Mulher na construção: orgulho de trabalhar no canteiro de obra

No Dia Internacional da Mulher, conversamos com mulheres que desempenham tarefas antes dominadas por homens - e não fazem feio.

Por Marcel Verrumo Atualizado em 20 dez 2016, 22h27 - Publicado em 6 mar 2014, 20h38

Quando a servente Ivaneide Carvalho de Souza sai de casa às 6h e vai trabalhar na construção de um prédio, não abre mão de parar diante do espelho e maquiar-se. Passa o dia com outras 61 mulheres e 438 homens, vestindo calça jeans, camiseta da incorporadora Brookfield, capacete e luvas. Casada e mãe de dois filhos, não usa maquiagem para atrair alguém, mas para manter a feminilidade num ambiente onde os homens são maioria. Segundo o Plano Nacional de Amostra de Dominílios do IBGE, de 39.860 mulheres entrevistadas, 235 trabalham no setor da construção civil; proporcionalmente, entre os homens o número é maior: dos 54.055 questionados, 7.983 atuam nesse setor. A equipe de Ivaneide, composta por outras 14 mulheres, é responsável pelo acabamento do que será um hotel de Brasília e tem de passar rejunte entre os azulejos e deixar tudo limpo. “Nas construções, há mais homens, mas minha tarefa que é melhor feita por mulheres: somos mais caprichosas”, ela acredita.

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Antes de trabalhar com centenas de homens e literalmente colocar a mão na massa, Ivaneide era cuidadora de idosos em Goiânia. Mudou-se para a capital do país há nove meses para morar com o marido. Conseguiu uma vaga de servente na mesma construtora em que ele é mestre de obras. “Até eu pegar o ritmo, foi puxado. Mas cuidar de idosos é um trabalho muito solitário. O canteiro de obras é mais dinâmico. Quero continuar aqui e estudar para crescer na empresa. Penso em fazer uma faculdade de Engenharia Civil ou para ser Mestre de Obras”, revela.

Claudia Piche, de São Paulo, já estudou Engenharia Civil e também trabalha num canteiro de obras. É a gerente responsável por uma obra que resultará em três prédios residenciais e um comercial na capital paulista. Comanda 299 pessoas, das quais 298 são homens. “É difícil encontrar mulheres com o perfil de operário de canteiro de obras: não pode ter frescura de sujar a calça ou a mão, precisa se dar bem com todos e fazer o que for preciso para colocar o prédio em pé. Por outro lado, uma vantagem da mulheres numa construção é que somos mais detalhistas e caprichosas do que a maioria dos homens, temos uma visão minuciosa, às vezes ignorada por eles”, Claudia defende. Embora ela afirme que se relaciona bem com as pessoas com quem trabalha hoje, conta que já passou por uma saia justa no início da carreira: “era estagiária e trabalhava com uma engenheira. Fomos trabalhar em uma construção em que o mestre de obras pediu demissão porque não se sentia confortável na presença de nós duas”.

Mesmo havendo um predomínio de homens, o canteiro de obras foi o lugar em que a engenheira quis estar desde quando era uma adolescente e é onde quer permanecer enquanto houver prédios a serem erguidos. “Tenho um fascínio por construção. Amo ver um terreno vazio ser preenchido por um grande edifício e perceber que eu fiz parte de cada etapa da obra”, finaliza.

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