É possível viver sem tecnologia?

Acompanhe a saga de uma pessoa que tem de passar dois dias inteiros sem celular, elevador, cartão bancário, micro-ondas e outras comodidades

Por Ivonete Lucírio Atualizado em 20 dez 2016, 19h41 - Publicado em 24 Maio 2012, 13h14
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Posso ser classificada como mediana quando o assunto é tecnologia. Não sou viciada nela, nem tampouco tenho fobia. Por isso, achei que ia tirar de letra ficar dois dias sem qualquer aparelho que tivesse botõezinhos. A primeira dificuldade apareceu já na hora de definir o que é tecnologia. Tudo bem abrir mão do micro-ondas para esquentar o leite pela manhã. Mas o fogão também tem lá seus componentes tecnológicos, certo? E não é seguro acender uma fogueira dentro de casa. Cheguei a um acordo comigo mesma: ficaria de fora dos meus dois dias tudo o que fosse ligado na tomada ou dependesse de energia em algum momento para funcionar. Pareceu justo e assim, finalmente, parti para minha desintoxicação. Comecei num domingo…

1º DIA, de manhã

 

Foi ótimo acordar sem o rádio-relógio, que ficou desligado desde a noite anterior, e melhor ainda não saber que horas eram. O resultado é que fiquei na cama até mais de dez horas da manhã. No café, esquentei o leite no fogão, aceso com o fósforo, claro. Na minha tentativa de ser saudável pelo menos no final de semana, vesti a roupa de ginástica e, enquanto escovava os dentes, me lembrei: nada de subir na esteira elétrica da academia do prédio. Desci seis andares de escada e fui caminhar na rua.

 

Delícia! Na volta, pela primeira vez, me senti no tempo das cavernas. Subir seis andares depois de caminhar quase uma hora?! Não vai dar. Bom, como não podia ficar no saguão do prédio, teve que dar. As pernas doíam, de verdade, e o ar parecia que, de repente, havia sumido da face da Terra. Com muita força, subi e sentei na varanda do apartamento para tomar fôlego. Tomei um belo banho. Ufa, o chuveiro é a gás, não tem eletricidade. Sem micro-ondas, faca elétrica, timer (e talento) não daria para fazer nada, descongelar nada para o almoço. Foi fácil convencer meu marido e meu filho a comer fora. Engraçado, a nossa escolha foi um restaurante japonês. Eu só me dei conta quando estava com os pauzinhos na mão: talvez seja a forma mais primitiva de alimento consumido hoje, tudo cru.

1º DIA, de tarde

 

O primeiro sinal de pânico surgiu enquanto eu estava comendo, lá pelas 13 horas. E se alguém precisasse falar comigo? Eu estava totalmente isolada do mundo. Por uma colaboração inesperada e indesejada da companhia telefônica, fiquei sem o sinal do telefone fixo por vários dias. E o celular lá, morto, desligado. Meus pais, idosos, talvez precisassem de alguma coisa, algum amigo talvez quisesse me convidar para um passeio (depois, descobri que isso tinha acontecido mesmo), a gerente do banco podia estar tentando me ligar para avisar que meu título de capitalização fora sorteado. Já em casa, tinha de escolher algo para fazer com meu filho de 5 anos. Cinema não podia, tem tecnologia embutida naquela película colorida. Teatro! Ah, pode. Nada mais absolutamente humano. Peguei o carro – meios de transporte estavam liberados, como combinei desde o início – e lá fomos nós. Xii, o dinheiro estava prestes a acabar. Tudo bem, tem caixa eletrônico em qualquer esquina. Foi aí que me dei conta de que caixa eletrônico é a mais pura tecnologia. Comecei a contar as notinhas que estavam na carteira e iniciei ali mesmo, na porta do teatro, um período de contenção de despesas. Na volta para casa, uma barreira: o portão eletrônico do prédio. Foi facilmente transposta com três buzinadinhas.

1º DIA, de noite

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No lanche, pão com queijo e presunto. Nada de pizza, não podia usar o telefone para pedir, nem o cartão para pagar, e o dinheiro praticamente tinha acabado. Por volta das 21 horas, senti falta da televisão pela primeira vez. Tinha a continuação de um episódio inédito de Monk – minha série favorita e tradição aos domingos -, no qual seria revelado por que sua mulher morrera, mistério que percorre toda a trama. Tudo bem, dois dias depois eu olharia na internet. Como não podia assistir à TV, terminei de ler a revista de cultura do jornal e dei um bom adianto na biografia do Paulo Coelho, de Fernando Morais, que estava largada no meu criado-mudo há mais de uma semana. Paulo Coelho ainda recebe cartas em papel, muitas. É legal receber cartas escritas em papel, algo que nenhum e-mail, SMS, ou ligação pelo Skype pode substituir. Anoto, à mão, algumas emoções do meu dia sem tecnologia para poder escrever o texto depois. Bom, quase hora de dormir e uma grande preocupação aparece: como vou acordar amanhã, sem rádio-relógio? Seria segunda-feira e, dessa vez, não poderia ficar na cama até a hora que quisesse.

2º DIA, de manhã

 

Simplesmente, acordei dez minutos antes do horário que costumo levantar, sem despertador. Nosso relógio biológico é realmente fantástico. Na hora de arrumar a bolsa para o trabalho, um dilema: levar ou não o celular. Levei, desligado. Pelo menos eu fiquei com a sensação de que, se um avião se chocasse contra o prédio em que trabalho e ele desmoronasse, poderia ligar para alguém querido e dar o último adeus. Isso seria, assim como no caso da UTI, uma boa justificativa para adiar este texto. No ônibus, nada de ouvir música. Prevenida como sou, tinha levado o jornal. E estava lá, estampada, a prova de que os humanos estão cada vez mais absurdamente dependentes da tecnologia. O texto era sobre vending machines, aquelas maquininhas nas quais a gente coloca moedas em troca de um produto. Pelo menos, era assim. Hoje, já é possível comprar serviços. Nos banheiros canadenses, há dessas máquinas que permitem à mulher fazer uma chapinha. No Japão, já há uma vending machine para cada 23 habitantes. Elas vendem até morangos orgânicos. Cheguei ao trabalho – minha sala fica no térreo, sem escadas – e a coisa começou a complicar. Já tinha deixado bastante material impresso para ter o que fazer, mas foi terrível não ligar o computador. Sentia como se apenas estivesse fingindo trabalhar. Afinal, minha vida profissional está lá dentro. Comecei a rascunhar no papel, mas, na hora de fazer uma conta sobre um orçamento, lá ia minha mão para o mouse, em busca da calculadora do PC. Fui para uma reunião. Ufa, falar com pessoas ao vivo ainda não depende de tecnologia.

2º DIA, de tarde

 

Almocei um bife com arroz absolutamente livre de tecnologia no restaurante da empresa, às 13h30, sem e-mail e sem celular. E se alguém precisasse falar comigo? E se minha chefe, que estava num curso fora, tivesse uma mensagem urgente para me passar? E se, finalmente, minha gerente de banco tivesse ligado para avisar que meu título de capitalização fora sorteado? Era dia útil, não domingo. Não resisti, liguei o celular por apenas alguns segundos. O suficiente para ver que não havia ligação alguma naquele dia. Como assim, ninguém queria falar comigo?! Deve ser algum problema da operadora. Ou será que é porque avisei todo mundo para não me ligar? Veio aquela vontade quase incontrolável de saber se tinha algum emailzinho me esperando. Mas, dessa vez, não sucumbi. Tinha uma planilha de fluxo de trabalho para montar. Peguei papel, canetas coloridas e uma régua. Risquei vários quadrados, coloquei as datas. Ficou ruim. Rasguei e comecei outro. As datas não apareciam automaticamente. Tudo o que eu queria era meu Excell! Conclui a planilha à mão, sabendo que teria de passar tudo a limpo no dia seguinte. Mais uma reunião exatamente para adequar a planilha. Difícil, quase impossível, visualizar alguma coisa no papel colorido escrito à mão. Pouco depois das 18 horas, não tinha mais o que fazer. Até tinha, e muito, mas estava tudo dentro do computador. E eu não aguentava mais ouvir o telefone tocar sem poder atender. Tem gente que insiste, liga três vezes seguidas. Decidi ir embora. Simples assim: peguei a minha bolsa, dei tchau e saí. Sem computador para desligar, sem mensagem de celular para responder.

2º DIA, de noite

 

No ônibus de volta para casa, sem mais nada para ler, e sem música, dormi. Acordei e só então me dei conta de que não poderia ligar para meu marido avisando-o para me buscar no ponto. Fiz o restante do caminho a pé, rezando para não ser assaltada, um dos atos mais primitivos e pouco tecnológicos (não estou falando de assalto a banco) que existem. Não jantei. Estava absolutamente exausta e não entendia o porquê. Depois, pensando bem, matei a charada. Mais difícil do que ficar sem tecnologia é tomar cuidado para não usá-la sem querer. Exige um esforço mental constante ou a gente escorrega. Deitei na cama e comecei a ficar animada: só mais algumas horinhas e descobriria tudo o que o mundo tinha a me dizer. Poderia olhar todos os meus e-mails (27 em casa e 83 no trabalho, contabilizados no dia seguinte. Nenhum deles com urgência mortal); responder às mensagens no celular; consultar a internet. Finalmente, vida normal, com tecnologia.

 

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