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Um casamento dos sonhos

O ritual dos tempos modernos pode ser mais livre e leve. É quando as sensações e os símbolos falam mais alto do que os protocolos

Eu casei três vezes – com o mesmo marido. Quando digo essa frase, não há quem não fique curioso. Espero que você também. Nossa história teve início no Carnaval de 2003 e a cena ainda está gravada em meus olhos: quando deparei pela primeira vez com aquele rapaz alto e de cabelo curtinho, senti borboletas no estômago, as pernas bambas, palpitação… Eu achava que era lenda, mas – sim – existe amor à primeira vista. Ao nos conhecermos, Gustavo era de uma tranquilidade que me fazia bem. Como ele conseguia, ao mesmo tempo, acelerar e acalmar meu coração? E tínhamos tantas afinidades! Um ano depois, começamos a namorar.

O tempo voou desde então, e a vida acontecendo. Gustavo se formou arquiteto, e eu produtora editorial – cada um na casa dos respectivos pais, em São Paulo. Quando nos tornamos mais estáveis profissionalmente, passamos a guardar as economias pensando numa casa nossa.

Foi um período intenso nos bate-papos com minha terapeuta junguiana. Minha formação é católica; a do Gustavo, espírita. Faria sentido nos unirmos diante de uma igreja que, para ele, não tinha significado? Fora isso, não me via com o tradicional vestido de noiva e cumprindo aquele monte de protocolos…

O que não significa que, lá no fundo, não desejasse um ritual de passagem. Um símbolo disso é que pontes apareciam em meus sonhos. O inconsciente desejava estabelecer novas conexões. A psicóloga me dizia para não ter pressa: os rituais marcam uma fenda no tempo e no espaço, e eu encontraria minha maneira de  ritualizar aquela mudança. Por sinal, eles são intrínsecos ao homem desde os mais remotos tempos, já que celebram as transições do ciclo da vida. Tribos ancestrais comemoravam o início do verão. Atualmente, é quase inadmissível não cantar ao menos um Parabéns pra Você no aniversário. E por aí vai… Os dias se esvaem na rotina – logo, querer marcar o fim de um período e o início de outro faz parte de nós. Dividir a vida com outra pessoa, com certeza, está no rol de intenções que merecem uma data especial no calendário.

Em 2012, aconteceu o primeiro casamento. Apartamento financiado, reforma terminada, marcamos um chá de casa nova, com direito a véu feito de embalagem de brigadeiro para mim e cartola de papelão para ele. Apesar de, para alguns, aquilo já oficializar nossa união, continuamos nos chamando de “namorado” e “namorada”. Faltava algo…

Depois de um ano morando juntos, surpreendi o Gustavo na comemoração do aniversário de namoro. “Quer casar comigo?” era uma das últimas frases da carta de três páginas que escrevi com os olhos marejados. O “sim, claro!” dele foi tão empolgado que me deu a certeza: promover uma festança para comemorar dez anos juntos, em 2014, era nossa próxima meta.

Resolvemos a papelada ainda em 2013, o que configurou o segundo casamento, com cartório e almoço em família. O status mudou para “namoridos”, e ponto. O verdadeiro ritual de passagem, no entanto, estava a caminho.

Contamos com a ajuda de uma assessora de casamentos e mergulhamos nos detalhes. Tudo foi escolhido a dedo. Sempre decidindo pelo mais caro ao coração. Reinventamos as tradições de forma que tivessem sentido para a gente. “Mãe, seus quitutes são os mais gostosos do mundo. Você faz o bolo dos noivos?” “Mas, filha, não sei fazer coisa assim bonita!” “Ficará lindo porque é você quem fará, mãe.”

O tio Sadi foi o primeiro dos cinco irmãos da minha mãe a conhecer o Gustavo, a quem logo adotou. Pois convidamos ele, administrador de empresas, para ser nosso celebrante. O Giuliano, irmão do Gu, toca violoncelo, e o Marcio, meu irmão, violão e canta – “Querem ser nossos músicos durante a cerimônia?” Meu pai se encarregou do brinde, que seria entoado em alemão com o coral de amigos da infância dele!

Aproximava-se o dia 2 de março, domingo de Carnaval, e a grande interrogação pairava sobre a cerimônia: gostávamos da parte em que se diz “sim!”, porém não queríamos o peso da promessa eterna. Matutamos até encontrar o formato que considerávamos ideal. Uma fazenda no interior paulista serviria de cenário rústico e acolhedor. Para curtir ao máximo, invertemos a ordem dos fatores: primeiro, o almoço e, depois, a cerimônia. Quando chegou o grande dia, Santa Clara garantiu o sol. De vestido curto e sandálias vermelhas, recepcionei os convidados ao lado de um noivo de gravata-borboleta e blazer xadrez. Na hora do sorvete, os presentes assistiram, em vez de valsa, a Gustavo e eu dançando a versão de Frank Sinatra para The Way You Look Tonight.

Pouco depois, o Antonio, priminho do Gustavo, tocou o sino do casarão. Todos a postos para a entrada do noivo, que trocou as meias laranjas – cor preferida da noiva – pelas roxas, tom que, aliado ao verde, completava a paleta do evento. O carinho morou em cada microdetalhe! De braços dados com a mãe e o pai, ele caminhou rumo ao pergolado enfeitado com singelas flores do campo, ao som do tema de O Poderoso Chefão. Há música melhor quando a família é italiana?

Minhas madrinhas de um lado, os padrinhos dele de outro. Tio Sadi ao centro. Gustavo ali. Era minha vez. Respirei fundo. Tremia. Mas estava bem ancorada: à esquerda, seu Victor me amparava e, à direita, a dona Lucia. Entramos envolvidos em olhares queridos. Não havia bênção mais importante do que a dos familiares e amigos. Ver aqueles rostinhos ali me emocionava profundamente. “Gustavo, você é o salmão do meu temaki”, foi uma declaração que não soou nada estranha aos presentes. Era meu jeito simples e profundo de dizer quanto ele era fundamental para mim: as palavras foram inspiradas em nosso cotidiano.

Depois de ouvir o que o Gustavo tinha a dizer – “Parte de mim não mora mais aqui – está em você. Mas não me sinto incompleto, porque metade sua está aqui” –, coloquei a palma da minha mão sobre a dele, e passamos a receber do tio Sadi sete fitas de cores diferentes. Cada uma representava uma bênção: o amarelo nos trazia a sabedoria divina; o vermelho, a paixão… A última fita, a laranja (otimismo e generosidade), veio acompanhada de uma reflexão: “Não há como sair daqui com as mãos assim, ocupadas. Laços constroem, mas amarras, não. É fundamental haver liberdade. Outro símbolo substituirá as fitas: a aliança”, proferiu o celebrante. Abriu-se a porta do casarão e minha avó (nossa última ancestral presente de carne e osso) apareceu trazendo o par de anéis. Um minuto de silêncio coroou a celebração, em que cada convidado fez a própria oração, conforme sua crença.

“Assopre bons ventos aos noivos” era o que se lia na embalagem das bolhas de sabão. Depois houve o brinde, as marchinhas carnavalescas, o bolo e docinhos… Curtimos do meio-dia à meia-noite. Diversos casais disseram que nossa história os inspirou – por que não renovar os votos e reafirmar o amor? Pela primeira ou décima vez, tanto faz. Gustavo e eu tivemos nossa fenda no tempo e no espaço. Fecho os olhos e acesso tal sensação, elixir para a alma nos perrengues do dia a dia. Agora, sim, marido e mulher.

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