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Perspectiva para o futuro

A poucos meses de celebrar 100 anos em dezembro, Oscar Niemeyer não está preso ao passado. Nem ao presente.

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A poucos meses de celebrar 100 anos em dezembro, Oscar Niemeyer não está preso ao passado. Nem ao presente. Segue recriando sua própria linguagem em obras de desenho ousado e estrutura audaciosa que apontam novos caminhos para a arquitetura contemporânea. Conheça aqui alguns projetos recentes que revelam toda a inquietude e a liberdade desse eterno inventor.

Arrojo técnico sem precedentes

 

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São 99 anos de idade, pelo menos 70 anos de trabalho intenso e ininterrupto, desafiando engenharia com soluções de tirar o fôlego dos mais experientes calculistas. “Oscar nos provoca a trabalhar com o limite de resistência das formas e dos materiais”, afirma o engenheiro Sussekind. Graças a tão sutil matemática, o arquiteto compõe seu jogo inesperado de retas e curvas: imensos vãos livres, formas puras, volumes leves e contornos elegantes que logo adiante tornam-se referência para outros arquitetos e construtores no mundo.

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Ele pensou um volume solto no ar, sem pilares, pairando sobre o vão livre. Na velha prancheta, riscou um plano de linhas simples e objetivas. Assim, com serenidade e clareza, Oscar Niemeyer deu forma a mais uma obra absolutamente inovadora. O Palácio do Governo de Minas, cuja construção deve ser iniciada ainda este ano em Belo Horizonte, não tem colunas no vão de 150 x 20 m. Com seis andares e 4 mil m3 de concreto, ficará pendurado em tirantes presos na cobertura a uma estrutura independente. Arquitetura monumental e, ao mesmo tempo, levíssima. “A sensação é de que o prédio flutua. Surpreendente, como planejou Oscar”, diz o engenheiro José Carlos Sussekind, parceiro que assina o cálculo estrutural do projeto. Marco na tecnologia de arquitetura mundialnunca antes se fez algo parecido, o Palácio de Minas prova que o tempo não abrandou as convicções nem a ousadia do nosso arquitetomais ilustre.

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Como a Casa das Canoas, de 1953, onde ele morou e hoje funciona a Fundação Oscar Niemeyer: a laje finíssima parece suspensa no ar, apoiada em pilares igualmente delgados. Ou as cúpulas do Congresso Nacional, de 1958, suavemente pousadas no solo segundo os cálculos precisos de Joaquim Cardozo.

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Em 1969, na Argélia, técnicos franceses consideraram inexeqüíveis os balanços de 25 m e os vãos livres de 50 m da Universidade de Constantine. Foi Bruno Contarini, parceiro em diversas investidas de peso, quem provou ser possível realizar a obra nas medidas exatas previstas pelo arquiteto.

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Outro projeto que deu o que falar em termos de arrojo técnico é o Museu de Brasília, inaugurado em dezembro de 2005. Niemeyer repete ali sua tradicional cúpula, mas não perdeu a chance de uma pitada de audácia. Queria o interior totalmente livre de paredes e colunas para que a abóbada pudesse ser admirada por inteiro. A solução foi pendurar o mezanino diretamente no teto com um conjunto de tirantes de apenas 32 cm de espessura cada um. Tudo acertado, Niemeyer percebeu que o lugar oferecia vista privilegiada do Eixo Monumental. Não teve dúvida: criou uma rampa externa, assentada em apenas dois pontos da estrutura, para a contemplação da paisagem e da arquitetura. Duplo desafio para Sussekind: “Pela primeira vez na história, temos uma cúpula que, além de suportar o próprio peso, sustenta fortes cargas internas e externas”, decreta.

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Não por acaso, Niemeyer faz questão de ter sempre a seu lado engenheiros corajosose extremamente competentes, que apimentam os projetos com soluções às vezes ainda mais arrojadas do que as imaginadas por ele inicialmente. Emílio Baumgart, Cardozo, Fernando Rocha Souza e Contarini, alguns dos mais importantes, participaram do cotidiano de trabalho como amigos íntimos. Atualmente, Sussekind é o principal interlocutor. “Logo que termina um desenho, Niemeyer pede sua análise técnica”, conta a neta Ana Lúcia Niemeyer, diretora executiva da Fundação que leva o nome do arquiteto.

Antigas propostas, novas apropriações

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No escritório do arquiteto, Sussekind faz contas rápidas para avaliar a viabilidade do projeto. Segundo ele, em 90% dos casos, Niemeyer acerta de primeira. Em 5% dos croquis, é necessário algum pequeno ajuste. “Apenas os 5% restantes se mostram realmente inviáveis. Quando isso acontece, Niemeyer não faz concessões. Prefere abandonar a idéia e partir para algo novo”, entrega o engenheiro.

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Em Potsdam, cidade alemã que assiste este ano ao início das obras do Parque Aquático, aparece novamente a cúpula. Mas agora são cinco delas, integradas por uma marquise que é quase um pavimento extra. “Niemeyer abriu mão da pureza das linhas para acrescentar discretas clarabóias: levam luz natural às piscinas no interior”, observa o arquiteto Jair Valera, sócio de Ana Elisa Niemeyer, mais uma neta do arquiteto, no escritório que hoje desenvolve seus principais projetos executivos. A fama é que até hoje o arquiteto comanda com firmeza o desenvolvimento e a execução de cada projeto. Nos mais recentes, vêem-se soluções que são sua marca registrada e que só poderiam ter saído de seu próprio punho, como as marquises sinuosas, os volumes esculturais e as formas puras. Aqui e ali, há idéias inovadoras tanto na forma quanto na função.

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“Nos últimos anos, Niemeyer não só experimenta novos programas como revisita os antigos de modo original, tirando proveito de recursos tecnológicos atuais”, diz Lauro Cavalcanti, diretor do Paço Imperial, no Rio de Janeiro, onde no início de 2007 organizou uma ampla exposição comemorativa do centenário do mestre. Uma de suas contribuições atuais mais importantes, na opinião de Lauro, é a abertura do palco dos teatros à área externa. “É um ovo de Colombo, mas ninguém havia pensado nisso antes”, afirma Lauro. Niemeyer encontrou, assim, uma forma de valorizar ainda mais o espaço público. O recurso foi usado no Auditório do Ibirapuera, finalizado em 2004 em São Paulo, apesar de não integrar o desenho original dos anos 1950. E se repete em mais cinco obras inéditas, incluindo um teatro a ser erguido em Avilés, Principado das Astúrias, no norte da Espanha, como parte de um complexo cultural que deve ganhar o nome do arquiteto.

Concreto tratado com liberdade

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Outras idéias impactantes saltam aos olhos em criações recentes.É o caso das passarelas que conduzem o visitante a um passeio pela própria arquitetura, como no Memorial a Simón Bolívar, encomendado pelo presidente venezuelano Hugo Chávez. Ou a marquise que faz uma curva rasa e recebe os pedestres no prédio de uma empresa francesa.

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Ou ainda a imensa esculturade concreto que sustenta a cúpula da Catedral Cristo Rei, de Belo Horizonte, ainda sem data para ser iniciada. Tudo saído da prancheta do arquiteto. Sim, acreditem: prestes a completar 100 anos, Niemeyer continua dando expediente de segunda a sexta-feira, às vezes também aos sábados, das 10 h às 20 h, no escritório em Copacabana, Rio de Janeiro. A lista de encomendas é grande: empresas, instituições e órgãos públicos de vários cantos do mundo desejam um projeto do brasileiro. “Nos últimos anos, com a revalorização da arquitetura moderna, Niemeyer volta a ser reverenciado como mestre”, observa o arquiteto e ensaísta Guilherme Wisnik. O escritório do criador vive sempre cheio de parceiros e amigos. A qualquer momento ele foge da conversa para rabiscar uma nova idéia na mesa de trabalho. Que ninguém o interrompa! Nem mesmo o tempo. Oscar Niemeyer não pode parar.

Essa matéria foi publicada na Edição Top da Revista Aqruitetura & Construção

 

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