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Mergulhe no universo da Índia

A Índia desconstruiu ideias, mostrou que os planos não passam de uma ilusão de controle e que a razão é pequena para explicar o mundo. Desvende-a.

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A Índia não estava nos meus planos. Embarquei sem trabalho ou endereço definidos, com dinheiro emprestado e uma mala de 10 quilos, que, pela primeira vez, viajou sem cadeado. Um ano antes, recém-iniciada no universo da kriya ioga e entusiasmada com as possibilidades que ele propõe, soube que um grupo de praticantes de vários países se reuniria em uma peregrinação ao Himalaia. Racionalmente, o momento estava longe de ser oportuno. Mas, por sorte, a razão é pequena para explicar o mundo. Antes que a lógica exigisse esclarecimentos – como iria pagar pela empreitada? –, eu já havia decidido em segredo que aquela seria minha primeira e particular viagem ao Oriente.

A três meses da partida, agendada para setembro de 2013, as chuvas de monção se anteciparam e atingiram o norte do país, nosso destino. O Ganges transbordou, provocando inundações, deslizamentos e mortes. Estradas que percorreríamos desapareceram e a viagem foi cancelada. Anotei no caderninho, para não esquecer mais: planos não passam de uma ilusão de controle. Tecnicamente, essa descoberta invalida a primeira frase do texto. Mas deixemos os planos ali em cima, como lembrança de uma entre tantas ideias que a Índia desconstruiu.

O Himalaia teria que ser adiado em um ano por causa das condições climáticas. Como nossos bilhetes aéreos perderiam a validade até lá, a solução veio em uma mudança de rota, mais precisamente para o sul da Índia. Eu e cinco queridos companheiros brasileiros encaramos uma saga de troca de passagens, cancelamentos e remarcação de hotéis. Parecia piada. Eu me sentia como Aquiles atrás da tartaruga: por mais que corresse, nunca conseguia alcançá-la. É que a ordem era esperar, não correr. E fui entendendo isso aos poucos. Assim, acabei pacientemente encerrando ciclos e deixando as mudanças virem. Mal pude acreditar quando finalmente pisei em solo indiano.

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O silêncio

Gostei da Índia de cara. Soube disso em plena muvuca, a pé entre motos, buzinas, vacas, pedestres e ônibus lotados. Atravessar uma avenida relativamente estreita parecia impossível e me dava vontade de rir. Em meio ao barulho, eu começava a entender a importância do silêncio. Estávamos em Tiruvannamalai, no estado de Tamil Nadu. A cidade, que tem por volta de 150 mil habitantes, foi morada de Ramana Maharshi, considerado santo e um dos maiores sábios indianos do século 20. Seus ensinamentos eram transmitidos, na maioria das vezes, em completo silêncio. Talvez isso explique a necessidade imperativa de aquietar que nos toma. Aprendi a me comunicar com as pessoas mais próximas em silenciosa eloquência. Vi seus olhos expressarem gratidão com muito mais precisão do que as palavras.

Ainda sinto no corpo a gentileza mansa do ashram de Ramana. No salão principal, um imã invisível nos mantém em órbita ao redor de seu túmulo. Todos os dias, homens e mulheres cantam em louvor ao Monte Arunachala, próximo ao qual foi construído o eremitério (um termo que aprendi lá e quer dizer o mesmo que ashram). Segundo algumas tradições do sul da Índia, a montanha seria o próprio deus Shiva. Caminhar em torno dela – uma volta tem cerca de 14 quilômetros – e meditar nas cavernas onde Ramana Maharshi viveu foi, para mim, o vislumbre de uma realidade sem urgências, regida pela mais perfeita calma.

Nunca duvidei da existência de uma inteligência suprema, mas, pela primeira vez, sou apresentada ao divino de maneira tão compreensível. A energia está lá, viva e disponível, para o privilégio e desfrute de todos. Não se trata de acreditar, mas de reconhecer. Compreendo melhor o verso do poeta bengali Rabindranath Tagore que pincei semanas antes da viagem: ‘A liberdade é tudo que quero, mas fico envergonhado de ter a esperança de obtê-la’. Sem que eu me desse conta, minha espiritualidade se intimidava diante da possibilidade de me deparar com algum tipo de charlatanismo místico. Também diante do preconceito de que, para se arriscar em assuntos que a ciência e a academia não dão conta de teorizar, seria preciso abrir mão do senso crítico. O caminho espiritual parecia sempre seara alheia, não minha. Medo, soberba, ignorância, não sei ao certo. O fato é que eu já vinha percebendo que a coisa não era bem assim. Que somente quando nos apropriamos do que já é nosso é que começamos a questionar com verdadeiro discernimento. Ali, ninguém estava tentando me convencer de nada. Então, pude baixar o escudo frágil do ceticismo e assumir para mim, de vez e sem vergonha, o meu desejo de liberdade.

A sensação da entrega, de identificar em você mesmo, de forma clara, algo que as ideias nunca puderam ordenar é libertadora. E, para a minha surpresa, não me dá vontade de abandonar tudo ou passar o tempo que me resta nesta vida buscando a autorrealização em uma caverna. Ao contrário, volto impregnada por um indisfarçável e renovado interesse pelo mundo.

O mundo, claro, está cheio de desafios, e estar na Índia faz lembrar disso a todo instante. Mas talvez eu mesma seja o maior deles. A visita a lugares sagrados, além da prática intensiva de posturas, respirações e meditação, me fez tropeçar em medos, principalmente o do desconhecido, inseguranças e numa mente dramática que transforma qualquer espirro em novela mexicana. Os pensamentos passam por julgamentos rigorosos de mim e do outro, criam histórias e situações que nunca existiram. Tentei – e sigo tentando – observá-los com distanciamento. Mais que silêncio, olhar para si mesmo exige coragem e compaixão.

A tradição

Éramos 20, de nacionalidades e perfis variados. Durante duas semanas, percorremos em um ônibus sete cidades do sul do país. O roteiro foi cuidadosamente pensado pelos professores que nos guiaram para que tivéssemos contato com a antiga tradição dos siddhas, iogues perfeitos cujos ensinamentos milenares dão origem à kriya ioga.

Palani, a 100 quilômetros de Coimbatore, é um desses lugares em que a gente sente um respeito enorme por tudo o que veio antes. Bem diferente de Tiruvannamalai, onde circulam muitos turistas, lá não se vê ocidentais. Nossa presença não passa despercebida. Olhares curiosos nos observam, crianças se aproximam, algumas meninas nos tocam, investigando a textura de nossa pele e cabelo. A cidade é local de peregrinação e abriga um templo dedicado a Murugan, o segundo filho de Shiva na mitologia indiana. O santuário fica no alto de uma colina. Para chegar lá, é preciso subir, descalço, uma escadaria longa e íngreme. A cada um dos cerca de mil degraus, as emoções vão se recolhendo em tranquilidade.

Um dia antes da subida, eu havia perdido meu japamala, espécie de rosário usado para contar mantras que eu levava pendurado no peito. Perguntei a um homem que aguardava em pé na entrada do hotel onde poderia encontrar outro. Ele tinha a pele morena, barba e cabelo grisalhos, e vestia um dhoti laranja, a roupa masculina típica que parece uma saia longa. Falava pouquíssimo inglês. Como não entendo uma vírgula de tâmil, não houve conversa. Agradeci e saí. Depois soube que aquele era Venkatesh, descendente do siddha Pulipani – que acompanhou a construção do templo – e anfitrião do nosso grupo na cidade. Na base da escada, ele fez sinal para que eu aguardasse. Tirou de um saquinho de papel um colar de rudraksha, semente conhecida como lágrima de Shiva, e colocou no meu pescoço. Ao alcançar o topo, eu me sentia nova como o japamala que Venkatesh me deu.

Do lado de fora do templo, meu olhar se perdeu entre os sáris coloridos e as crianças de cabeça raspada, que oferecem os cabelos ao deus. O cheiro é uma mistura de velas, incenso, flores e suor que senti diversas vezes enquanto estive na Índia. No interior, assistimos bem de perto a um majestoso ritual de adoração a Murugan. Sua estátua é lavada, entre outros ingredientes, com leite, óleos e açúcar. Depois de oferecer flores e queimá-las, vestem o ídolo com diferentes trajes. Cada vez que ele é exibido, há um sobressalto de vozes dos fieis. Difícil não se emocionar com a beleza desse espetáculo devocional.

Àquela altura, meus sentidos pareciam mais apurados e o corpo mais leve e sensível. Durante as meditações, sensações físicas sutis ganharam uma intensidade nova. Em Palani, tive dores de cabeça e senti meu coração ser comprimido. Custei a aceitar que um processo que me parecia claramente positivo estivesse se manifestando de uma forma, digamos, negativa. A mente, minha fabriqueta pessoal de bugigangas inúteis e traiçoeiras, não parava: ‘Por que dor? Tem alguma coisa errada. Você é incapaz de se concentrar, pare de fingir que está meditando’. Em algum momento, não saberia precisar quando, comecei a me divertir com os pensamentos impertinentes.

O abraço

O estado do Kerala nos recebeu com um céu avermelhado de fim de tarde. A primeira parada foi Amritapuri, o ashram da Amma, que fica a três horas de carro da cidade de Cochin. Mata Amritanandamayi, a santa dos abraços que esteve no Brasil em 2007, é uma mestra viva, considerada por muitos a encarnação da Mãe Divina. Seu ashram, erguido no vilarejo de pescadores onde nasceu, é um conjunto de prédios coloridos rodeados por água e coqueiros. Os interessados em acompanhar seu itinerário vão gostar de saber que, desde o fim de março, ela tem uma página no Facebook, com fotos, mensagens e informações atualizadas. Nós tentamos a visita sem ter conhecimento se ela estaria em alguma turnê. Logo na chegada, fomos informados: ela estava em casa.

A Amma parece uma criança ao sorrir e dá para sentir o calor da sua presença à distância. Uma vez por semana, alimenta centenas de pessoas, distribui comida aos visitantes e residentes, organizados em uma fila enorme. A rotina de atividades do ashram, que começa diariamente às 4h50 e vai até às 20 horas, inclui meditações coletivas na praia e cantos devocionais, os bhajans.

Muitas coisas poderiam ser ditas sobre uma das maiores líderes humanitárias do planeta. Mas uma cena, em especial, resume a atmosfera que experimentamos perto dela. Na disputada fila para o abraço, sua forma de bênção, uma mulher foi obrigada a retornar e guardar o celular que tinha nas mãos. Na semana anterior, explicaram os guardas, alguém desrespeitou as regras, usou o celular para fotografar a Amma e compartilhou na internet. Portanto, nada de câmeras. Ela tentou argumentar que apenas levava a foto da filha na tela, para que fosse abençoada. Mas não teve jeito. Cansada, depois de horas de espera, entrou sem o aparelho, chorando. Ao ver sua emoção e ouvir a história, a Amma não pensou duas vezes: disse que ela fosse buscar o celular e, carinhosamente, beijou a imagem.

Ao envolver cada indivíduo, incansavelmente, Amma despeja seu amor sobre o mundo todo. Assim que encostei a cabeça no lado direito do seu colo, as lágrimas emergiram num soluço. Em poucos momentos ao longo dos 30 dias em que estive viajando, meus pensamentos cessaram como naqueles breves segundos. Nenhuma pergunta, nenhum julgamento. Só amor. Enquanto nos acolhe em seus braços, ela fala em nosso ouvido. Posso jurar que me chamou de minha menina. Hoje, uma boneca de tecido da Amma, presente amoroso e delicado que recebi, vela o meu sono todas as noites. E pensar que, há alguns meses, eu nem sequer tinha ouvido falar dela…

Não bastasse a sequência de bênçãos, trago comigo um estoque recarregado de alegria. Não é ela a nossa condição natural? Acredito que existam muitas Índias possíveis. Toda experiência real de busca por verdades menos óbvias. Tudo o que aponte para um mergulho profundo na densidade de cada um. A Índia não está nos meus planos. Está em mim. Se chamar de novo, largo tudo e vou correndo.”

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