são apenas algumas delas. Em dois anos, Nova York construiu mais ciclovias do que Copenhague em meio século e fechou várias faixas de tráfego para praças. Hoje os moradores contam com vários oásis na paisagem urbana.

 

O que as cidades brasileiras podem depreender desse movimento?

Como muitas outras, nossas principais metrópoles apresentam sinais claros de esgotamento no trânsito, sem capacidade para absorver mais automóveis. Por ano, o Brasil e o mundo perdem bilhões com o desperdício de combustível e tempo nos engarrafamentos. Embora muita gente não se disponha a abandonar o conforto do carro, a melhor saída, acredite, é não esperar pelo caos. “O globo inteiro ainda colhe as mazelas do pós-guerra e do boom da sociedade de consumo, que fincou um de seus alicerces na indústria automobilística”, lembra a arquiteta Anna Dietzsch, que comanda o braço brasileiro do escritório americano Davis Brody Bond. “Nossas cidades foram preparadas para o carro, em detrimento da qualidade ambiental e social.” Por não contar com um sistema de transporte público forte, os países em desenvolvimento foram especialmente afetados pelo problema. Mas os modelos estrangeiros de infraestrutura e gestão não podem ser copiados por aqui, segundo Anna, sem um bom fltro de brasileirismo, sem envolver a população nem considerar a cultura. De olho nesse caminho, os psicanalistas Jorge Broide e Emília Estivalet Broide desenvolveram um trabalho de escuta territorial para balizar algumas intervenções urbanas. “Ouvindo as pessoas, podemos descobrir os impactos das transformações e entender os desejos e projetos de vida aderidos a esse território”, fala Jorge, professor de psicologia da PUC-SP. Desnecessário dizer que exercer a cidadania sempre ajuda nesse processo. Para a arquiteta Renata Semin, apenas gente ativa e consciente pode pleitear melhorias, oferecer sua competência e compartilhar o bem público.

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