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Rio+20: o desejável, o necessário e o possível para um futuro saudável

Para além do fracasso ou do sucesso da Rio+20, a realização da conferência é, em si, uma vitória da persistência sobre o descaso e o desespero

Qual é o futuro que você quer? Nessa pergunta em que o verbo querer poderia ser substituído por desejar, já haveria suficiente desafio se a resposta esperada fosse a de apenas uma pessoa. Para duas, a solução se complicaria um pouco. Será que a satisfação do seu desejo contempla também o desejo da outra pessoa? Ok, mesmo assim, duas pessoas podem conversar, negociar. Se cada uma abrir mão do desejo, aqui e ali, o foco talvez já deixe de ser o “desejável” para buscar o “necessário”. Imagine que já não são apenas duas pessoas, mas 7 bilhões de seres humanos precariamente representados por quase 200 países, divididos em grupos com semelhanças e diferenças políticas, econômicas e culturais. As opiniões dos países são importantes, mas não são tudo diante da variedade de visões e expectativas de milhares de organizações e empresas. Agora considere que, para atender aos interesses de todos e, ainda assim, compartilhar recursos naturais finitos, o desafio de cooperar é maior que o de competir. Assim, a fórmula que começou com desejo terá de buscar uma solução mais realista na direção do necessário e, no final, conformar-se com o possível.

O desejável, o necessário e o possível na Rio+20

 

Foi em torno dessa formulação quase utópica, quase ingênua, da pergunta sobre “o futuro que queremos” que, durante dez dias de junho, quase 50 mil pessoas se reuniram no Rio de Janeiro. A ideia não tem nada de ingenuidade. É muito útil e necessário reunir representantes das nações do mundo, lideranças políticas, intelectuais, científicas, empresariais para discutir um novo acordo sobre o futuro. Do início ao fim a conferência global sobre desenvolvimento sustentável, a Rio+20, falou-se muito do fracasso desse encontro planetário. Analisar um evento assim sob a perspectiva de sucesso ou fracasso, como se fosse uma partida de futebol, é lançar um olhar pobre e simplório sobre uma experiência rica e complexa, que gerou articulações, acordos e compromissos muito mais eloquentes do que os esperados documentos oficiais. Quem quiser pensar em termos de vitória ou derrota que considere, então, se não é vitorioso um movimento que, em apenas um ano, fez com que o entendimento de escolhas sustentáveis, por parte do senso comum, saltasse da simplória imagem de alguém escovando os dentes com a torneira fechada para a compreensão mais ampla de temas e conceitos relacionados a energias renováveis, ciclos de vida de produtos, urgência de mudanças em padrões de consumo, distinção entre valor de uso e valor de troca ou de como certas práticas econômicas do passado pressionam os recursos naturais a ponto de inviabilizar o futuro. Além – e por causa – desse avanço na compreensão dos conceitos, há ações práticas.

Eventos paralelos à Rio+20

 

Durante a conferência realizaram-se milhares de eventos paralelos no Rio de Janeiro. Numerosas empresas, organizações não governamentais e administrações de grandes metrópolesforam muito mais ágeis, assertivas e avançadas do que as representações nacionais reunidas no encontro oficial. Só para citar alguns exemplos, um grupo de 40 megacidades fezum ousado acordo para reduzir as emissões de gases causadores de efeito estufa, numa quantidade comparável a toda a emissão anual do México. O setor empresarial, que 20 anosatrás esteve praticamente ausente da Rio-92, agora, durante a Rio+20, liderou a realização de compromissos voluntários, reconhecendo o valor do capital natural e comprometendosea usar os recursos naturais de forma responsável. Ao longo de quatro dias mais de 3 mil pessoas, representando cerca de 1 500 empresas de 60 países, participaram de eventos do Global Compact – o braço da ONU para relação com a iniciativa privada – e produziram 220 compromissos. Um deles, proposto e difundido pela Rede Brasileira do Pacto Global, estásendo subscrito por centenas de empresas brasileiras. São cerca de 700 compromissos voluntários assumidos por empresas, governos e sociedade civil de dezenas de países, no valor de mais de US$ 500 bilhões. Houve ainda uma grande participação na chamada Cúpula dos Povos, no aterro do Flamengo, por onde passaram mais de 350 mil pessoas entre os dias 15e 22 de junho. Cerca de 14 mil ativistas brasileiros e de redes internacionais, assim como mais de 7 mil organizações não governamentais, participaram de manifestações, numa perspectiva geralmente crítica ao evento oficial. A Cúpula foi também um ponto de livre expressão individual sobre esse desafio todo. Foi lá que os videomakers Rudah Poran e JoãoJasmim gravaram dezenas de depoimentos – com alguns aqui reproduzidos. São respostas à pergunta “que futuro queremos?” que trazem a questão para uma perspectiva muito individual e prática. “Eu só quero um futuro simples e harmonioso, no qual eu possa comer bem, beber bem, dormir bem”, diz o chinês Ke Liang. “Só quero uma vida mais simples.”Num mundo em que, como diria Oscar Wilde, “sabe-se o preço de tudo e o valor de nada”, os grandes desafios estão em reconhecer valores que hoje não fazem parte das contas – eque, por isso mesmo, são erroneamente considerados inexistentes, gratuitos ou destituídos de valor-, como o capital natural, o bem-estar ou mesmo a felicidade.

Num contexto de crise econômica internacional, os governos estão mais contidos do que nunca. E, mais uma vez, a sociedade saiu na frente. Sejam representantes de grandes empresas ou de organizações ligadas à defesa da natureza, várias lideranças reconhecem o avanço obtido pelo grande encontro global para além dos acordos entre países. A Rio+20 é um processo de mudança para um contrato social que faça mais sentido do que o contrato atual, com cidades paralisadas por excesso de meio de transporte, como se essa situação fizesse parte de uma fórmula que não pode ser questionada ou melhorada. Como se fosse aceitável considerar glamouroso o mais belo design industrial que em algum ponto de sua cadeia incorpora trabalho escravo ou joga a conta na destruição da biodiversidade. Não se trata, como disse Marina Silva num dos encontros, de adotar uma atitude otimista ou pessimista. “Trata-se de ser persistente.”

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