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Casal de cineastas leva cinema itinerante a pequenas cidades do Brasil

Laís Bodanzky e Luiz Bolognesi estendem o tapete vermelho à população que até então desconhecia a magia da sétima arte

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Tudo começou em 1996, quando dois jovens idealistas, os cineastas Laís Bodanzky e Luiz Bolognesi, encontraram um destino mais útil para os arquivos de curta-metragem guardados no armário. Colocaram os filmes para rodar gratuitamente em praças públicas de São Paulo, centros comunitários e escolas. Tudo na base do improviso. “Eram três ou quatro curtas nacionais, ou seja, uns 40 minutos de exibição. Com isso, conseguíamos atrair a atenção dos curiosos”, relembra Luiz. Para a satisfação do casal, a brincadeira foi crescendo e o projeto ganhou o nome de Cine Mambembe, com direito a debate após as apresentações. Pouco tempo depois, tiveram a ideia de levar a sétima arte a lugares precários.

As primeiras exibições foram no sul da Bahia, em Caraíva. Dali em diante, percorreram 15 mil quilômetros, mais de 20 cidades, contabilizando 150 sessões. “Procurávamos a prefeitura, pedíamos alimentação e hospedagem em troca da projeção gratuita”, conta Bolognesi. “Chegávamos a cidades remotas, escolhíamos o local da apresentação – uma praça, uma sala de escola, uma igreja – conversávamos com líderes locais e anunciávamos em um alto-falante o horário da sessão”, explica Laís. “Depois do filme, uma conversa informal e cheia de surpresas embalava as noites”, completa a cineasta. A saga foi registrada pela dupla e rendeu o documentário Cine Mambembe: O Cinema Descobre o Brasil, com o qual ganharam vários prêmios importantes. Foi durante essa aventura que Luiz escreveu o roteiro do longa Bicho de Sete Cabeças, dirigido por Laís Bodanzky, em 2000, e que também lhes trouxe outras premiações.

Após essa experiência, o Cine Mambembe continuou viajando pelo Brasil, graças a convites e parcerias. “A viagem, que era mambembe, hoje, é um grande projeto batizado de Cine Tela Brasil, levando cinema nacional aos 92% dos municípios brasileiros desprovidos de sala de cinema e, o melhor de tudo, as sessões ficam sempre lotadas”, descreve Laís. “O Cine Tela Brasil confirma a impressão que tivemos com a primeira incursão pelo interior do Brasil. O público quer ir ao cinema, quer assistir a filmes nacionais e quer cinema de qualidade. Talvez, a falta de salas seja uma das grandes questões que precisam ser resolvidas para democratizar a cultura cinematográfica no país”, fazem coro Laís e Luiz. Para mudar essa realidade e profissionalizar a ação, eles contaram com o patrocínio da CCR, em 2004, e da Fundação Telefônica, em 2008, ano em que montaram a segunda sala itinerante do país.

De 2007 para cá, foram realizadas 40 oficinas para 880 alunos, num total de 120 curtas. “Quando tudo parecia estabelecido e dando muito certo, começamos a pensar que a verdadeira revolução seria ensinar as comunidades de baixa renda a produzir, contar ou inventar suas próprias histórias”, relata Laís. Assim surgiram, em 2007, as Oficinas Itinerantes de Vídeo. “As oficinas são tão bem-sucedidas e os realizadores de baixa renda têm tanto a dizer que, em pouco menos de dois anos, já vimos curtas selecionados para importantes festivais de cinema”, relata Laís, orgulhosa.Além do curso, os aprendizes têm a oportunidade de conhecer personalidades do cinema brasileiro, como Cao Hamburguer, Hector Babenco, Paulo Betti, entre outros. “Até o momento, foram implementadas 40 oficinas com 880 inscritos que, por sua vez, produziram 120 curtas”, revela Luiz.Certos de que o cinema é uma importante ferramenta de complementação da educação, a dupla lançou ainda o portal Tela Brasil. O endereço virtual integra o projeto O Cinema Vai à Escola, que disponibiliza ensinamentos de cinema, além dos curtas realizados pelos jovens ao longo dos anos de oficina. Mas o casal não para aí. Já estão apostando numa parceria com o Ministério da Educação (MEC) para implantar o cinema como atividade na educação estendida e estão produzindo um livro para auxiliar a empreitada. Esse ainda será um roteiro de um filme inédito a que iremos assistir.

O Cine Tela Brasil contabiliza, desde 2004, números grandiosos. Foram percorridas quase 300 cidades e realizadas mais de 3 mil sessões. A taxa de ocupação da sala é de 88%, a maior do Brasil, superando 600 mil espectadores. Até o final de 2009, 71 filmes nacionais já foram exibidos gratuitamente.

 

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