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Gandhi: o personagem mudou a vida do ator João Signorelli

Você talvez se recorde de João Signorelli em novelas e minisséries globais. Ele fez muitos vilões, homens maus. Mas interpretando Gandhi há uma década, o ator brinca que tem limpado o seu carma. Com o líder indiano, ele encontrou o que há de mais verdadeiro em seu coração

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“Estava em casa quando recebi a ligação de um amigo: “João, topa fazer um monólogo do Gandhi em um seminário de liderança para empresas?”. Eu conhecia pouco sobre o personagem, não me achava parecido com ele. Mas tinha acabado a temporada de uma peça e…resumindo: estava desempregado. Quis ler o texto e adorei. Confesso que foi difícil vencer a vaidade: relutei um pouco em raspar a cabeleira. Mesmo assim, dois meses depois, interpretei o Gandhi pela primeira vez. Era 23 de junho de 2003.

Deveria ter sido uma única apresentação. Mas eu tinha mergulhado num universo novo e encantador. Sempre fui contra as mentiras ditas sociais – que parecem inofensivas, mas prejudicam a todos. E tudo o que eu lia sobre Gandhi mostrava a importância da busca da verdade. Comentei com meu terapeuta sobre minha frustração em abandonar esse trabalho. Ele me deu a solução: “João, meu irmão tem um bar na Vila Madalena. Aos domingos, fica fechado. Você poderia usar o espaço e oferecer um jantar indiano com a peça por R$ 30”. Assumi a produção.

Deu certo. Mas num determinado momento, com menos público, eu me vi tirando dinheiro do meu cartão para bancar o trabalho. Em meio à dificuldade financeira, me liga uma pessoa da Prefeitura de Santa Barbara do Oeste pedindo uma palestra sobre teatro para o sábado seguinte – cachê de R$ 1,5 mil. Justamente o valor de que eu precisava naquele momento. Mas seria bem no dia em que eu havia me comprometido a apresentar o Gandhi – de graça – em uma Oficina Cultural da Zona Leste de São Paulo. Quase desmarquei com a Oficina. Então, me caiu a ficha: se eu queria realmente encarnar o Gandhi em toda a beleza de seus ensinamentos, eu não poderia mentir ou deixar de cumprir minhas promessas. Neguei o convite de Santa Barbara do Oeste.

Aí vem o grande ensinamento: se você segue o caminho da verdade, a resposta aparece. A apresentação na Oficina Cultural me fez reencontrar um grande amigo, o ilustrador Luiz Gê, que estava produzindo uma ópera com Arrigo Barnabé, na época. Eles me chamaram para fazer o papel principal e eu ganhei um cachê de R$ 8 mil por sete récitas. Estava decidido: a verdade seria meu norte. As coisas começaram a melhorar. Fiz boas temporadas, no Arena, no Ruth Escobar… e me apresentei em quase todas as capitais do país.

Continuo a fazer participações em novelas ou minisséries na TV. Mas fui ficando conhecido como o ator que interpreta o Gandhi. Sem cabelos há dez anos, reduzi um pouco a atuação em publicidade. E algumas pessoas da classe teatral torcem o nariz para a peça. Felizmente, há quem respeite e incentive esse trabalho. Um exemplo: na época da minissérie Amazônia, fui convidado por Marcos Schechtman e Gloria Peres para fazer um personagem na primeira temporada. Antes das gravações, houve uma mudança e minha participação passaria para a terceira temporada. Eu seria o assassino do Chico Mendes! Nós, atores, muitas vezes vivemos ali, na “espuminha do Champagne”, atraídos pelo glamour da TV. Eu queria participar da minissérie, mas não podia fazer o Gandhi falando da não-violência durante o dia e matar o Chico Mendes à noite em rede nacional! Liguei para o Marquinhos e expliquei que não faltaria oportunidade, que eu gostaria, sinceramente, de trabalhar com ele, mas estava tentando limpar o meu carma. Eu já tinha feito muito vilão. Ele entendeu perfeitamente e, junto com a Glória, me ofereceu outro papel. De maneira muito gentil, com muita honestidade, eu consegui ser ouvido e respeitado por um gigante do mundo da comunicação.

No teatro, acreditamos que são os personagens que escolhem os atores. Então, eu fico muito agradecido de ter sido escolhido por Gandhi, no Brasil. A peça só me trouxe presentes e boas surpresas. Conheci o neto do Gandhi, conheci o Dalai Lama (recebi dele o seu Khata, aquele lenço tradicional tibetano). Adotei, diante da vida, uma postura de ação, mas nunca de reação. Sinto estar cumprindo o meu papel de ator e de cidadão levando a diante – seja para grandes empresários, seja para jovens da Fundação Casa – um pouco do que Gandhi ensinou. Vou fazer Gandhi para sempre. E quanto mais velho eu ficar, melhor para o personagem. Eis mais um aprendizado: agradecer sinceramente pelos anos que passam.”

Para ver Gandhi, um líder servidor

É possível comprar o DVD da peça ou contratar o espetáculo para apresentação em empresas ou em casa, diretamente com o ator. Escreva para joaosignorelli@uol.com.br.  Em São Paulo, a Praça Victor Civita, em Pinheiros, tem apresentação gratuita prevista para o dia 19 de maio, às 16 horas.

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