Entrevista: Quiroga, astro

Confira a entrevista com Quiroga, um dos astrólogos brasileiros mais lidos

Por Texto Rosane Queiroz | Fotos Claus Lehmann Atualizado em 20 dez 2016, 19h49 - Publicado em 24 jun 2014, 20h34
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Quem poderia prever que, naquela semana, eu cairia doente? Uma inflamação na garganta me pegou de jeito na segunda-feira. A cada comprimido de analgésico, engolia junto o pensamento: “Vou ter de desmarcar a entrevista com o Quiroga”. O encontro, combinado para sexta, parecia assustadoramente mais próximo à medida que meu corpo cedia à malemolência, agravada pelo calor insano do último verão. Até que, entre idas e vindas ao médico, fui salva pelo “Astro”. Era esse o nome do antibiótico que, aos poucos, me devolveu a vitalidade e me fez compreender que, como diz Quiroga, tudo está interligado. “O maior engano das pessoas em relação à astrologia é achar que estão sob a influência do céu. Não. Estamos em comunhão com uma ordem cósmica. Uma vez existindo, somos uma oportunidade para que essa ordem cósmica se manifeste através de nós”, diz ele, com suave sotaque espanhol e olhos de um azul celestial.

É o próprio astrólogo, vestido de preto, calça e camisa pólo, quem atende a porta da casa com jardim, no Alto de Pinheiros, em São Paulo. O escritório, integrado à casa, lembra um set terapêutico, exceto pelos quadros temáticos. Ele se acomoda em uma larga poltrona de couro e fico em frente, sentada no sofá um tanto mais baixo, o que torna sua fala, vinda do alto, ainda mais profética. Os leitores de Quiroga sabem que sua marca é escrever como quem se dirige a toda a humanidade, ao mesmo tempo que parece estar dizendo aquilo só para a gente. “Somos ao mesmo tempo genéricos e particulares”, afirma. “Dou mais atenção ao que nos liga coletivamente. Soa individual porque nossos problemas pessoais são derivados dos sociais. À medida que nos isolamos, eles ficam insolúveis. Nos tornamos maiores ao comungar com a espécie.” A frase “parece que você escreveu isso para mim” é recorrente entre seus leitores e chega a gerar mal-entendidos. Em 1991, no auge de sua coluna no jornal O Estado de S. Paulo, uma psiquiatra o alertou de que havia internado uma paciente disposta a matá-lo, convencida de que ele a espionava e expunha sua vida no jornal.

O episódio, digno de filme de Almodóvar, não deve nada à biografia do astrólogo. Argentino de Buenos Aires, filho de um militar da contrarrevolução, Quiroga conviveu com um pai que vivia sendo preso. “Como conta minha irmã, fui concebido em uma visita íntima”, revela ele (risos). Terceiro da prole de quatro, foi apresentado ao pai, Oscar, na cadeia, nos braços da mãe, Mirian. “Era uma vida conturbada. Muitas vezes meu pai chegava esbaforido e a gente tinha que mudar de país. Parte da infância passei no Uruguai”, conta. A opção pelo Brasil, na juventude, também teve o dedo da ditadura. Estudante do quarto ano de medicina, ele trabalhava no ambulatório da rede de TV Canal 9 e sentia o clima paranoico a cada vez que alguém desaparecia. Pensou, então, em terminar a faculdade, com uma bolsa, na Alemanha. Mas uma escala no Brasil mudou os planos. Em Arraial do Cabo (RJ), encontrou amigos que procuravam discos voadores. Se de médico e de louco todos temos um pouco… O estudante de medicina embarcou em uma aventura mística. “Nunca vi um extraterrestre, mas viajamos o Brasil inteiro olhando as estrelas. Aí se abriu o espaço mental e o cardíaco para um conhecimento esotérico”, lembra. Em quatro anos, Quiroga morou em 20 lugares. Ajudou a construir uma comunidade em Sergipe, passou por Ribeirão Preto, Caraguatatuba e Ubatuba (SP). Um tempo hippie, em que as drogas psicodélicas faziam parte da experimentação. “Era uma maneira de expandira a percepção. Mas só até os anos 1980. Depois a relação com as drogas se tornou autodestrutiva. Perdi o interesse”, sublinha. Experimentou o Daime, anos mais tarde, em Visconde de Mauá (RJ). Bad trip. “Só via rios de sangue escorrendo por pirâmides maias”, conta.

Dias De sem teto

São Paulo foi a cidade mais dura. Ao chegar à capital, em 1982 (ele tem as datas na ponta da língua), Quiroga morou por dez dias na rua. Os cintos de corda colorida que ele confeccionava não fizeram sucesso na metrópole. Naquele momento, o vão do Museu de Arte de São Paulo (MASP), na Avenida Paulista, serviu de teto. “São Paulo é difícil, as pessoas passam rápido, não olham para o lado. Fiquei completamente só.” O anúncio de uma companhia de dança flamenca recrutando dançarinos, no mural do museu, salvou o argentino que mal sabia os passos de tango. Na trupe dos conterrâneos Alberto e Isabel – ele guitarrista, ela bailarina – embarcou numa viagem mambembe. “Não me tornei um dançarino magnífico, mas a vida ficou mais fácil, porque tudo depende de pagar contas.”

Para arcar com as mensalidades da faculdade de psicologia na PUC, começou a fazer mapa astral (desde a chegada ao Brasil e durante todo o tempo que passou viajando, estava sempre ligado a grupos de ioga e astrologia). Veio, então, o convite para escrever o horóscopo do Estadão, como ghostwriter e depois como titular. O astrólogo Maurice Jacoel acompanhou o boom da coluna de Quiroga, hoje replicada em 22 jornais do país e com 49 mil seguidores no Facebook. “Sua linguagem própria é o diferencial, mas, acima de tudo, Quiroga é uma pessoa transparente, profundamente ligada à espiritualidade”, diz. Os dois integraram o movimento pela criação da Central Nacional de Astrologia, em 2009. “Ele ajudou no que pôde. Não tem nariz empinado”, atesta o colega.

Nascido sob o signo de Peixes, com ascendente em Gêmeos e Lua em Touro, Quiroga evita se autointerpretar. “Sou um pouco de cada signo”, despista. Diz que toma cuidado ao sondar os astros em causa própria. “Fica difícil saber até que ponto o evento é provocado por um vínculo cósmico ou por uma arquitetura mental. As patranhas que a gente pensa produzem monstrengos invisíveis que nos influenciam.” Para manter a mente quieta, medita diariamente, a partir das 4 horas. “Enquanto as pessoas estão dormindo, a poluição mental é menor.” Às 6h30, começa a escrever. Publica os textos ele mesmo, exceto o horóscopo do Facebook, função da secretária. “As redes sociais são um espelho da realidade”, diz. “Com o tempo, vamos aprender a pensar melhor com essa vida virtual interior e fazer uma limpa mental”, acredita.

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Mapa superastral

“Quiroga nos instiga a olhar para dentro. Com ele, nada é ‘mastigado’. Seu horóscopo é uma ‘charada’ que cada um precisa interpretar no seu interior mais profundo”, diz a videomaker Paloma Lopes, que, aos 30 anos, se deu de presente um mapa astral com o “guru”. “Não imaginava que fosse alguém tão simples e acolhedor. Por esse motivo, a gente se sente à vontade ao sentar diante dele, olhar dentro dos seus olhos cristalinos, enquanto ele discorre sobre detalhes nem sempre fáceis de ouvir”, diz Paloma. As consultas, de cerca de duas horas, são intensas. Obviamente, não existe mapa bom ou ruim. “Tem flores que são vermelhas, tem peras que são moles”, diz ele. “O que interessa no vínculo cósmico é você ser quem é. E, para se conhecer, há um duro processo de discriminação do que é essencial e do que foi plantado na sua personalidade, como um corpo estranho. Isso feito, você filtra os valores herdados e passa a se alimentar da perspectiva que colocou para sua existência”, diz o astrólogo-sábio. Pode-se dizer que, nesse ponto, a pessoa incorpora as características de seu ascendente. “O ascendente é a alma”, decifra. “Enquanto os signos são espaços delimitados no céu, o ascendente não existe objetivamente. Ele é o ponto no horizonte que vai informar sobre esse ser interior que ocupa um invólucro físico para tentar manifestar-se. O ascendente é esse ser que guarda o segredo da razão de sua existência. Se não levamos a sério a experiência interior, o invólucro aprisiona a alma. O objetivo é reverter esse processo, para que a alma tome as rédeas da personalidade”, explica. Por isso, diz-se que, aos 30 anos, nos tornamos o ascendente. “É uma idade simbólica. Pode acontecer aos 30, aos 80, ou não acontecer”, esclarece. O pior engano é não querer saber como assumir o comando. “Ser carregado pelo rio da vida não é o mesmo que viver. Viver é navegar, aproveitar os fluxos e ir construindo a história que é produto da sua intenção, da sua capacidade. Isso faz você se integrar à ordem cósmica.”

Lua vazia e ócio

“Se despreocupe” é um conselho típico do pensador, nos períodos de lua vazia, momento astrológico em que a subjetividade reina e o melhor a fazer é não fazer nada. “Ninguém suporta ser produtivo o tempo inteiro”, ralha ele. O modo como a humanidade está organizada, com horários engessados, é um “moedor de consciências” e está caduco. “Empresas modernas já estão relativizando os horários.” Por isso, ele mesmo segue o conselho à risca. Se fosse um bicho, certamente seria um camelo. “Ele sabe bem quando precisa trabalhar e descansar. Conhece suas reservas. E, quando para, não tem quem consiga fazê-lo andar!” (risos). O passatempo preferido é a leitura, desde que foi arrebatado pelo clássico Cem Anos de Solidão, aos 11 anos, e sentiu uma comunhão de espírito com o autor, Gabriel García Marquez, por terem nascido no mesmo dia, 6 de março. Vegetariano desde 1978, às vezes se aventura a preparar macarronadas para o filho Enrique, de 14 anos, fruto de seu segundo casamento com a publicitária Paula Rocha, de quem se separou no ano passado. Do primeiro casamento, com uma radialista, tem Nina, de 16, que mora em Miami. “Só me preocupo que eles se atrevam a ser felizes, porque a vida não tem manual”, diz, do papel de pai. Um dia perfeito na vida do astrólogo é quando termina as tarefas e ainda dá tempo de namorar. Sua indulgência é a gim-tônica, que gosta de beber às sextas, com a namorada, a professora de iyengar ioga Karina Grecu. “Ela é quem cuida de mim”, diz, das posturas de ioga que pratica sob supervisão de Karina – e que conservam sua ótima forma, aos 57 anos. Ele acha graça da pergunta sobre combinação amorosa de signos. “Pode até combinar, mas tem os corpos que precisam se harmonizar, padrões de educação, questões cósmicas… Quando duas pessoas se relacionam, deixam de ser elas mesmas e criam um campo novo. Aí, elas põem tudo de si e decidem juntas o que fazer com elas. Cada um que se vire com isso!”, resume.

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Ano de continuidade

Autor de três livros, entre eles Astrologia Real, de 2002, o sonho atual é finalizar o próximo título, A História Espiritual Humana. “Por meio de um diálogo, procuro mostrar como o espírito está sempre aí”, conta, convencido da continuidade da vida. Se depender da energia de 2014, deve terminar o volume. “É um ano de continuidade, não de iniciação”, afirma. A última quadratura importante para começar projetos se deu em 2012. “Um ano é pouco para esperar muito. Vale rever o que foi posto em marcha há dois anos. Em 2014, o desafio será manter-se íntegro, as dádivas virão dos contratempos”, diz. Se o desafio é tomar uma decisão importante, fica a dica: “Na dúvida, diga sim”. O ônus de uma ação malfeita, ensina, é menor do que o da não ação. A regra de ouro é agir sem prejudicar ninguém. Não sabe como resolver um dilema? “O sexto sentido é o primeiro pensamento fugaz. Dura um micromilésimo de segundo. A seguir, vem a complexidade racional. Se seguir esse primeiro pensamento fugaz, vai acertar sempre”, finaliza o astrólogo, antes da despedida no jardim, onde mostra suas lavandas e jasmins, sob as bênçãos do astro-rei.

 

Foto – p. 44 – “Não existe mapa astral bom ou ruim; o que interessa é você ser o que é.”

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