Como é a vida em Leh, aos pés do Himalaia

Em Leh, tudo é muito intenso, da alegria do povo ao vigor da natureza. Nessa região desértica aos pés do Himalaia, o povo budista vive em busca do sentido da vida.

Por Texto Aline Stürmer | Fotos Renan Rosa | Direção de arte Camilla Frisoni Sola | Design Luciana Giammarino Atualizado em 19 jan 2017, 13h22 - Publicado em 12 jul 2012, 17h08
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Estreitos e tortuosos, os caminhos que conduzem a Leh, capital da província de Ladakh, no extremo norte da Índia, garantem emoções e visões únicas da porção mais ocidental do Himalaia. Montanhas áridas contrastam com o azul de um céu brilhante – um cenário lunar, polvilhado das cores vibrantes das bandeirasde preces budistas, onde paisagens de infindável beleza inspiram a integração dos seres humanos com a natureza. Durante o trajeto, fomos presenteados pelo Sol, que se despedia no horizonte, compondo um crepúsculo luminoso sobre o Monastério de Thiksey. Essa edificação, emparelhada a uma colina a 20 km de Leh, revela a harmonia da arquitetura da região com influências tibetanas. Aos poucos, a cidade e seus personagens se apresentam, trazendo a alegria estampada no rosto de monges, crianças e idosos. Conhecida como Pequeno Tibete, pela proximidade geográfica, cultural e histórica com o Tibete chinês, Leh é um dos principais destinos na Índia para quem pretende mergulhar na cultura budista.

O budismo Leh

 

Aqui, os preceitos básicos do budismo são vivenciados ostensivamente. Todos os habitantes prezam uma vida em conexão com a própria essência, sendo a natureza parte indissociável dessa filosofia. Aos pés do Himalaia, começa um longo percurso para quem está em busca da iluminação. A vibração e a doçura libertadora desse povo estão em cada juley proferido nas ruas. A palavra, no dialeto ladakhi, significa “obrigado”, “olá”, “adeus” e ressoa sempre acompanhada por um sorriso que expressa a felicidade por ver a vida absolutamente contínua, sem começo, meio e fim.

Como são os festivais religiosos

 

Leh recebe muitos visitantes em busca do turismo religioso e de aventura durante o verão, de junho a setembro. É nessa época que se concentram os grandes festivais e cerimônias budistas nos monastérios da província. Durante o restante do ano, quando as temperaturas oscilam entre – 22 oC e – 5 oC, as estradas que ligam Leh à Caxemira, território disputado politicamente pela Índia e pelo Paquistão, e ao sul do país fecham por causa da neve.

 

Na estação quente, ao longo do dia, turistas fervilham no mercado da cidade, centro comercial de artesanatos, mandalas, roupas, tapetes e pratarias. Ao lado, em direção a Changspa, bairro residencial que concentra pousadas, encontra-se o Centro de Meditação Mahabhodi, que oferece direcionamentos espirituais e aulas de meditação para iniciantes, além de serviços de educação e saúde à comunidade ladakhi.

 

Das ruas estreitas e sinuosas do centro avista-se à distância o Palácio de Leh, desenhado no alto da colina de Namgyal. Com arquitetura tibetana medieval, largas paredes arenosas e janelas emolduradas em madeira, foi construído no século 16 para ser a residência real. Hoje permanece apenas como patrimônio histórico. Após intermináveis labirintos de escadarias ao lado do palácio, o Monastério Vermelho de Namgyal

 

Tsemo Gompa guarda algumas escrituras budistas sagradas e uma sala contendo uma enorme estátua de Buda Maitreya, que representa o futuro Buda. O budismo prega a existência de vários Budas, seres iluminados que, após atingir o nirvana, libertam-se do ciclo de nascimento e morte. Maitreya é o Buda esperado em um futuro distante, que marcará o início da transformação do mundo em paraíso.

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No topo de Namgyal, a visão é de tirar o folego: uma imensidão desértica cercada pela maior cordilheira do mundo. À direita, Shanti Estupa, monumento budista construído com a ajuda do governo japonês e inaugurado pelo dalai-lama em 1991 para celebrar a paz mundial, símbolo dos laços criados entre países com forte tradição budista.

Visita ao monastério central

 

A partir do quarto dia, já adaptados ao clima desértico e montanhoso da região, que fica a cerca de 3 500 m de altitude, fomos atraídos pela movimentação de fiéis em direção ao monastério central, Soma Gompa, sede da Associação Budista de Ladakh. No pátio central, centenas de nativos acompanhavam a cerimônia em homenagem a Tri Rinpoche, o patrono do budismo tibetano, líder nomeado pelo dalai-lama. Preces de monges ressoavam pelo interior do monastério, contagiando a todos os presentes com um sentimento de pureza, bondade e sabedoria. A intenção de encontros como esse é afastar tudo o que desequilibra a vida e causa conflitos interiores – o carma, segundo o budismo. Crianças, adultos, gente da terra e estrangeiros, religiosos ou não, todos ali zelavam por uma vida em harmonia.

 

Depois de quase um mês na região, uma energia renovadora tomou conta do nosso coração. As noites estreladas espalhavam bênçãos por essa terra sagrada. As inúmeras preces multiplicadas pelos mantras e japamalas – o terço budista – abriam nosso coração para a alegria. As cerimônias ou até as conversas amenas com os moradores nos traziam uma intensa calmaria inspirada também na beleza natural da região de Ladakh e na cultura de paz, que sugeria um encontro com o ser superior, às vezes chamado de Deus, outras de vida.

 

Ladakh é um lugar de sonhos, onde a realidade cotidiana parece mero detalhe. A compreensão da essência budista inspirou em nós um sentimento de paz que a humanidade busca por toda a vida. Num encontro com o senhor Tondup Tsewang, presidente da associação budista local, pude entender como os ladakhis vivem em tamanha harmonia. Nos olhos miúdos do povo que habita esse pedaço do mundo enxerguei um profundo amor pela existência, uma vida de aceitação da sabedoria, que os guia no sentido oposto aos conflitos mundanos

Como é a região de Ledakh

 

A região de Ladakh, localizada às margens do rio Indo, permaneceu autônoma por quase 1 milênio, cercada por chineses, tibetanos e muçulmanos. Em 1947, com a divisão das terras entre Paquistão e Índia, Ladakh foi anexado como parte do estado indiano de Jamu-Caxemira. Desde 1959, milhares de tibetanos, inconformados com a administração chinesa, cruzam a neve em busca de refúgio, pela similaridade não só religiosa como também de idioma, alimentação

e hábitos. Vários festivais são organizados anualmente nos monastérios da região para celebrar a fé budista. O Festival de Hemis Gompa, no maior monastério de

Ladakh, celebra o nascimento do guru Padmasambhava, fundador do budismo tântrico no Tibete. Encenações mímicas e danças folclóricas com máscaras simbolizando o progresso da alma e sua purificação do mal são apreciadas por nativos e estrangeiros visitantes no colorido Festival de Ladakh, realizado todos os anos em setembro nos arredores de Leh.

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