Crônica: O canapé de veludo

O sofá de 3 m foi parar na enorme cozinha, e acabou-se a minha solidão entre panelas. Leia esta crônica de Paulo Werneck para ARQUITETURA & CONSTRUÇÃO

Por Por Paulo Werneck* Ilustração Maria Eugenia Atualizado em 20 dez 2016, 22h34 - Publicado em 25 Maio 2014, 22h21
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Aqueles dois não foram exatamente feitos um para o outro. Ele é vermelho, de veludo, nobre como a cortina de um cinema antigo. Já ela, de tão amarela e reluzente, até parece vintage (mas é só velha mesmo). Ambos devem pertencer à mesma geração, a dos anos 50 ou 60, dos quais sinto grande saudade, embora tenha nascido depois. Coube a mim e a minha jovem família promover o encontro entre o sofazão de quase 3 m e a cozinha do nosso novo habitat, uma gostosa casa térrea no Alto da Lapa, em São Paulo.

Se o ambiente, enorme e com pé-direito alto, destinavase a ser o centro das atenções, o móvel selou essa vocação e ainda resolveu um problema crônico deste cozinheiro – a solidão entre panelas. Agora, enquanto pico o alho-poró e refogo a pancetta, a Marina e a Glorinha estão sempre por perto desenhando, navegando na internet ou brincando no sofá (ou melhor, canapé: nunca esse sinônimo foi tão apropriado). Dpois de vê-lo encostado na parede de azulejos cor de AAS infantil, estranho imaginá- lo longe dali. Deu tão certo que, até hoje, eu me pergunto como essa não é considerada uma peça essencial junto do fogão.

Ela segue imune à sujeira própria do local. O veludo vai se mostrando impermeável às refeições da Glorinha e à baba do Strudel, nosso labrador, que investe contra o tecido em busca das migalhas que a pequena deixa cair. Comprei o velho móvel, já reformado, de uns chilenos, refugiados da ditadura de Pinochet, que mantêm sua oficina em frente a meu antigo prédio, em Santa Cecília. São craques: restauraram a dignidade da estrutura de madeira, com pés e braços delicados, e renovaram por meio século a firmeza macia do assento e do encosto.

De casa em casa, no entanto, o estofado aparentava ser cada vez maior. Era como se encarnasse um passado do qual eu deveria desapegar. Comecei a ouvir que teria de “abrir mão” dele. Tornou-se objeto de cobiça de minha cunhada, que, em conluio com a Marina, tentou confiscá-lo. Em pânico, cheguei a imaginar seu destino, como as águas do Tietê ou a carroça de um sucateiro. Um sofá querido é como um sapato de estimação – impossível encontrar outro.

Existe em nossa memória um salão onde guardamos a mobília afetiva. No meu, há vários estofados: o de couro da minha avó Vanda, onde li Monteiro Lobato e Asterix; o gigantesco modelo em L do vovô Tancredo (nunca entendi como entrou na casa dele); o Michael Jackson, simpático dois lugares que desbotou sob a luz do Sol, na sala de meus pais. Desconfio de que o canapé vermelho da cozinha veio para roubar um espaço definitivo entre eles.

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