Cunha: uma viagem entre vales e montanhas

Cunha, em São Paulo, é uma bênção da natureza. Ela reserva belíssimos passeios entre vales e montanhas, além da nobre arte da cerâmica

Por Reportagem: Heitor Reali - Edição: MdeMulher Atualizado em 20 dez 2016, 19h07 - Publicado em 12 jun 2012, 17h52
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Em 1965, o antropólogo americano Robert Shirley mudou-se para Cunha, distante cerca de 220 quilômetros de São Paulo, para escrever seu livro “O Fim de uma Tradição” (Ed. Perspectiva). Ela fora escolhida dentre as cidades do Brasil em razão da riqueza e da diversidade de sua cultura. Mas, de acordo com o autor, as tradições locais não demorariam a se perder devido à proximidade das modernas metrópoles de São Paulo e do Rio de Janeiro. Vinte e cinco anos depois, Shirley retornou à cidade e confirmou que ela absorvera o progresso. Contudo, para sua surpresa – e sorte dos viajantes de hoje -, os traços locais não apenas resistiram como se fortaleceram.

Do século XVII ao XVIII, Cunha era apenas um local de passagem. Todo o ouro extraído das minas das Gerais embarcava no Porto de Paraty rumo a Portugal. O trajeto, chamado Estrada Real, cruzava as serras da Bocaina, do Mar e do Quebra-Cangalha, onde os tropeiros com suas mulas carregadas com o metal precioso ziguezagueavam por aquele mar de montanhas. Com o clima frio, era necessário criar um pouso no caminho, para descanso e para alimentar os homens e os animais. Assim nasceu a cidade que hoje se beneficia por estar situada estrategicamente entre duas reservas: o Parque Nacional da Serra da Bocaina e o Parque Estadual da Serra do Mar. Por isso, as trilhas são os primeiros atrativos procurados por quem chega ali. Uma delas leva à Pedra da Macela, imponente pico de pedra a 1.840 metros de altitude. Em dias claros, se avistam a Baía de Paraty, a Baía Grande e Angra dos Reis. A subida é íngreme, mas a bela vista panorâmica vale todo o esforço.

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Caipira da gema

A paisagem é de tirar o fôlego, e o mesmo se pode dizer de sua culinária marcada por influências indígenas, dos colonizadores portugueses, e pela forte herança dos tropeiros. Não se trata, porém, de uma gastronomia própria. O sabor inconfundível brota, principalmente, do jeito de cozinhar tudo, muito lentamente, em fogão a lenha. Os produtos são os da região: angu, couve, frango caipira, e o substancioso feijão tropeiro misturado à carne e à farinha.

Graças ao clima, Cunha também é conhecida pelo cultivo de cogumelos. A caminho da Cachoeira do Pimenta, tida como a mais bela da região, dê uma paradinha nas estufas de shiitake de Suzana Lopes para conhecer um pouco mais sobre essa intrigante família de fungos que tem a “missão” de decompor materiais orgânicos, e devolvê-los ao ambiente.

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E pensar que ainda não foi mencionada a metade do que a cidade oferece. Uma gastronomia à base de pinhão, antes comida de sustança da roça, e dieta básica do esquilo e do porco-espinho nos meses frios; a Congada, com danças e cantos que celebram a devoção a São Benedito; uma enorme concentração de fuscas; uma moçada com pernas bem torneadas de tanto subir e descer ladeiras e a Casa do Artesão, onde se encontram colchas de retalhos, bolsas de fuxico, além de canecas de ágata, panelas e moringas de barro, que mantêm a água fresquinha.

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Roça chique

A argila encontrada nos vales de Cunha sempre foi apreciada por suas paneleiras, que moldavam utensílios para o uso cotidiano. À maneira herdada dos índios, eram alisados com pedras de rio e sabugos de milho. Atraídos pelas montanhas e pela serenidade do lugar, em 1975, chegou a Cunha um pequeno grupo de ceramistas provenientes do Japão. O barro de boa qualidade e o declive natural do terreno, que favorecia a construção de fornos Noborigama, incentivou-os a permanecer na cidade. Essa técnica de origem chinesa, milenar e arcaica, baseia-se em fornos com quatro a cinco câmaras, construídos em rampa. As peças queimam durante 35 horas e demoram três dias para esfriar. O resultado é uma cerâmica de grande qualidade, resistência e beleza.

Muito da satisfação da viagem está na escolha certeira da pousada. Se for, por exemplo, a da Barra do Bié, localizada ao lado da corredeira de um rio, a temperatura será um tantinho mais baixa, daí o aconchego moderno de uma coberta elétrica oferecida aos hóspedes. Se a preferência for a de ficar hospedado em local alto, de onde se avista o mais belo pôr do sol da área, a escolha poderá ser a Pousada da Mata. Também é para os que gostam de acordar com o cacarejar “tôfracotôfracotôfraco” das galinhas-d’angola, e um café da manhã com queijo da fazenda, coalhada fresca, e “pão de mel de comer rezando”.

É assim, comungando com a natureza, que Cunha vai tomando conta da alma da gente. Mas, não contarei tudo o que vi. A escritora chilena Isabel Allende ensina: “Não revele tudo sobre um lugar, deixe que o visitante também faça suas próprias descobertas”. Como não resisto, direi ainda uma coisinha só: há os que vão a Cunha para ver… o céu!

Então, aceite o convite, e descubra esse lugar bão demais da conta, como dizem naquele delicioso falar caipira, que graças aos deuses também não se acabou.

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