Escolas do amanhã: o projeto que colabora para a redução da desigualdade no ensino

Conheça a escola que está transformando o futuro de seus alunos com a ajuda de educadores, da comunidade local e de um projeto que visa combater a a baixa qualidade do ensino

Por Patricia Bernal Atualizado em 20 dez 2016, 19h50 - Publicado em 12 jun 2012, 17h10
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Paredes coloridas e limpas, canteiros com flores, livros espalhados pelos corredores, e, na entrada, o simpático recado: “Você está entrando em uma escola de leitores”. O ambiente acolhedor do Centro de Educação Integrado (Ciep) 1o de Maio, escola municipal na região em que se localizam três violentas favelas – Pedrinhas, Rolas e Antares – no Rio de Janeiro, pouco lembra o visual sem vida das unidades de ensino públicas no país. E pensar que até pouco tempo a escola também fazia parte dessa realidade. Esse cenário de desolação ganhou novos rumos a partir de 2005, depois que a instituição passou a ser dirigida pela ex-servente escolar Sueli Gaspar, vitoriosa, após ter passado por quatro concursos públicos até chegar ao cargo de diretora-geral. “Assim como a educação transformou minha vida, eu queria transformar a vida dessas crianças, criadas em um ambiente hostil e com pouca (ou nenhuma) perspectiva”, diz Sueli.

O estopim inicial foi reformar a escola de ponta a ponta. “Um espaço de ensino bagunçado faz com que os alunos se sintam desvalorizados. Antes de pedir respeito, precisamos dá-lo”, afirma a diretora. Sua persistência em preservar cada milímetro reconstruído durante dois anos chamou a atenção dos pais que passaram a perceber as boas intenções por trás da “ditadura” da conservação. “No começo houve estranhamento, mas depois pais e alunos entenderam que a escola é de todos e precisa ser cuidada.”

1. Na sala de leitura ocorrem aulas de reforço para os alunos que estão com dificuldades;

2. Alunos realizam a Provinha Brasil 2010;

3. Crianças observam micro-organismo vivos

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Paralelamente às mudanças estruturais, a equipe de professores, coordenadores e diretores também buscava novas formas de melhorar a qualidade do ensino, acabar com o analfabetismo e mostrar que, apesar do cenário pouco favorável, as crianças da favela também tinham direito a um futuro melhor. “Se cada um fizer sua parte, todos ganharão”, afirma a diretora. Mas, como despertar a consciência e estimular o aprendizado em um ambiente escasso de recursos?

Um dos pontos foi convencer os pais a colaborar e a participar das propostas apresentadas no dia a dia. “Ali dentro é uma minisociedade, se não cumprimos nossos deveres, perdemos os direitos”, diz Sueli. Dentre as regras estavam pontualidade no horário e a presença em sala de aula todos os dias. “O que faz a educação acontecer é a continuidade. Se a criança aprendeu hoje e amanhã ela falta, criam-se lacunas que dificultarão o aprendizado no futuro”, diz Sueli. Mas, por trás dessa aparente rigidez, a gentileza está sempre presente em suas atitudes.

 

2. Um vez por mês são feitas reuniões com os pais de alunos de todas as turmas;

2. Denstistas avaliam como está a saúde da boca das crianças;

3. A sala de leitura também é equipada com computadores

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Resultados acima da média

Os esforços empreendidos por pais, alunos e equipe educacional ultrapassaram os muros da escola e se refletiram nos resultados de duas importantes avaliações do país. Neste ano, a instituição ficou em primeiro lugar dentre 750 escolas municipais do Rio de Janeiro, ao tirar a nota 8,1 na Prova Rio, avaliação de português e matemática criada pela Secretaria de Educação da cidade. Em termos comparativos, a pontuação ultrapassou a média de países ricos como a Finlândia (7,1). Sem contar o resultado em 2009, na Prova Brasil, avaliação federal que ocorre a cada dois anos para levantar a situação do ensino fundamental, em que a escola alcançou a pontuação 5,9. Só para ter ideia do excelente resultado, o Ministério da Educação (MEC) estipulou a nota 6 como a meta nacional para 2022.

É importante ressaltar que todo esse empenho contou com um poderoso aliado: o projeto Escolas do Amanhã, da Secretaria de Educação do Rio de Janeiro, que forneceu ferramentas importantes para a construção do bom desempenho da escola e de sua estrutura.

Criada em 2009, a ação já atinge 151 unidades escolares do município e cerca de 108.000 alunos. “O objetivo da iniciativa é trabalhar de forma integrada todas as dimensões do ensino, fazendo com que a aprendizagem gere impacto não só no lado intelectual como também no desenvolvimento humano dos alunos, diz André Ramos. Reduzir a evasão escolar de alunos, o déficit de professores e a baixa qualidade no ensino fundamental das escolas localizadas em áreas controladas pelo tráfico, milícias ou que acabaram de ser pacificadas, também estão entre suas linhas de ação.

Escolas do amanhã

 

Conheça algumas das propostas do projeto que tem colaborado para a redução da desigualdade no ensino público e ampliado o número de oportunidades para as crianças e os adolescentes.

• Capacitação de professores: baseada no método Uerê-Mello, desenvolvido especialmente para regiões com alto índice de violência, busca desfazer bloqueios cognitivos em jovens residentes em áreas de risco. Os professores foram preparados para identificar as vulnerabilidades dessas crianças e o porquê de não absorverem os conteúdos ensinados.

• Cientistas do Amanhã: as salas de aula foram equipadas com livros, vídeos, jogos, imagens e reagentes químicos para estimular a experimentação. Nessa atividade, os alunos são estimulados a desenvolver habilidades como senso crítico, raciocínio lógico, observação, análise, investigação, entre outras.

• Mães e avós comunitárias: voluntárias conscientizam alunos e familiares sobre a importância da escola em sua vida, monitoram as faltas e buscam saber seus motivos, reduzindo a possibilidade de evasão escolar. Além disso, dentro da escola acompanham as atividades e orientam o comportamento dos alunos.

• Informática com internet em banda larga: salas de informática com acesso à internet estão disponíveis para alunos do primeiro ao quinto ano. Os mais velhos, do sexto ao nono ano, têm acesso a classes equipadas com rede sem fio, projetor e caixas de som.

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