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Tempo: ele está passando mais rápido? Dá para desacelerar?

O relógio do mundo contemporâneo bate cada vez mais rápido. Em resposta, surge a necessidade de equilibrar os ponteiros internos e externos

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Enquanto o tempo acelera e pede pressa, eu me recuso, faço hora, vou na valsa.” O ato de rebeldia manifesto na canção Paciência, composta pelo músico pernambucano Lenine, ainda é para poucos. No Ocidente, sobretudo nas grandes cidades, a maioria das pessoas responde à pressa com mais pressa. E, assim, o culto da velocidade se retroalimenta, constituindo um dos males da atualidade. Vive-se com a incômoda sensação de que as 24 horas do dia são insuficientes para a montanha de afazeres que só tende a espichar. Antes que se possa colocar a culpa no relógio, cujos ponteiros, segundo rumores, estariam em franca aceleração devido ao aumento da velocidade de rotação do planeta, a física está aí para absolver o medidor universal de tempo. “O período de rotação da Terra aumenta cerca de 0,002 segundo por século, ou seja, serão necessários 100 mil anos para que ele aumente 2 segundos. Portanto, a velocidade de rotação do globo não influencia de maneira real a passagem do tempo para nós”, esclarece Adilson de Oliveira, doutor em Ciências e professor associado do Departamento de Física da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), autor de A Busca pela Compreensão Cósmica (Edufscar). Se o tique-taque segue sua cadência costumeira, o problema só pode estar no cronômetro interno do homem contemporâneo. “Fisicamente, o tempo não está sendo alterado. A sensação que temos de que ele está passando mais rapidamente está relacionada com o estilo de vida que adotamos”, assegura o físico.

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“Desacelerar é possível”, Didi Sudesh, raja iogue

A raja iogue indiana Didi Sudesh, coordenadora da Brahma Kumaris, na Alemanha, esteve recentemente no Brasil e ministrou a palestra Desacelerar É Possível: em Harmonia com o Tempo. BONS FLUIDOS conversou com ela.

BF: De que forma podemos construir uma relação amistosa com o relógio?

DS: Precisamos diminuir o ritmo. Quando estamos relaxados, nossa eficiência aumenta. A energia muda quando colocamos plena atenção nas tarefas e tomamos o tempo como amigo.

BF: Como melhor aproveitar o tempo livre?

DS: Voltando-se para dentro, a fim de explorar o tesouro espiritual. Assim, quando retornamos ao trabalho, o conhecimento adquirido será aplicado. Há uma reapropriação da confiança, do autorrespeito e da apreciação.

Aprender a priorizar

 

“Há cada vez mais demandas com as quais se deve lidar, mas o dia continua tendo apenas 24 horas. A sensação, portanto, é de compressão do tempo”, concorda Luís Mauro Sá Martino, doutor em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), autor de Comunicação e Identidade (Paulus), entre outros títulos. Não bastasse o acúmulo de tarefas e funções, a instantaneidade que norteia o uso das tecnologias digitais passou a turbinar o dia a dia. “A possibilidade de estar conectado a todo momento preencheu alguns espaços de tempo até então livres”, aponta Martino. “O excesso de estímulos e informações compromete a produtividade e a qualidade de vida”, diagnostica Christian Barbosa, especialista em gestão de tempo e autor de Equilíbrio e Resultado – Por Que as Pessoas Não Fazem o Que Deveriam Fazer? (Sextante), entre outras obras. Antes que a saúde e o bem-estar paguem pela aceleração, precisamos aprender a planejar e priorizar. Dois verbos-chave dos novos tempos, de acordo com Barbosa. A expressão “tempo líquido”, cunhada pelo sociólogo polonês e crítico da modernidade Zygmunt Bauman, sintetiza outro aspecto relevante desse debate. Ao forjar tal metáfora, o intelectual disseca, com rigor, a sociedade do século 21. De acordo com essa análise, o novo envelhece em tempo recorde, as relações começam e terminam num piscar de olhos, as identidades se reformulam do dia para a noite. Impera em diferentes campos da existência, portanto, a lógica do consumo e do descarte instantâneo. O que, segundo o estudioso, contribui para acirrar a sensação de que o tempo escorre silenciosamente.

 

A histeria em relação ao correr das horas, entretanto, é anterior ao boom dos smartphones e tablets. No início dos anos 80, o médico americano Larry Dossey já havia atentado para o que ele chamou de “doença do tempo”, em referência à obsessão coletiva de que os minutos nos escapam e, portanto, é preciso acelerar a passada na tentativa de agarrá-los. Soma-se a isso a identificação com o ritmo postulado pelo capitalismo, segundo o qual precisamos extrair o máximo de produtividade das horas. Eis o berço de um ideal de conduta que resultou em excessos e desequilíbrios como esgotamento físico e mental, ataques de ansiedade e daí para pior.

Desacelerar é a meta

 

O historiador escocês Carl Honoré, difusor do movimento Slow – que prega a desaceleração das atividades cotidianas –, se percebeu como parte dessa manada ensandecida. O choque de realidade o sacudiu ao se ver numa livraria em vias de comprar um livro para o filho pequeno intitulado Histórias para Fazer Dormir em Um Minuto. Isso porque a vida “transformou- se numa corrida de obstáculos para tentar encaixar mais coisas no dia”, ele escreve no livro Devagar – Como um Movimento Mundial Está Desafiando o Culto da Velocidade (Record). “Quero ser capaz de ler para o meu filho sem ficar olhando para o relógio. Quero encontrar uma maneira de viver melhor.” Outro rebelde, como o cantor Lenine.

 

Nem todos têm essa clareza. A dinâmica da urgência perene e da maximização do tempo foram introjetadas de tal modo que passaram a moldar a percepção acerca dos processos orgânicos e psíquicos, do desenvolvimento profissional, da construção da intimidade e até do desfrute do lazer – basta lembrarmos que alguns roteiros de férias excluem o descanso propriamente dito. Acontece que certas coisas  possuem cadência própria. A digestão completa leva de 24 a 72 horas para se efetivar, a gravidez, cerca de nove meses, cada estação do ano, 90 dias. Na visão do filósofo italiano Mauro Maldonato, autor  de Passagens de Tempo (Edições Sesc SP), suprimir essas nuances em nome do pragmatismo equivale a esvaziar a própria vida de significados profundos. Segundo ele, tal postura inibe a assimilação da experiência vivida, por meio da qual o tempo se manifesta, englobando “outras esferas do humano: a recordação, a espera, a esperança, a coragem, a nostalgia”, escreve.

 

A terapeuta eutonista Andréa Bomfim Perdigão, autora dos livros Sobre o Silêncio e Sobre o Tempo (Pulso), de São Paulo, reconhece a importância desse resgate. “Há uma distorção da velocidade com que a vida deveria acontecer e o corpo é a porta de entrada para a desaceleração”, afirma. A profissional sensibiliza seus pacientes por meio de manobras e toques sutis. Ela busca acordar o indivíduo para a sua realidade interna, para o vasto espectro de sensações, sentimentos e percepções acessíveis somente na quietude. “Estamos pouco presentes na vida porque há muita distração, sem falar que o trabalho invadiu a rotina de forma descontrolada”, adverte ela, que defende a revalorização do ócio, do respiro entre chegar e partir para a próxima tarefa, da chance de olhar nos olhos do interlocutor, de apreciar o pôr do sol, de estar ao lado de alguém que precisa de ajuda. Ao apagarmos esses momentos vitais da agenda, acumulamos tensões nas articulações e nos músculos. Constrições que, segundo a terapeuta, geram dor, desconforto, enrijecimento. “É comum o paciente não perceber que está balançando os dedos sem parar ou movimentando os globos oculares de um lado a outro enquanto tenta relaxar de olhos fechados”, conta. “Nas pausas, olhamos para dentro de nós mesmos, para o que está bom e para o que está ruim. Tomamos conhecimento da vida”, destaca Andréa.

 

Para Barbosa, o bom balanço da vida é alcançado quando o indivíduo é capaz de alinhar o que quer conquistar e o que lhe faz bem – afetos, lazer, esporte, cultura, viagens. “Quanto mais tempo dedicamos a nós, maior é a vitalidade, a disposição e a produtividade.” O cientista social Luis Mauro Sá Martino está de acordo: “Aristóteles lembra que o caminho ideal é o equilíbrio: sem excesso de atividades, que levaria a desgastes, sem excesso de descanso, que pode resultar na estagnação”. A questão aqui é superar o receio de parar e, com isso, se desatualizar ou perder o fio da meada, preocupações comuns para quem atua no mundo corporativo.

Busque o equilíbrio

 

A advogada e professora universitária Camila Marques Gilberto, 31 anos, de Santos, no litoral paulista, encontrou a medida do equilíbrio. Mas só depois de enfrentar noites de insônia, crises de rinite e até palpitações provocadas pelo estresse. Workaholic assumida, ela abraçou a intensa rotina do escritório, mais aulas na universidade e o trabalho numa ONG. “Percebi que era hora de abrir mão de algo”, conta. Reduziu o ritmo da advocacia e reintroduziu na agenda o lazer e o contato com pessoas queridas. “Saí do papel de vítima. Meu nível de estresse vem diminuindo e sinto que as coisas estão fluindo melhor”, diz. Renata de Macedo Soares, 54 anos, presidente da Associação Morungaba, em São Paulo, voltada para a inclusão social por meio da dança, atravessou processo semelhante. “Ante a ampliação das atividades da entidade, acelerei meu ritmo”, conta. Sobrecarregada e insatisfeita com a nova dinâmica, sentiu necessidade de restabelecer a harmonia interior. “A eutonia tem me ajudado a olhar para dentro”, revela.

 

Aproveitar bem o tempo significa, segundo a terapeuta Andréa Perdigão, estar inteiro nas escolhas, conferindo consistência e profundidade ao fazer. Nesses momentos de lucidez e paz interior, parece tão óbvia a resposta para a pergunta que não quer calar: para que correr tanto, se a vida é tão rara?

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