Os sete sentidos

O sexto, o sentido da intuição, de uma percepção do invisível, não é privilégio de um povo específico. Mas só os japoneses nascem com uma clara noção estética, o sétimo sentido que gerou essa cultura singular

Por Da redação Atualizado em 20 dez 2016, 22h52 - Publicado em 19 fev 2008, 17h07
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O Japão que você não pode perder

O portal

 

Observe o fluxo humano na estação de metrô de Shibuya, o burburino matinal do mercado de peixes de Tsukiji, os jovens de Harajuku vestidos displicentemente em Armanis e Louis Vouittons. A Tóquio dos filmes e dos noticiários parece não se conectar com o Japão tradicional. Puro engano! Nesse arquipélago sem herança de revoluções o que houve foram “sobreposições de épocas, como se a história do país fosse feita com camadas de papel transparente. É possível ver o que está lá embaixo, o que se passou há séculos”, ensina Jo Takahashi, diretor cultural da Fundação Japão, de São Paulo.

Veja como se inclinam em deferência ao outro – em 5, 15 ou 90 °, obedecendo à hierarquia ou à idade. Veja como as moças que portam quimonos nunca se deixam fotografar eretas, mas sempre em sua posição habitual, com um calcanhar levemente erguido, o quadril em suave rotação. “Existe uma forma para todo gesto humano: segurar um cartão de visita, entregar um presente, bater a uma porta”, fala a professora Susan Hirata, para quem “essa é uma cultura que viu beleza na precisão”. É ainda a cultura que dialoga com a natureza e que capta o belo em todos os estágios dos seres e dos artefatos. Quem já presenciou uma cerimônia do chá sabe quanto é importante envolver o ionomi (a xícara sem asas) com as mãos, sentir a textura, apreciar a cor. Assim como o sumiê, o jardim e a caligrafia, o hábito de tomar chá veio da China. Mas tudo ganhou um novo desenho no país onde design é uma faculdade inata. Por isso parecem estar sempre alguns passos à frente do resto do mundo.

A cerimônia do chá, tão cheia de significados e gestos calculados, acontece em espaços idealizados especialmente para ela. A pequena sala onde tudo transcorre fica atrás de um portal de bambu. Você o transpõe e começa a limpar os sentidos.

O Pleats Please, de Issey Miyake: um plissado que remete ao interior de um ba...

As pedras

 

Tóquio abriga 30 milhões de habitantes e algumas das mais instigantes obras arquitetônicas da atualidade. Ginza concentra 500 galerias de arte. Harajuku é a meca das melhores grifes do planeta, que deixam no Japão país um terço de sua produção. O país ocupa o primeiro lugar o ranking mundial do chamado consumo de luxo, de acordo com Carlos Ferreirinha, consultor especializado nesse segmento. Não por acaso, os japoneses são agraciados com algumas das lojas mais especiais dessas marcas. O edifício da Prada é o que o designer Marcelo Rosenbaum define como “uma experiência sensorial”. A fachada, composta de um mosaico de vidro laminado, uns planos, outros curvos, faz a luz incidir de maneira mágica sobre o interior clarinho. A moda é incorporada ao dia-a-dia. No país de Yohji Yamamoto, Rei Kawakubo e Issey Miyake, que, como bons japoneses, trazem a natureza para suas insuperáveis composições, nada parece uma ostentação. Rosenbaum já passou muitas horas entregue ao espetáculo visual de Harajuku, com suas meninas vestidas de boneca, punks, darks e pessoas comuns que portam qualquer grife milionária com a naturalidade de quem já nasceu com ela. “As pessoas editam a moda de um jeito próprio e com muito bom gosto”, diz Rosenbaum, que em sua segunda visita ao país achou tudo mais emotivo. “Hoje a tecnologia é simplesmente suporte”, acredita. Por isso depara-se com Ipods em algumas araras, como se sugerissem uma trilha sonora para cada roupa. O que também fascina o designer é a educação e o respeito com que todos se tratam, incluindo o estrangeiro – fenômeno curioso para uma metrópole. Mas é apenas o fundamento de uma nação.

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Na cerimônia do chá, uma vez transposto o portal de bambu, o convidado passa por um caminho de pedras antes de chegar à sala do ritual. As pedras estão sempre úmidas – assim o anfitrão demonstra o cuidado com as visitas. Ande por esse pequeno jardim, limpe a sua visão.

Um título para uma foto sem titulo

A portinhola

 

As expressões estéticas japonesas são designadas como caminhos (ou dô). Kadô é o caminho da flor (o ikebana); Chadô é o caminho do chá; koudô, o caminho do aroma. Não por acaso. “O Japão é um país cheio de cerimônias, cheio de caminhos e trajetos. O desenlace não é o mais importante, mas a lapidação contínua e constante. Não existe começo, meio e fim. Existe o todo”, interpreta Jum Nakao, estilista brasileiro que aprendeu em casa e também in loco o jeito de ser desse povo. Em 1987, ele passou por um estágio de quase quatro meses no estúdio de Issey Miyake. “Há uma precisão em se criar o imperfeito”, diz. O termo wabi sabi, tão caro a eles, designa bem esse conceito: sabi é a estética do imperfeito; wabi significa ferrugem e, etimologicamente, carrega também o sentido de pobreza, de absoluto despojamento.

Nakao ficou impressionado com a qualidade da mão de obra e com a diversidade de recursos que presenciou no estúdio de Miyake. Prova que a herança do rigor está totalmente enraizada. A cerimônia do chá foi desenhada – da mesma forma como são milimetricamente desenhados os jardins japoneses – no século 16. Tudo está contido numa espécie de constituição: medidas, alturas, número de tatames, a posição das mãos. “Ela encerra os valores máximos da cultura”, conta Susan Hirata.

Depois de caminhar pelas pedras, o visitante chega à saleta por uma portinhola que o obriga a se inclinar, assim como obrigava os samurais a deixar do lado de fora suas espadas. Atravessadas no corpo desses guerreiros, que marcaram a história do país até 1877, quando foram derrotados em massa pelo exército do imperador, elas não cabiam em um espaço tão exíguo. Ali, fosse qual fosse a patente, todos deviam depor as armas.

Máscara usada no teatro nô: as sobrancelhas altas significam sabedoria.

O chá

 

A anfitriã sabe o tempo certo de cada detalhe. Com um leque, em movimentos curtos, ela desloca o ar suficiente – nem mais, nem menos — para acender o fogo. A água fervendo despolui a audição. A xícara liberta o tato. O aroma e o paladar da bebida liberam todos os sentidos terrenos. A cerimônia pode demorar, mas esqueça. É bem diferente a relação deles com o tempo. Os atores do teatro Nô, uma das expressões cênicas japonesas mais conhecidas no ocidente, ao lado da Bunraku e do Kabuki, é considerada patrimônio da humanidade. Os atores são iniciados nessa arte de canto e dança aos quatro anos de idade. Quanto tempo contado em minutos, dias e anos será necessário para que eles se tornem virtuoses? “Conhecimento é para a vida toda”, diz Susan, exímia na técnica do sumiê, a arte de pintura que extrai o máximo de expressividade com o mínimo de traços. Princípio semelhante ao do Nô. As máscaras usadas pelo protagonista do Nô são esculpidas em árvores de 300 anos. Com 700 anos de tradição e um repertório fixo, em japonês arcaico, o Nô não permite que o ator tire os pés do chão. Ele encena o mesmo papel ao longo da vida, desliza em uma coreografia matemática e pode, mesmo, parecer flutuar. O ator Sano Hajime, um virtuose, detentor do título de tesouro nacional vivo no Japão, esteve no Brasil com a peça Hagoromo – O Manto de Plumas, em 2001. A certa altura, alguém lhe perguntou sobre significado do Nô. “Basicamente, ele responde, “é aprender a caminhar”.

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