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Márcia De Luca: Na vida, tudo é enquanto…

Márcia De Luca é especialista em ioga, meditação, ayurveda e uma das idealizadoras do movimento Yoga pela Paz. Também assina a coluna Coisas da Alma, da revista CLAUDIA.

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Neste ano que entra, proponho um novo hábito: o de sermos atores e espectadores da própria vida. Atuando e, simultaneamente, observando cada ação, você terá mais chances de “ver” o que aparentemente não é visível: a impermanência de absolutamente tudo, de sentimentos a resultados, de conquistas a idealizações.

Convoco todo mundo a começar 2014 se conscientizando desse movimento. O simples deixar fluir é uma rica oportunidade de liberdade. Isso não significa abandonar as boas sementes que queremos ver dar frutos no futuro. Mas é importante aceitar quando a natureza interfere com chuva, sol, geada ou o que mais vier. Fazemos o que podemos e aí soltamos a intenção no Universo confiando que existe uma força maior que rege o ciclo da vida. Evolução em curso.

Nosso corpo físico, por exemplo, tem começo, meio e fm. Sabemos que morrer é inevitável, embora a sociedade nos domestique de forma a celebrar o nascimento e chorar a morte, como se não estivesse nos planos. Conta a lenda que o famoso poeta persa Rabindranath Tagore estava em seu leito esperando a morte. De repente um discípulo, vendo a expressão de paz na face do mestre, lhe pergunta: “Mestre, o senhor não tem medo do fim?”. Depois de alguns minutos de silêncio, Rabindranath Tagore responde: “Começamos a morrer no dia de nosso nascimento, porque haveria de ter medo do último passo?”. A matéria é efêmera e ilusória, nos mostra o grande mestre. Mas há um campo interior – onde se situa a nossa verdadeira essência – que é estável, sem medo. Cada um descobre esse campo a seu tempo, mas uma boa dica para acessá-lo é quebrar o paradigma da segurança que nos move incessantemente. Lógico, a segurança é um sentimento acolhedor que nutre e nos acalenta. Acontece que pelas leis da impermanência, é impossível que ela perdure. O jeito é mudar a forma míope como enxergamos esse sentimento. E emprestar dos irmãos orientais uma visão mais compreensiva. Para eles, segurança é a sabedoria de abraçar e apreciar a insegurança. E ela, por sua vez, é o mecanismo que o Universo usa para nos mostrar coisa novas, inusitadas, que nos tiram do automático.

Aprender a abraçar a insegurança significa manter acesa a chama da vida, colocar tempero em uma comida sem gosto. Desista se acha que pode controlar tudo. O Cosmos está sempre brincando com cada um de nós e trazendo surpresas. O gosto de descobri-las pode ser imenso se nos abrirmos para isso e aceitarmos que tudo tem sua razão. Pode não estar claro, hoje, mas essa é a graça dos melhores mistérios. Vamos confiar que depois de termos feito a nossa parte, as coisas acontecem como têm que acontecer, regidas por uma sinfonia toda-poderosa. A partir daí, nossa capacidade de apreciar a insegurança se torna paradoxalmente a maior de todas as seguranças. E nos enche de coragem. É o que acontece comigo neste exato momento. Depois de 14 edições, me despeço dessa coluna com gratidão. Vou colocar em prática aquilo que ensino. Mas nos encontraremos em outras oportunidades pelas páginas desta revista, que adoro. Até breve.

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