Paulinho Moska: a espiritualidade na visão de um músico

O berço do compositor carioca Paulinho Moska foi católico, mas a música, a poesia e a filosofa acabaram iluminando a vastidão da sua alma.

Por Texto: Raphaela de Campos Mello | Ilustração: Gustavo Duarte Atualizado em 14 dez 2016, 12h36 - Publicado em 8 jan 2014, 16h43
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Distante de dogmas religiosos, Paulinho Moska mantém um pacto com o belo: sua janela para o lirismo.

Sob o lago sereno sobre o qual Paulinho Moska (apelido da fase escolar suscitado por uma careta que fazia no grupo de teatro) parece planar, há rios de inquietação. Mais do que um poeta à deriva, como seu semblante apaziguado pode fazer crer, esse carioca de 46 anos é um formulador de “perguntas insatisfeitas”. Em vez de garimpar respostas satisfatórias para suas questões essenciais, prefere se embrenhar na arte de “juntar coisas”. Por isso, se autodenomina compositor, no sentido mais largo do termo. Costura ideias, inventa realidades, potencializa sensações e sentimentos. Nesse exercício constante de estar conectado tanto com o mundo de fora quanto com o de dentro, encontrou o caminho da sua espiritualidade, bem diferente da formação católica praticada até a adolescência. Dali em diante, a arte, a filosofia e a poesia lhe “caíram melhor”, justifica. Guiado por esses faróis, tem se acercado do mistério que recobre as manifestações invisíveis e inexplicáveis. Virou devoto da beleza, sua condutora para o sublime. Sua missão nesta encarnação – a única, segundo ele – pode ser assim resumida: “Nada me deixa mais feliz do que pensar que minha poesia pode despertar no outro o caminho da sua própria poesia. O caminho de si mesmo”. Por onde passa, Moska derrama lirismo, brinca com as palavras, extrai formosura. Cada mínima ondulação do cotidiano, seja um voo mental, um diálogo, um enquadre fotográfico, uma nova sonoridade, o afeta e transforma. Vivendo e compondo, sem descolar uma instância da outra, já que na visão dele qualquer pessoa é uma obra de arte em construção, Moska ultrapassa a superfície do real – e vai além, muito além. Por tudo isso, encanta, ao lado dos grandes letristas da música popular brasileira. “Não somos mais / Que uma gota de luz / Uma estrela que cai / Uma fagulha tão só / Na idade do céu…” Os versos da canção A Idade do Céu, assim como sua obra em geral, têm essa qualidade de tocar os ouvintes, transportando-os para o essencial que há em cada um, não raro, transformando-os. É diante da enxurrada de coisas belas egressas do mundo sensível do artista que BONS FLUIDOS coloca você.

A música, além de vocação e ofício, é um meio de transcender a realidade ordinária das coisas?

Talvez por ser invisível e ao mesmo tempo onda física, a música seja um delicioso meio de transporte. Cantando, tocando ou ouvindo, pode-se fazer uma viagem por meio dela. Não a vemos, mas seguramente ela está ali, como que dentro do nosso corpo. É a mesma analogia que fazemos quando falamos de energia, alma ou espírito. Não podemos vê-los, mas sentimos a “presença” deles. Mas não só a música tem essa qualidade. Todo processo intenso e criativo de composição leva a uma transcendência, um torpor, um enlevo, uma flutuação. Compor é inventar sua própria realidade.

O processo de uma composição está mais para o céu ou para o inferno?

Compor uma canção é sempre difícil e prazeroso, é inferno e céu misturados, é dança de improviso e rigor e é sensação de delícia e desafio. Acontece inteira de repente ou demora tempos infinitos em cada pedacinho. Por outro lado, viver é inevitavelmente compor o tempo todo. Todos os dias cada um de nós está em processo de composição, juntando coisas de acordo com seu critério, que também vai se modificando pouco a pouco durante a vida. A vida de qualquer pessoa é uma obra de arte em processo. Quando se tem consciência disso, cada instante passa a ser fundamental para essa construção.

Se o ato de compor é, como diz, juntar coisas, que coisas são essas que entusiasmam você?

São coisas invisíveis que explodem nas sensações causadas pelas coisas visíveis. Meu radar para as identificar é nada mais que o sistema perceptivo. Olhos para ver a riqueza das imagens, boca para mastigar palavras, nariz para os aromas do vento, pele para o abraço, ouvidos para escutar silêncios, pensamento para transcender e viajar. Junte a esse sistema as faculdades da memória, do sonho, do afeto, do maravilhoso. O radar é o mundo sensível que cada um compõe em si mesmo. E o modo como você se relaciona com esse mundo sensível é que aumenta a potência do seu radar, que nada mais é que seu olhar poético.

Em seus momentos solitários, nos diálogos que trava com a existência, alguma vez já procurou por Deus ou algo acima de nós mortais?

Existir é um ato solitário. Fui criado numa família católica moderna, sem obrigações. Cheguei a me dedicar um pouco ao catolicismo na adolescência e até toquei na banda da igreja por uns dois anos. Acho a Bíblia um maravilhoso livro sobre o amor. Mas os poetas e artistas me chamaram mais atenção, com uma ideia de mundo mais dinâmica e livre. A filosofia, a arte e a poesia me caíram melhor, com mais perguntas do que respostas. Acho melhor não ter uma resposta única e viver dentro da pergunta. A pergunta pode oferecer uma resposta diferente e surpreender. E a surpresa é uma das coisas invisíveis mais lindas da vida porque vivemos um mundo muito previsível, que tende a uma igualização de comportamentos e culturas. A surpresa é a potência do acaso que interrompe os padrões e aponta saídas para a liberdade.

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Com a música, Paulinho Moska estabelece a mais íntima das correspondências: a alimenta e é alimentado por ela.

Desde quando você estuda filosofa?

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Nunca estudei filosofia. Não sei nada de história da filosofia. Não sei qual pensador veio antes de um outro ou mesmo sobre seus conceitos. No entanto, aprendi a pensar, aprendi a filosofar as experiências do meu vivido. Aprendi a refletir com poesia o mundo à minha volta. E aprendi que, em vez de buscar respostas satisfatórias, eu deveria era procurar por perguntas insatisfeitas. Uma pergunta insatisfeita é aquela em que a resposta dada ainda não deu conta do sentido a que ela se propõe. Frequentei por cerca de quatro anos um grupo de estudo (muito livre) ministrado pelo falecido filósofo Claudio Ulpiano (meu pensador predileto). Um dia, depois de uns seis encontros, perguntei a ele o que afinal de contas estávamos estudando. Claudio me respondeu: “Estamos estudando beleza, via Gilles Deleuze [filósofo francês (1925-1995)]”.

Como você define sua relação com a espiritualidade?

Onde encontra esperança? Sou ateu, então minha espiritualidade não passa por nenhuma religião conhecida. Não é fácil ser ateu. Você tem que lidar com um mundo materialista e sem esperança de vida depois da morte. Ao mesmo tempo, se tudo vai acabar, então você só tem esta vida para ser uma pessoa boa. Esta é sua única vida: o que fazer com cada instante dela? Gosto de física quântica, da ideia de que tudo está conectado e que cada gesto, palavra, pensamento, sentido e instante modifica o mundo todo o tempo inteiro. Se realmente queremos saber o que somos, temos que desvendar nossa matéria-prima. Eu me alimento de inquietações. E tenho esperança no tempo puro, o tempo original, em que passado, presente e futuro estão misturados.

Sua poesia se alimenta de quê?

De vida, porque minha vida se alimenta de poesia. A poesia em si não existe, o que existe é o olhar poético. Se não olhamos com poesia para o mundo, dificilmente enxergamos poesia nele. É como se ela vivesse escondida nas entrelinhas, nas sombras, nos vazios, nos vácuos e só com o nosso olhar curioso e aventureiro conseguíssemos iluminá-la. A experiência do vivido é singular, única. Somos todos diferentes, percebemos diferentemente as coisas. Nada me deixa mais feliz do que pensar que minha poesia pode despertar no outro o caminho da sua própria poesia. O caminho de si mesmo.

As parcerias musicais são uma espécie de comunhão entre almas irmãs?

Toda arte é uma comunicação de alma para alma e desenha em si uma comunhão. Por trás da obra formal (do desenho, da pintura, da coreografia, da canção ou de uma escultura) pulsam também intensidades, forças, enigmas, qualidades e dificuldades do artista, coisas do mundo sensível endereçadas ao mundo sensível do outro. Coisas que o raciocínio e o intelecto não dão conta. Sou muito criterioso com parceiros. Compor em parceria é de uma intimidade muito grande. Encontrar uma vibração comum, satisfazer-se e satisfazer o outro é quase um ato sexual. Você deixa no outro uma marca e fica com a marca dele em você. Recebo muitos poemas lindos pela internet, mas, se eu não conheço a pessoa, não consigo compor junto. Gosto muito de sexo, mas com amor.

O poeta Ferreira Gullar diz que é preciso inventar um sentido para a vida já que sentido para ela não há. Você já inventou o seu?

Viver é inventar sentidos. Inventamos sentidos todos os dias, mesmo contra nossa vontade. Inventar sentidos é a matéria-prima da vida. É disso que a vida é feita, de invenção de sentidos.

Você continua acreditando que o grande barato da vida é aquilo que a gente não sabe explicar?

Como artista não me obrigo a nada. Arte, para mim, é sinônimo de liberdade. O cotidiano, o tempo, as pessoas e o mundo são meus campos de experimentação ao mesmo tempo que eu também sou um campo de experimentação do cotidiano, do tempo, das pessoas e do mundo. Me ofereço para receber.

A fotografa é mais que um hobby?

A fotografia é mais um hobby. Tenho muitas coleções, gosto de quantidades de coisas porque só parando para contemplar os detalhes é que se descobre a riqueza de cada elemento. Na fotografia, tento estabelecer diferentes relações com a luz para descobrir ou inventar novos mundos possíveis de acordo com o ângulo ou o momento. Recortar um instante da linha do tempo e eternizá-lo como um freio ou um refrão de canção. Uma imagem fala mais do que palavras. Fala diferente, numa linguagem sensória. Fotografo para multiplicar os infinitos.

Hoje, você é capaz de encher o peito e entoar: “Eu acredito em…”?

Eu acredito na arte, na vida e na liberdade, que são todas a mesma coisa. Invisíveis, mas cuja presença somos capazes de sentir…

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