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Conjunto Nacional: uma obra emblemática da arquitetura

Ao encerrar a série de reportagens Por uma Arquitetura Mais Humana, nesta edição, elegemos uma emblemática obra contemporânea

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David Libeskind fala sobre o projeto do Conjunto Nacional

Entre um sorvete e outro, Marcos Acayaba gostava de parar diante do canteiro de obras só para espichar os olhos e admirar a construção subir. Tinha 14 anos e estudava no colégio Dante Alighieri, na rua logo atrás. Ver o gigante tomar forma o impactou tanto quanto os pavilhões e a marquise do Parque do Ibirapuera desenhados por Oscar Niemeyer (1907-2012). Já era doido por futebol, ficou louco por arquitetura. Passou a devorar revistas que traziam os primeiros croquis de Brasília com a mesma devoção com que acompanhava diariamente a obra do arquiteto David Libeskind. E, ao lado de Pelé, incluiu Niemeyer e David na sua lista de ídolos. Depois virou arquiteto, e dos grandes.

Não à toa o edifício o impressionou desde cedo. O Conjunto Nacional já nasceu vanguardista. “É um desenho muito feliz, atemporal”, pondera o conceituado profissional. “Daqui a 200 anos ele ainda será moderno porque tem condições de absorver os novos usos que a sociedade apresenta.” Não é nenhum exagero se pensarmos que o complexo já atravessou quase seis décadas de vida sem perder um de seus principais atributos: os espaços de uso coletivo. Interligadas às largas calçadas de mosaico português das ruas Augusta e Padre João Manoel, da alameda Santos e da avenida Paulista, suas generosas galerias abertas, no térreo, são uma extensão da vida lá fora. Ou, em outros termos, o prolongamento do tecido urbano para dentro do edifício.

Diariamente, cerca de 45 mil pessoas (entre população fixa e flutuante) circulam pelos 1,6 mil m² de corredores. Buscam encurtar o percurso, acessar algum de seus múltiplos espaços comerciais ou simplesmente chegar em casa, no bloco residencial, que reúne 47 apartamentos. “Criei uma minicidade”, graceja o autor do projeto. Pudera: todos os números do endereço são superlativos. De tão cobiçado, possui fila de espera para compra ou locação de algum dos imóveis distribuídos nos 111 mil m² de área construída. Ali, os moradores dividem espaço com lojas, consultórios, farmácias, bancos, escritórios, livrarias, cinemas, teatro, restaurantes, academia de ginástica, bancos e até consulados. O lugar quase não para. Só a ala comercial e de serviço funciona das 7 às 23h. É justamente esse vaivém, que o mantém acordado praticamente 24 horas por dia, um dos motivos de tanta admiração. Afinal, onde tem vida, não tem degradação. A essa máxima soma-se outra virtude – o adensamento otimiza a infraestrutura e, na ponta do lápis, traz economia. Aliado à democratização do espaço, torna-se solução imbatível. “Ao tratar bem as pessoas e os recursos, o edifício aponta uma saída para São Paulo”, prega o arquiteto Marcos Acayaba, que o usa como exemplo a seus alunos da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP). “Ao contrário de prédios com guaritas, a prefeitura deveria estimular empreendimentos de uso misto, onde o comércio franqueia o espaço público, permitindo a esses projetos o aumento da área construída.”

Quando foi erguido, na década de 50, o Conjunto Nacional estabeleceu um novo padrão não só à avenida tomada por casarões neoclássicos, mas especialmente à cidade. São Paulo experimentava o otimismo do pós-guerra que se consolidava no país. A indústria automobilística prosperava, e assim como o comportamento da população, a paisagem urbana também se modernizava. Mais livre, a arquitetura começava a fugir das linhas adornadas em prol do dueto forma e função.

Eis que, nesse cenário borbulhante, o empresário José Tjurs arrematou o lote no quadrilátero privilegiado e, por meio de um concurso, elegeu o jovem arquiteto David Libeskind, então com apenas 26 anos, para desenhar o complexo. Imbuído de um espírito racionalista, logo sonhou com um prédio que fosse praticamente uma cidade para ocupar o generoso lote na região, no bairro dos Jardins, antes habitado por um único palacete. Com a construção, o ambicioso Tjurs tentou transformar o lugar numa especie de 5ª Avenida, a célebre via novaiorquina.

A obra pode não ter materializado tal desejo ao pé da letra, mas foi fundamental na conversão da Paulista em centro financeiro da capital. Durante seu auge, logo após a inauguração em 1958, abrigou um mítico salão de chá da grife Fasano e até loja do designer Jorge Zalszupin. Depois, porém, amargou anos de decadência. Hoje, graças à intervenção cuidadosa feita nas últimas décadas, recuperou a antiga aura. “O Conjunto Nacional é uma peça de resistência”, afirma a arquiteta Maria Cecília Barbieri, responsável pela recuperação e manutenção do paisagismo.

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