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Conheça Mana Bernardes

A forma e o conteúdo da arte de Mana Bernardes

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Da menina que começou a fazer colares por puro passatempo e brincadeira à mulher com estofo de poeta, artista plástica, designer e educadora para a sustentabilidade nem foram tantos anos. Mana Bernardes fez as primeiras bijuterias de material reciclado com 9 anos. O destino, como sempre, deu suas coordenadas. A menina ficou de cama por um ano devido a um problema no intestino e, para se distrair, criava com o que lhe chegasse às mãos. Quando voltou à escola, na oitava série, começou a dar aulas para comunidades carentes e assim ia ensinando gente humilde a fazer acessórios que trariam um ganho extra às famílias. Hoje, essa carioca de 32 anos é dona de um trabalho tão consistente quanto encantado – ou encantador. Não chegou a terminar o curso de desenho industrial porque não deu tempo. “Tinha que viajar muito. Estava na faculdade quando criei um projeto para a cidade de Canoas, no Rio Grande do Sul, e fui morar lá por seis meses para desenvolvê-lo”, lembra. Era o Natal da Transformação, que reuniu mais de 100 mulheres para a fabricação de enfeites para a cidade. “Posso dizer que foi um divisor de águas na minha vida porque envolveu política pública. Me reuni com o secretário de Urbanismo para pensar os pontos estratégicos da cidade onde haveria a decoração natalina. E com o secretário de Cultura para iniciar um movimento nas escolas a fim de arrecadar garrafas PET que seriam a matéria-prima dos enfeites”, conta.

Mana entrelaça diferentes saberes desde cedo. E nunca perdeu o hábito de ser profissional em tudo o que faz. Em nosso primeiro encontro no Rio de Janeiro, preocupada com o atraso, ligou várias vezes atualizando sobre os nós do congestionamento em que havia se metido. Ao chegar, as desculpas vieram acompanhadas de musse de cacau feita por ela mesma com tâmaras, leite de castanha, cacau puro cru e água de coco. “Deixe a castanha-do-pára de molho por no mínimo 24 horas. Depois é só tirar o excesso de água, secar e bater no liquidificador com três partes de água de coco. Coe e bata esse leite com tâmaras e cacau puro cru. Uma parte de leite para uma de tâmaras e uma de cacau”, ensina, feliz com o resultado.

Adepta da alimentação viva – pode ser vista com o marido, o ator Paulo Betti, nos restaurantes cariocas Ponto Org e Universo Orgânico –, procura sempre uma receita mais saudável e saborosa para o cardápio. E adora dividir com quem estiver por perto – nesse caso, eu e Rey, o assistente com porte de prìncipe africano que ela conheceu quando dava a oficina História de Vida Através do Objeto, História do Objeto Através da Vida. “No final, não necessariamente você sai com um objeto pronto, mas sai com um objetivo de vida”, reconhece Rodolfo de Souza Silva, 28 anos, o ex-aluno que virou assistente.

Sentamos as duas num degrau do ateliê, um cubo de madeira e vidro encrustrado na subida da estrada do Joá, no bairro de São Conrado, na capital carioca. Cercadas de verde e com vista panorâmica para o mar. O mirante, o avô de Mana ensinara, é o lugar perfeito para uma boa conversa já que expande a visão para todos os lados. Sabedoria provada e confirmada. Mana, que como boa menina do Rio adora surfar, fazer trilhas e interagir com a natureza, é neta do arquiteto Sergio Bernardes, que trabalhou com Lúcio Costa e Oscar Niemeyer. A avó, dona Clarice, também era dada a arquiteturas, mas de vestidos. Mandava vir de diferentes lugares do mundo as sedas, linhos, veludos que costurava por meses. Deixou um baú com vários deles para a neta, prestes a lançar um filme sobre a  história de amor e separação entre os avós paternos. Filme? Sim. Mana é multidisciplinar. Não há uma caixinha para as ideias, comportamentos ou expectativas quando se trata dessa perita em novidade. Engana-se, contudo, quem imagina que esbanja boas ideias a ponto de desperdiçá-las. “Não gasto projeto à toa. A ideia para mim tem a ver com a sua aplicabilidade. Por isso, antes de desenhar qualquer coisa, vou para o chão da fábrica, por exemplo, falar com os operários e saber se é possível fazer o que imaginei.” Foi assim no projeto de louças para a Tok & Stok. A profissional queria uma superfície que lembrasse a textura de um papel para que pudesse escrever seus manuscritos. Assim, ela acabou chegando à massa das louças da coleção Livros em Louças do jeito que queria. Também desenvolveu com eles o vidro reciclado da coleção Flutuantes.

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Mana é vital. Predestinada. O pai, o cineasta Sergio Bernardes Filho, emprestou o nome de batismo da cultura havaiana. Mana significa justamente energia vital. A escorpiana com ascendente em Touro e Lua em Áries (faz o mapa astral desde pequena por influência da mãe, Ruth Casoy) entendeu com o tempo que o touro, muito trabalhador, compensa a intensidade do escorpião. E faz tudo ficar melhor, mais fluido e centrado. A ioga temperou a profusão de ideias, atividades e vontades com momentos de profunda introspecção e silêncio. O budismo, sua religião desde os 18 anos, amainou um ponto fraco: a de sempre trabalhar como se fosse morrer, tão intensamente que perdia o sono. “Tinha uma energia de superação muito grande, que chegava a atrapalhar. Precisei aprender que o drama não traz tanta competência”, ri.

Essas dimensões de corpo, mente e espírito dão uma intereireza flagrante em tudo o que toca. No momento, desenvolve um trabalho com o Instituto Shopping Recife inserido entre a parte nobre da cidade e a comunidade. Aulas, dinâmicas e saraus fazem parte do processo criativo que culminará na criação de mobiliário feito de papelão reciclado. “Todo mês o shopping descarta 60 toneladas de papelão. Estamos transformando esse material em mobiliário para o próprio local e com isso dando trabalho para a comunidade”, conta.

Para a jornalista Adélia Borges, curadora especializada em design, as criações de Mana esbarram na fronteira com a arte. “É um extravasar da alma dela”. E tem um olhar para o banal que o desbanaliza; que o torna especial. “Os irmãos Campana também fazem isso. O que eles não fazem, no entanto, e que distingue Mana, é o sentido que o trabalho dela ganha na hora em que ela faz dele um instrumento para se relacionar com as pessoas. Ela propicia que outras pessoas, usando as joias dela, por exemplo, finalizem a obra. Pois cada um vai arrumá-la sobre o corpo de um jeito, se expressando de modo próprio”, analisa Adélia. O colar Você É Algo em Mim, com porta-foto, tem esse princípio. Há também o modelo índio urbano, que lembra um acessório indígena, mas é confeccionado com centenas de fitas de PET. Nas oficinas, o convite à criatividade é ainda mais evidente. “O que acho mais legal de trabalhar com expressão é quando consigo libertar o outro de uma ideia fixa”, conta. “O eixo do meu trabalho é o poder de transformar. Minha mãe diz que sou designer de relações”, brinca a carioca.

Mana escreve, desenha, atua (faz perfomances como registra a primeira foto desta reportagem), educa, embeleza. A si e aos outros. Das mãos habilidosas saem caligrafias como partituras da emoção – a partir deste mês o leitor de BONS FLUIDOS poderá conferir na página final da revista. A moça que ficou conhecida primeiro pelas joias do cotidiano, porque feitas de materiais simples como bolinhas de gude, palitos, pazinhas para mexer café, fios e lata, já disse que fazer coisa com material reciclado até a avó fazia. “A questão não é só essa. É idealizar e dar trato à forma. Não quero colocar no mundo uma coisa feia, que vai voltar para o lixo. A maior sustentabilidade é realizar uma joia bela. Senão, não se sustenta.” Forma e conteúdo. Encanto e substância.

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