Como fugir do modelo atual de cidades?

Hazem Galal, líder global para cidades e sócio da PwC, explica que uma fonte importante de problema da maioria das cidades grandes é o deslocamento das pessoas

Por Beatriz Olivon de Exame.com Atualizado em 20 dez 2016, 18h28 - Publicado em 11 abr 2013, 18h59
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Após a Olimpíada de 2010, a cidade de Pequim procurou uma consultoria para ter uma visão de longo prazo – até 2050. “Ajudamos a ver como vai ser o mundo até 2050 e como Pequim poderá ser uma das quatro World Cities (Nova York, Paris, Tóquio e Londres). O horizonte que eles tem passou de três a cinco anos para 40 anos”, disse o egípcio Hazem Galal, sócio da PwC- Qatar e líder global para cidades na consultoria, durante apresentação no EXAME CEO – O desafio das grandes cidades, realizado em São Paulo.

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No futuro, a sustentabilidade ainda será um dos temas principais para as cidades, segundo Galal, mas ela deve ser o foco depois que a cidade já tiver vencido os desafios em saúde e educação, por exemplo. Em entrevista, Galal comentou os desafios que as cidades vão enfrentar para terem destaque em 2050.

EXAME.com – Quais características uma cidade vai precisar ter em 2050 para ser uma cidade de destaque?

Hazem Galal – É uma questão complicada porque a tecnologia está mudando o tempo inteiro, então as soluções que pensamos hoje mudam. Vamos falar, por exemplo, de mobilidade urbana, será que em 2050 não vamos ter carros? Será que só teremos carros elétricos? Como será o modelo de transporte? Sempre temos que imaginar que o modelo de interação nas cidades, a parte humana sempre vai continuar. Mas é importante como vamos construir as nossas cidades para fugir do modelo atual onde a maioria das cidades tem um centro comercial, todo mundo mora fora, esse espaço que fica na área central fica vazio muitas horas da noite então como podemos distribuir as atividades econômicas sem perder a escala mas, ao mesmo tempo, de uma maneira que vai reduzir a necessidade de deslocamento. Uma fonte importante de problema da maioria das cidades grandes é que as pessoas não trabalham e moram e se divertem no mesmo bairro, todo mundo tem que se deslocar de uma parte da cidade para a outra.

EXAME.com – Qual cidade que hoje você já vislumbra que será uma grande cidade nos próximos 20 ou 40 anos?

Galal – Várias cidades estão se preparando para isso. Por exemplo, Seul na Coreia do Sul, hoje em dia eles tem a melhor conectividade no mundo, mas ainda não chegaram a aproveitar essa conectividade para oferecer serviços avançados. Eles tem infraestrutura, mas ainda não chegaram lá. Cingapura por outro lado, a estrutura deles não é tão avançada mas eles estão sempre criando e planejando. Lá a restrição que tem é que é uma cidade que tem espaço limitado e, ao mesmo tempo tem que fornecer toda a infraestrutura de um país, em termos de defesa e necessidades que um país tem. Sempre essa necessidade de aproveitar o espaço urbano criou uma necessidade de sempre fazer as coisas de maneira bem integrada.

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Galal – Essa questão de sustentabilidade vai continuar sendo um dos focos no futuro?

EXAME.com – Com certeza. No contexto de sustentabilidade, eu não posso pedir para uma cidade que ainda não dá conta do saneamento, da segurança, saúde pra se preocupar 100% com o meio ambiente. É importante sim, mas é preciso priorizar a sustentabilidade social e econômica enquanto me preocupo com a sustentabilidade. Chegando além disso, fica mais preocupado com qualidade de vida das pessoas e bem estar e, chegando ao topo, como vou compartilhar minhas experiências com as outras cidades.

EXAME.com – Para o Brasil esses desafios ainda estão um pouco à frente, ainda estamos na primeira etapa?

Galal – A própria realidade do Brasil tem cidades que ainda são preocupadas com o básico. Outras cidades já melhoraram e estão no caminho para evoluir. O importante é equilibrar as ações no curtíssimo prazo para essas necessidades, mas também vendo as necessidades de médio e longo prazo, que dão legado para os prefeitos.

EXAME.com – Com esses “novos desafios” vemos que pode ter uma mudança nas cidades que hoje se destacam, que seriam as quatro de maior destaque?

Galal – Essas quatro cidades ainda tem seus problemas. Tóquio tem uma população que está envelhecendo então o desafio para Tóquio é como realmente desenvolver a tecnologia para aproveitar essa população que está envelhecendo e atrair, numa cultura muito conservadora, mão de obra e talento internacional para continuar esse crescimento econômico. Londres se beneficiou muito das olimpíadas em termos de posicionamento da cidade globalmente como centro financeiro e como um centro cultural diversificado, mas ainda tem alguns desafios em termos de como criar uma cidade competitiva que continua a ser um dos centros financeiros mais atraentes no mundo. Existem algumas ameaças que podem afastar instituições. Nova York nem se fala nos desastres naturais, apesar que a cidade evoluiu muito. É uma coisa que, cada vez que estamos dependendo mais da tecnologia, de como criar mecanismos para se recuperar mais rapidamente dos desastres naturais.

EXAME.com – Dentre as cidades com as quais o senhor trabalhou, existe alguma que se destaque?

Galal – Vou dar um exemplo bem perto daqui, o que está acontecendo no Rio de Janeiro é realmente admirável. Eu morei no Rio de Janeiro duas vezes. Da primeira vez era uma cidade sem ambição, sem atividade econômica, perigosa, poluída, com baixa autoestima. Hoje a cidade tem uma boa gestão, está sediando olimpíadas, criou mecanismos que colocaram a cidade no caminho certo.

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