Cozinhas da minha vida: o espaço que Nina Horta nunca esqueceu

Nunca tive um espaço que considerasse perfeito. Mas houve um que nunca vou esquecer

Por Por Nina Horta* Ilustração Maria Eugenia Atualizado em 20 dez 2016, 19h06 - Publicado em 14 jun 2013, 22h39
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Já me perguntaram várias vezes quais foram ou quais são as cozinhas da minha vida. Infelizmente, nunca houve um espaço meu que eu considerasse perfeito. No Rio de Janeiro, tenho um pequeno apartamento que abrimos todo para a sala de jantar. Ficou arejado e bonito, mas existe aquele problema de não poder deixar prato sujo na pia. Já no sítio de Paraty, quase acertei. Consegui que um caminhão subisse até o alto do morro com um fogãozão preto, profissional, com grelha e chapa. Lá, o teto da casa é de telha-vã, a janela dá para as vacas e o verde. Pus uma cadeira de balanço, porque não entendo mania de cozinheiro sempre trabalhando em pé. Radicalizei com uma cadeira de balanço, uma queijeira, um moedor de café, panelas de todos os feitios. Mas me perguntem se previ uma copinha para mantimentos. Não!!! Faz uma falta dos diabos. Coloco tudo nas gavetas de lata de um móvel antigo, que é bonito, mas parece coisa de cenário. Hoje, sempre me lembro das cozinhas da mais tenra infância, quando eu era espectadora do cozinhar. A primeira, ah, que vergonha, tinha uma geladeira de gelo. Sei que todas as geladeiras são de gelo, mas essa não o fazia, já o recebia inteiro, entregue por um caminhãozinho. Ela era baixa, gorda, azul-clara, com uma porta em cima e outra embaixo. Na prateleira superior ficava uma folha de flandres com o gelo. E ela inteira recendia a lata gelada. A única coisa bonita era o gelo, entregue em grandes cubos e colocado sobre os muros, esperando ser recolhido e refletindo o sol. Um dia, foi trocada por uma Frigidaire, que logo recebeu visita dos vizinhos, entre comovidos e intrigados. Nos anos 50, rapidamente as cozinhas cresceram, apareceram granilite, laminado da Formica, mesas de cimento fixas e armários de aço Fiel. E uma grande copa, com lugar para guardar mantimentos. Muito prática e horrenda. Casei na fase dos três porquinhos – tijolo na parede, panelas de cobre, armários de madeira, completamente americanizados que éramos. Já a casa onde moro até hoje é moderna, do tempo das cozinhas pequenas, racionais, só um corredor. Moral da história: de tão racional, não dá para cozinhar nela de verdade. Mas tudo que contei aqui é prefácio para a cozinha que sempre amei e da qual nunca me esqueci. A fazenda mineira das férias era pobre, sóbria, muito antiga. Sua cozinha era nua, só com fogão de lenha, teto cheio de picumã, um armário de madeira (que devia pesar uma tonelada) com cheiro de bolo e biscoito de polvilho. A folia acontecia do lado de fora, num puxado, junto do forno de cúpula moura, ao lado das galinhas ciscando, dos pintinhos alvoroçados, das goiabeiras carregadas, da sombra das mangueiras. Agora, prestem atenção. Debaixo do puxado, que seria a varanda, passava um córrego limpo, claro, forrado de pedras roladas. E as mulheres suspendiam as roupas até as coxas, entravam na água gelada e ali raspavam os pratos sujos, jogando os restos de comida na correnteza. O córrego levava tudo e os patos amarelos chegavam perto esfomeados, bicando para todos os lados, e mergulhavam na água naquela pura alegria de pato. Vocês nem acreditariam naquele córrego, cheio de sussurros, brincadeiras, piabas, fresco como a lua, carregando mistérios de águas muito limpas. É essa cozinha que eu sempre quis e quero e sempre vou querer.

 

Nina Horta é banqueteira, escritora, colunista de gastronomia e sócia do Buffet Ginger, em São Paulo.

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