Conheça a senhora dos aromas

A paulista Cecília Borges é uma mulher de alma delicada, com sensibilidade para se deixar levar pela sutileza das fragrâncias até em momentos difíceis.

Por Texto: Luciana Jardim | Produção visual: Eliana Medina | Fotos: Célia Mari Weiss Atualizado em 29 ago 2018, 11h48 - Publicado em 8 jan 2014, 19h04

O perfume do alecrim, da lavanda e da verbena acolheu a paulista Cecília Borges quando ela mais precisou. Era 1979. Ela tinha apenas 30 anos e estava no período de amamentação de seu terceiro filho quando descobriu um câncer de mama. “Na época, meu pai sugeriu uma viagem aos Estados Unidos em busca de novas avaliações médicas. Fiquei hospedada por um mês na casa da minha madrasta, que espalhava pelos ambientes pot-pourris de lavanda, alecrim, verbena – flores e ervas colhidas no jardim. Fiquei encantada e me sentia muito bem”, diz Cecília, de fala tranquila e gestos suaves. De volta ao país, no período do Natal, ela teve a ideia de presentear parentes e amigas com sachês perfumados, a exemplo daqueles que a emocionaram. Um dos primeiros modelos criados por ela combinava macela, primavera e casca de eucalipto. Ela costurou saquinhos de algodão para o recheio de plantas e os ofereceu aos mais queridos. Entre eles estava a dona de uma loja de enxoval, que gostou tanto do caprichado sachê que encomendou 50 itens para sua marca. “Depois disso, os pedidos não pararam de chegar”, revela Cecília. Dessa maneira, o delicioso passatempo contribuía na superação de um desafio e se transformava em trabalho para a vida. “Porque o pior que uma doença pode trazer é roubar o nosso sonho. Os aromas, ao contrário, me davam satisfação e a oportunidade de, além de tudo, fazer o outro feliz”, conta. Após o sucesso dos primeiros sachês, Cecília mergulhou nos assuntos que giravam em torno de fragrâncias para casa, começou a estudar em livros estrangeiros, a consultar químicos. “Nos anos 1980 montei um espaço na garagem para fazer os experimentos. Mas como não tinha dinheiro para comprar grande quantidade de flores, conversei com o padre de uma igreja próxima para pedir as sobras que iriam para o lixo. Também tive ajuda de perfumistas que se entusiasmaram com a ideia de criar produtos perfumados para trazer a sensação de alegria e bem-estar para a casa”, conta. Aprendeu ainda que o cravo-da-índia espanta traças nas gavetas, que bolinhas de cedro dão um up na alma. Para o pot-pourri, ensina que misturando botões de rosa mosqueta e raízes de patchouli nasce uma fragrância floral. Cravo, canela e noz-moscada criam um aroma de especiarias. Cascas de laranja e limão trazem frescor. “Se quiser mais cor, junte algumas flores secas, como pétalas de primavera e sempre-viva. E ainda vale complementar com algumas gotas de óleo essencial”, sugere. O conhecimento foi se profissionalizando e, em 2001, Cecília se associou a Irene Lima para fundar a Seivaroma, empresa de marketing olfativo que oferece consultoria para marcas de diversos segmentos. “Marketing olfativo é o casamento perfeito entre marca e cheiro. Buscamos contar uma história relacionada à empresa, inspirar emoção e imprimir significado por meio de um aroma único”, explica Irene. Entre os projetos de destaque assinados pela dupla está a linha Alecrim elaborada para a marca Le Lis Blanc. No showroom da Seivaroma há exemplares de criações próprias e também velas, sprays, incensos, perfumes e sabonetes vindos do mundo inteiro, inspirando novas alquimias. A arquiteta Tuca Dias ajudou a conceber a decoração, onde predomina materiais naturais e cores suaves, refletindo a delicadeza e o amor das proprietárias pelo mágico universo do olfato – há um toque indisfarçável da Provence, região francesa preferida de Cecília. “Precisamos de pausa para perceber os cheiros, precisamos de tempo de qualidade para estimular esse sentido”, ressalta ela. Das recordações marcantes da infância, uma vem da morada da avó paterna. “Tinha cheiro de asseio e cuidado. Minha avó era uma portuguesa prestimosa com a lida da casa; também cozinhava e bordava muito bem. Desde pequena, eu ficava ao seu lado aprendendo a desfiar o linho para fazer o ponto ajour”, rememora. A avó lavava o enxoval com sabão neutro e água e pendurava no varal para secar ao sol e quarar. “Ela também usava limão, alfazema e vinagre para limpar os ambientes. Lembro ainda da colônia de lavanda de meu avô que deixava um rastro perfumado.” As essências que trazem conforto emocional e boas lembranças estão no coração e na memória olfativa dessa senhora dos aromas, pronta para compartilhar as muitas receitas caseiras que conhece. “Para aromatizar o armário, amarre capim-santo seco com barbante. Folhas de eucalipto na água morna da banheira ajudam a refrescar”, diz. O cheiro que mais ama? “Dos meus sete netos. Às sextas-feiras, eles estão na minha casa e fazemos biscoitos, bolo de chocolate, brincamos de massinha plástica. Depois da bagunça, dou banho com sabonete de lavanda e fazemos bolinhas de sabão”, conta. Quando essas crianças se tornarem adultas, lembrarão da casa cheiros de uma avó que transbordava afeto e carinho.

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