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Exposição de Renato Imbroisi valoriza a arte das rendeiras

Pegamos um fio de conversa sobre a renda brasileira e descobrimos por que agulha, linha e muito sentimento formam um puro tesouro.

Aexposição Renda Brasileira, em cartaz até 1o de setembro no Sesc Belenzinho, em São Paulo, enche os olhos. Mas falar apenas do que se vê seria pouco, comparado aos bastidores da exibição. Por trás dos vestidos, toalhas e objetos ali presentes, existe outro tecido fascinante feito do entrelinhamento de diferentes trajetórias de vida. A começar pela do designer Renato Imbroisi, tecelão que há muito tempo alinhava o cotidiano das artesãs têxteis deste país. Dessa vez, foram histórias de seis rendeiras de diferentes estados brasileiros que ele costurou num mesmo evento. Na abertura da mostra, convidou-as a falar sobre a fonte de seu prazer e sustento: rendas de bilro, irlandesa, renascença, filé, nhanduti e frivolité. Também puxou conversa de sociólogo com empresário, de historiador com museólogo – cada um falando do rendado sob seu ponto de vista, e todos se dobrando ao saber manual de quem troca os bilros, usa a navete e é ás na agulha.

Visto assim, o fazer renda não está em extinção como se diz por aí. “Das seis técnicas que apresentamos, quatro estão supervivas por meio de programas para criar identidade de novos produtos e comercialização. As exceções são o nhanduti e o frivolité, mais raras”, diz Renato. E acrescenta: “Trabalho há quatro anos num projeto na Paraíba e vejo como o comportamento das rendeiras mudou. São empresárias, políticas, sabem se posicionar. Conheci grupos atuantes em diferentes estados e percebo o restauro de uma cultura”. As mais de 100 peças reunidas no Sesc vieram do sertão paraibano, Sergipe, Piauí, Ceará e São Paulo.

 

Lindas, impressionam pela habilidade no manejo dos fios. E muita gente considera esse trabalho uma joia. Como a empresária Martha Medeiros, que levou a renascença feita em Alagoas para o universo da alta-costura. “Quando comecei a visitar as comunidades rendeiras, percebi que as roupas não tinham caimento nem corte. Quem comprava fazia isso só para ajudar a artesã. Meu papel foi levar uma assinatura a esse trabalho. Sem descaracterizar o fazer manual, tiramos a cara de coisa barata, tornamos as peças contemporâneas e as transformamos em objeto do desejo”, revela. O mundo vip responde bem. Conhecida entre as celebridades, Martha vende seu estilo num dos templos do luxo nova-iorquino: a Bergdorf Goodman, na Quinta Avenida. Para um comércio mais justo, ajustou o valor do trabalho das rendeiras e, em vez dos 12 reais por novelo (de 12 a 15 centímetros quadrados de renda), paga 30 reais. A produção de cada novelo leva em média três dias.

 

Lá fora, o status de arte para a renda não é novidade. “Reis e rainhas, como Elizabeth I e Victoria, exibiam aqueles rufos ao redor do pescoço, espécie de colar de tecido engomado e rendado, como se fossem joias preciosas”, recorda a professora de história da moda Suzana Avelar. Mas quando chegou ao Brasil, em meados do século passado, a renascença, por exemplo, foi transmitida por meio de religiosas que tinham contato com a população mais simples. “Esse berço popular talvez seja o motivo de a renda não ser tratada como algo nobre desde o princípio em território nacional”, pontua a socióloga Lizete Prata, diretora da Associação Mundaréu, de São Paulo. Ela lembra que a renda era hobby de senhoras bem-nascidas. É até hoje em cidades como Bruxelas, na Bélgica.

 

 

Por aqui, ainda há muito a ser feito. O olhar empreendedor de Martha Medeiros e a presença da renda de bilro na decoração de mostras como a Casa Cor Santa Catarina são alguns caminhos de valorização, mas outros devem surgir. Quem sabe inspirados pelas histórias das artesãs a seguir. Mulheres que não deixam nada para depois e se desdobram fazendo metros e metros de tecido para sustentar a família, dividindo-se entre o serviço de casa e o trabalho. Mas, quando pegam na renda, parecem adocicar a dureza da vida com as mãos e, em gestos da mais pura brandura, tecem delicadezas inimagináveis.

 

 

Hora de mostrar o seu valor

“Eu queria aprender a fazer renda quando era pequena, mas a matéria-prima era cara. Então, pegava fiapos de tecido de linho que sobrava da casa da minha mãe e ia para casa de uma amiga. Ali, ficava de olho nas rendeiras e fui aprendendo sozinha. Um dia, vendi um novelo de renascença e comprei uma medida de farinha pra minha mãe. A partir daí nunca mais parei”, conta Fátima Suelene de Oliveira Medeiros, da Associação de Artesãos de São João do Tigre, município de cerca de 4 mil habitantes no Cariri, semiárido da Paraíba. Suelene foi crescendo, falando com todos os vereadores da cidade – “eles só traziam promessa pra cabeça da gente” –, batalhou com o prefeito e, depois de muito sol, como se diz por lá, conseguiu uma casinha para as rendeiras se reunirem. “Eu já era casada e obriguei meu marido, que é pedreiro, a tapar os buracos da casa”, ri. Para mostrar que não é de brincadeira, emenda: “Se ele faz cara feia, vou pra ele com alta dominância e digo pra ficar quieto”. A alta “dominância” dessa paraibana também se apresenta quando a renda está uma “tarrafa”, que na cultura local é sinônimo de coisa malfeita. Elizabeth Raimundo, de Divina Pastora, em Sergipe, tem a mesma opinião. E, mulher forte que é, pensou num selo de origem para garantir que a renda irlandesa que brota de sua comunidade é única. As associações de rendeiras conseguem elevar a autoestima das mulheres, ensiná-las a cobrar pelo trabalho que executam e minimizar a figura do atravessador.

 

Há quem atue de um jeito diferente, mas com o mesmo amor ao saber manual. Em Bauru, no interior paulista, Eliana Polito e sua filha fazem frivolité. Essa renda é inteiramente feita com as mãos, sem apoio de almofadas ou outro suporte qualquer. A rendeira segura o fio entre os dedos e movimenta a agulha e a navete (onde fica enrolado o fio) para criar voltinhas tão primorosas e perfeitas que nem parecem possíveis de serem feitas à mão livre. Se a técnica é rara, o anel dividido com duas navetes que ela faz está quase desaparecido, mas Eliana já está tratando de gravar a lição e vai colocar a videoaula no YouTube para todo mundo aprender. Detalhe: ela conta isso enquanto passa para o público presente uma blusa de frivolité que a mãe teceu muitos anos atrás e uma toalhinha de bandeja que ela mesma, aprendiz da mãe, fez para seu enxoval. Quem pode tocar aquelas “pérolas” não esconde o misto de devoção e incredulidade.

 

 

De outra paulista, Elizabeth Horta Correa, sabemos que se comunica com uma artesã da Croácia pelo Google Tradutor, e que juntas tiram dúvidas sobre a técnica do nhanduti, renda produzida em pequenos moldes redondos cuja feitura pode levar de 40 minutos a seis horas, dependendo da complexidade do desenho. Elizabeth ainda concebeu um museu virtual da renda! “A renda não está em extinção, está em transformação”, concorda Bianca do Carmo Matsusaki. Pesquisadora das rendeiras de bilro do Brasil, ela vai documentar como se faz ponto por ponto dessa renda. “Outras formas de transmissão, que podem não ser mais de mãe para filha, vão garantir que o ensinamento não se perca. Já tem rendeira que aprendeu pela internet”, conta Giselle Marques Leite, museóloga. Na Ilha Grande, no Piauí, o desejo de Maria do Socorro Reis Galeano é uma escola para ensinar as mais jovens, já que não sobra tempo para as veteranas.

 

 

Como as outras, ela trabalhava em casa, na calçada, debaixo de uma árvore, e quem queria comprar as peças batia a sua porta. Até que ela e algumas vizinhas se associaram para rendar juntas e ser um ponto de venda mais acessível. Quando surgiu o projeto Museu do Objeto Brasileiro – A Casa, receberam apoio do estilista Walter Rodrigues, que as ajudou a fugir de um padrão repetitivo e introduziu a linha preta. Viraram referência quando, por encomenda dele, fizeram o vestido amarelo que dona Marisa vestiu na segunda posse do presidente Lula. “Não precisamos mais do desaperta – nome de um ponto fácil que toda rendeira faz quando está no sufoco”, brinca. Por causa disso, também veio a encomenda de um vestido de noiva com camélias de renda de bilro. “Depois de pronto, chorei de tão bonito que ficou”, diz.

 

 

Eterna relação entre renda e casamento. “Diz-se que, num determinado momento, ela distrai a moça do namoro. A mãe instrui a filha e prende a menina na tarefa. Mais tarde, quando é hora de casar, todo mundo é convidado a viver o casamento fazendo a renda da colcha da cama de casal, da camisola da noiva, das toalhas”, explica o antropólogo Ricardo Lima, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro. Em território do sentimento, a pesquisadora Adélia Borges já definiu bem que o artesanato brasileiro soma forma e função, mas traz junto uma terceira parte que é a poesia. E o que é que a rendeira tem? Engenho e dignidade próprios de uma atividade sagrada. Renda é tecido que se faz primeiro com o coração.

 

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