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Como Dan Stulbach lida com a espiritualidade

É por ter que vestir máscaras para interpretar seus personagens que o ator Dan Filip Stulbach procura não precisar delas na vida real.

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Quando criança, era difícil explicar as emoções estranhas que o angustiavam depois de certos encontros. Com o tempo, entendeu o motivo: “As energias nem sempre são boas”, justifica ele. Filho de mãe arquiteta, pai engenheiro e bom aluno em matemática, era de se esperar que esse assunto sutil não fizesse parte do seu mundo e natural – e do gosto da família – pensar que seguiria a carreira de exatas. “Naquela época, eu tinha mais apego às coisas racionais e controláveis. Com 16 anos, no entanto, decidi fazer teatro. Só tinha uma certeza: a força do que estava sentindo”, conta. Esse sentimento foi o primeiro a sinalizar algo que acompanha o ator até hoje: a vontade de se conhecer e de ser fiel e sincero a si mesmo. Para Dan, que não recebeu uma educação religiosa, essa busca interior define tanto a vertente de sua espiritualidade como lhe ensina a viver em harmonia com o abstrato, o “misterioso”, como gosta de dizer. E o teatro sempre teve grande participação nessa regência. Nesta entrevista, ele explica como tudo isso se conecta e fala especialmente sobre seu papel na peça Meu Deus!, onde atua como ninguém menos que o Criador. Justamente Dan, que não sabe se acredita Nele, ou melhor, prefere não dar nome ao que acredita e simplesmente partilhar as pequenas sutilezas da vida – “Aquelas coisas que são e vieram de graça, como o carinho e o respeito”.

 

Você acredita que existe algo além da matéria?

Sim, com certeza, e eu tenho a sorte de ter uma profissão que me alerta para essas coisas.

Quais coisas?

Não há como ter uma experiência real como ator – no teatro, principalmente – se não acreditarmos em energia (a boa, a má, a do outro ator, a da plateia, a própria) e se não aprendemos a trabalhar com ela para entrar em cena e mantê-la enquanto estamos no palco. Eu sempre tive uma sensibilidade aguda para a vibração das pessoas. Às vezes, fico meio esquisito depois de certos encontros e bem depois de outros. Quando era garoto, não sabia detectar do que se tratava e me sentia desconfortável.

E, hoje, como você lida com essa sensação?

Eu não rezo, não tenho costumes religiosos. Sou de uma família judia, que tem uma história marcante por causa da perda de muitos parentes na perseguição nazista. A educação que eles me passaram foi, a exemplo da que eles tiveram, cultural. Então, a maneira como eu lido com essa sensação (de me sentir mal na presença de algumas pessoas) é buscando ter consciência de mim. Minha vida é dividida entre São Paulo e Rio de Janeiro, mas vivo mais em São Paulo, que é bastante agressiva. De alguma maneira, há uma tendência para que a gente saia do eixo o tempo todo e os sinais que nos são dados pelo corpo, pela intuição, pela sensação são massacrados. Quando eu consigo, nesse caos todo, olhar para dentro, isso de alguma forma me protege, me preserva. A espiritualidade, para mim, é esse caminho de conhecimento interior, é também uma volta para o eixo, uma forma de conseguir ficar saudável e reagir com uma certa paciência ao caos da cidade e do dia a dia. A arte também me ajuda.

Que tipo de arte?

A música clássica, por exemplo, de Johann Sebastian Bach, e as esculturas de Isamu Noguchi são puramente emocionais, sensitivas e me fazem muito bem.

A profssão de ator ajuda a manter esse olhar interno?

Quando se faz um teatro de verdade, as máscaras são oficializadas, ou seja, “eu agora sou tal pessoa”. Ao fazer isso, ou percebemos que não precisamos mais tanto delas na vida real ou passamos a ter clareza das máscaras que usamos fora do palco. Com isso, eu passei a não mais me deixar enganar, a não me permitir enganar o outro. É o começo de uma relação mais verdadeira com a vida. Nem sempre isso é alegre; muitos artistas se afundam na tristeza ou na droga porque às vezes você também não suporta esse tipo de relação sem o conforto da máscara.

É difícil manter a essência quando o sucesso chega?

Vivo num mundo histérico, das celebridades. Os artistas recebem presentes, convites para camarotes, essas coisas. É uma sedutora promoção do ego, algo bastante confortável. Mas também uma armadilha. Fujo disso tudo por dois motivos: sei que não me faria bem e não me faz falta. No teatro, os aplausos passam e, na novela, por mais que você esteja estourando, logo em seguida, está sozinho no quarto do hotel. É por entender esse sobe e desce que busco ter consciência de mim e aprecio as sutilezas da vida, as coisas simples, pequenas e verdadeiras, como o abraço, cuidar do meu jardim, os encontros em casa e com os amigos, a música de fundo, a conversa verdadeira sobre a vida, o trocar, o partilhar, o estar junto… Todas essas coisas me ajudam a ficar bem, principalmente este ano, que talvez seja o período em que eu mais tenha acúmulo de trabalho, com programa de TV, rádio e, claro, no palco.

Entre tantos trabalhos, um chama atenção: você interpreta Deus quase todas as noites no teatro (na peça Meu Deus! dirigida por Elias Andreato). Acredita que existe um criador que rege tudo?

Não sei dizer. Tem uma hora na peça que a personagem interpretada por Irene Ravache, a psicóloga Ana (com quem contraceno o tempo todo) diz: “Olhe para os seus filhos, para como a sociedade está, você nos testa o tempo todo”. Meu personagem reage: “Eu faço isso?”. “Sim”, ela responde. “Nós só ficamos felizes quando compramos um iPhone. Nós não conseguimos mais olhar um para o outro.” E o meu personagem rebate: “Olhe para o céu, o que é que você vê? Milhares de estrelas? Onde você vê milhares de estrelas são 200 bilhões de estrelas.

Quem você acha que rege isso tudo?

Eu cuido disso tudo e você ainda me culpa por eu não cuidar de você”. Eu, Dan, prefiro acreditar no momento em que a ciência e a espiritualidade se encontram. Porque não sou nem racional e concreto demais, nem totalmente vinculado ao mundo não palpável. Tenho presente em mim muito dos dois lados.

Como foi criar esse personagem?

Eu tive que encarar com muita leveza porque, se levasse a sério, enlouqueceria. Não tem sentido, é quase uma heresia. Deus não tem nenhuma fraqueza. Depois, tive também que enlouquecer um pouco para criar o “meu Deus”, que construí exagerando nas qualidades que Ele tem. Isso surgiu porque tenho uma teoria: as nossas maiores qualidades são os nossos maiores defeitos – uma pessoa determinada pode virar obsessiva, outra, dedicada, se tornar workaholic.

O que esse papel acrescentou à sua espiritualidade?

Racionalmente, conhecer melhor a Bíblia. Emocionalmente, me deixar tocar pela energia boa natural de quando se descobre a harmonia que há em tudo o que existe. Me trouxe também muita satisfação, como ator, levar esse conhecimento e essa energia para o público e para o teatro.

Na peça, o Criador está meio “deprê”. Por quais motivos?

Ele sente que há 2 mil anos perdeu a sua força, a sua importância. Está escrito na Bíblia: as palavras de Deus param de existir após certo momento. Isso foi uma grande descoberta de Anat Gov, a autora. Ela escreveu a peça enquanto estava doente e morreu em 2012 antes de a peça ser apresentada. No texto, você entende que é uma terapeuta mulher falando com Deus, compartilha das perguntas que ela faria para Ele e aí todo mundo pensa nas perguntas que faria também.

Você faria alguma?

Se Ele acha que está sendo bem representado no palco (risos).

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