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Tricô e crochê nas mãos de grandes designers

O tricô e o crochê das nossas avós estão mais exibidos do que nunca. Ostentando roupagens divertidas e ousadas, desfilam por passarelas, galerias, salões de design, ruas e parques.

A supremacia tecnológica automatizou o cotidiano. A máxima “aperte o botão, deslize o dedo sobre a tela ou digite alguns caracteres e agarre o que procura” virou lema. Felizmente, não regra. Nestes tempos high-tech, a lei do mínimo esforço depara com uma inesperada resistência: a nostalgia do fazer manual. “A vida se baseia na transformação e a habilidade das mãos, resgatada pela moda e pelo design, confere significado e força à existência”, afirma a pesquisadora de tendências holandesa Lidewij Edelkoort no livro Bliss Verão 2013 – The Key (Trend Union).

Como a arte do tricô e do crochê está renascendo

 

O tricô e o crochê impulsionam o movimento de revalorização do feito a mão. Os passatempos de nossas avós ressurgem nas passarelas, nos salões de design e nas galerias de arte quase irreconhecíveis. Quase. Pois, apesar de ostentarem tramas avantajadas, aplicações inusitadas em móveis e utilitários, combinações de cores e pontos para lá de ousados, preservam o capricho, o vagar do enlace, a exclusividade intrínseca ao ofício das agulhas. O atrativo maior para quem se deleita entre novelos parece ser um tipo de interação com matérias-primas e instrumentos aparentemente confinado no passado. “Honramos a origem, a fonte de materiais fornecidos pela natureza, seja o algodão, o linho, seja a lã”, atesta Lidewij, que ainda enaltece o caráter gregário do artesanato. Segundo ela, a arte dos fios virou símbolo de um estilo de vida global em que indivíduos rompem com o isolamento unindo-se em comunidades criativas.

 

 

Foi justamente a colaboração de crocheteiras brasileiras que encorpou a megainstalação da artista polonesa radicada em Nova York Agata Olek, exibida no Sesc Interlagos, em São Paulo, de 19 a 29 de julho, como parte da Mostra SESC de Artes 2012. O coletivo forrou um jacaré gigante, pertencente ao playground da unidade, valendo-se do crochê, especialidade de Agata e das colaboradoras temporárias – a intervenção levou três semanas para ficar pronta. “Meu trabalho tem como objetivo trazer cor e vida, energia e surpresa aos espaços públicos”, diz ela, que contou com uma motivação extra: “Dediquei essa composição especialmente às pessoas que não têm acesso ao mundo das galerias”. Não é preciso ser especialista para deduzir que se está diante de uma iniciativa artística. O imenso réptil fala por si só. “Acho incrível que ela tenha criado uma assinatura própria com o padrão camuflado e as frases que escreve por meio da técnica”, enaltece a estilista e professora de tricô e crochê Cristiane Bertoluci, de São Paulo, que participou da confecção do aparato.

 

 

As obras da polonesa nascem de um círculo virtuoso sui generis: ela trança os fios enquanto assiste a filmes que influenciam diretamente as criações, que, por sua vez, determinam os filmes escolhidos. “Vida e arte são inseparáveis”, justifica. Não há exagero nessa afirmação. Agata transforma em crochê os mais diversos itens cotidianos, de receitas médicas a mensagens de texto, passando por objetos encontrados ao acaso. A história por trás da urdidura é tão importante quanto o que suas mãos são capazes de fabricar. Ela chegou, inclusive, a cobrir um apartamento inteiro com tramas coloridas, instalação exibida em museus estrangeiros. A criadora em tempo integral se diz pioneira das intervenções urbanas pautadas pelo crochê e não gosta de se filiar a grupos ou movimentos – como o Yarn Bombing, seguido por artistas de rua de diversos países que encapam monumentos e adereços públicos com tecidos tramados, à revelia das autoridades, claro. Enquanto essa tribo se interessa pelo humor e pelo inusitado da ação, Agata se volta para a temática da efemeridade, uma vez que suas obras estão fadadas a embelezarem a paisagem, encantarem os passantes – ou não – e se desfazerem para, então, reaparecem em outro local, de cara nova.

Conheça as artista da nova geração

 

Artistas da nova geração, como Carolina Ponte, atacam pela trincheira indoor das galerias de arte. Nascida em Salvador, e residente em Petrópolis, na serra fluminense, ela aprendeu a fazer crochê na infância, com a mãe. Depois de formada na Escola de Belas Artes, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), dedicou-se ao desenho e à pintura, sem abandonar as teias lúdicas de sua meninice, posteriormente incorporadas ao fazer artístico, inspirado em ornamentos de toda ordem, tapeçaria, arquitetura, cerâmica… “Aprecio o fato de o crochê não ser um elemento típico da arte. Gosto da cara de enfeite da casa da vovó, dos arabescos e firulas que posso conseguir com ele”, revela. Para tanto, Carolina esbanja cores e pontos variados. O excesso é proposital. “Busco um resultado exagerado de sobreposição de arabescos e bordados, já que me interessa muito a tradição ornamental do crochê”, justifica. Assim como Agata, ela ambiciona atingir um público vasto. “Desde pessoas que relacionam o crochê com as esculturas moles de Lygia Clark até os que o associam aos paninhos de crochê que têm em casa.” E isso acontece, de fato, graças à familiaridade suscitada pelos frutos do trabalho manual. “Consigo fazer com que as pessoas vejam que um material simples que usam no dia a dia também pode ser uma obra de arte”, arremata a artista, afeita não só à simplicidade do artesanato mas também à serenidade e à dedicação exigidas pelo bailado das linhas. “Aos poucos, fomos perdendo isso”, lamenta.

O tricô e a decoração

A decoração de interiores e o design também prestam continência ao tricô e ao crochê. Para o bem-estar geral, a casa absorve o conceito de ninho. As irmãs gaúchas Tina Moura e Lui Lo Pumo confabulam nessa direção. Arquitetas com especialização em design de móveis, elas apresentaram recentemente o caloroso encontro entre suas raízes, o design contemporâneo e o artesanato sulista. Na mostra Lã em Casa, em cartaz no espaço A Casa – Museu do Objeto Brasileiro, em São Paulo, até o começo de agosto, a dupla atuou com artesãos do grupo Ladrilã, das cidades de Pelotas, Jaguarão e Pedras Altas, no Rio Grande do Sul, especializados em tramar lã ovina. Juntos, produziram objetos utilitários e decorativos, além de acessórios pessoais. Todo o acervo foi feito com base na antiquíssima fibra felpuda, mas com formas, emaranhados e texturas surpreendentes. A manta Pé Quente, atada a dois pares de pantufas, é só um exemplo de como é possível reinventar artefatos consolidados pela rotina. A tradição se intromete no processo criativo, elas admitem. Não há como apagar as memórias de infância no frio dos pampas, aquecidas por ponchos, cobertores e gorros. Mas Tina e Lui quiseram desmanchar o óbvio. “Criamos produtos que não só falam da região de onde vêm como também fazem sorrir”, define Lui. O aspecto afetivo atrelado ao mobiliário que, além de belo e útil, faz a gentileza de confortar o usuário é tendência mundial, como lembra a arquiteta. “Hoje, muitos produtos transcendem forma e função e emocionam com sua história.”

 

Adepta do slow fashion – movimento que preza a confecção manual e cuidadosa de peças únicas e atemporais –, a estilista Anne Galante, de São Paulo, vibra com o momento fértil do feito a mão. Ela produz roupas de tricô e crochê e também abastece sua marca, Señorita Galante, com itens de decoração e arte. Esqueça croquis e pesquisas intermináveis. Anne tece intuitivamente. O embrião de uma blusa pode perfeitamente germinar como vestido e chegar ao mundo na forma de macacão. A versatilidade dos emaranhados contemporâneos é, segundo ela, o grande chamariz do público feminino. “As mulheres entendem que essas técnicas não são mais coisa da vovozinha. Temos fios e modelagens diferenciados, que conferem ar atual aos modelos”, garante ela. E constata, com satisfação, o reconhecimento da freguesia. “O produto artesanal não pode ser equiparado aos massificados. Meus clientes compreendem o valor agregado das criações.” Alguns demoram até 30 dias para serem concluídos, enfatiza, nos lembrando que nem tudo nesta vida se enquadra na categoria fast. “As tricoteiras não são máquinas. Têm limites e merecem ser valorizadas como artesãs”, defende a estilista, que ainda destaca outro importante viés: “Esse é um ofício absolutamente ecológico, pois não usa energia elétrica, só as agulhas, nem desperdiça material. É possível emendar um rolo no outro ou juntar restos que serão transformados numa composição”.

 

 

Por tudo isso, Anne é a favor da reinserção dos trabalhos manuais na grade curricular das escolas. “Trata-se de uma excelente forma de trabalhar coordenação, criação, concentração e habilidade manual, e ainda pode se tornar fonte extra de renda.” Está aí uma bela causa.

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