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Carlos Solano reflete sobre a cidade, a casa que também habitamos

Carlos Solano é arquiteto e escritor. Coordena a campanha Vamos Plantar Um Milhão de Árvores. Pesquisa a cultura popular, as terapias da casa, a ecologia e o bem-estar

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Circular por uma cidade grande é um exercício de amor incondicional, pensei durante um congestionamento em Belo Horizonte. Ufa, não é fácil… “Uma cidade influencia 70% da nossa vida (a saúde, o humor, as relações) e a casa 30%”, ouvi do Mestre Ho, meu professor de feng shui na China. Enquanto o tempo parou no trânsito, imaginei, de brincadeira, quais seriam as curas para o mal-estar de uma metrópole.

Pensei que, se a cura fosse feita de palavras, eu escolheria entre por favor, obrigado, com licença, bom dia e me desculpe ou todas elas em conjunto. Se fosse um livro, seria o Saber Cuidar, de Leonardo Boff (ed. Vozes), que ensina que tudo precisa de cuidados para continuar a existir. Se fosse uma atitude? Não furar filas, respeitar os vizinhos, jogar lixo no lixo, ceder lugar a idosos; tudo óbvio, mas raro de se ver. Podemos ir além com o apoio do movimento Cidades em Transição, que estimula as pessoas comuns a se engajarem em propostas que melhoram a vida. Criado há pouco mais de seis anos, esse movimento reconhece que as crises energética (de petróleo) e ambiental (mudança climática) irão aumentar. Por isso prefere planejar a ser pego de surpresa e impulsiona ações de sustentabilidade entre grupos de amigos para que eles definam a cidade em que querem morar daqui a alguns anos. “Já existe um exemplo disso na Brasilândia, em São Paulo, a primeira comunidade de baixa renda no mundo a integrar o Cidades em Transição. Os moradores estão reaprendendo corte e costura, gastronomia, pequenos concertos, artes manuais e como se faz hortas comunitárias”, me disse o arquiteto François Rodriguez, cujos estudos indicam essa boa alternativa para os bairros carentes.

Se o remédio fosse um modelo de comunidade, na minha opinião esse seria o das ecovilas. Uma ideia que vi em Findhorn, na Escócia, foi a da butique, onde as pessoas deixam o que não querem mais. O que não serve para um vale para outro numa reciclagem possível a qualquer vila do bem. Outro exemplo é o da cidade-jardim concebida pelo inglês Ebenezer Howard. Ele construiu Letchworth (Inglaterra) e Hellerau (Alemanha) e provou que são viáveis as cidades parceiras da natureza.

Quanto as cores, sabidamente eficazes para melhorar o humor dos cidadãos, eu pintaria os prédios de todas elas, exceto cinza, a cor da massificação mental. Um animal? As cidades respiram no voo dos pássaros… Um móvel? Com mais gente andando a pé, que as ruas afitas se transformem com gostosos bancos de praça. Uma árvore? Todas, pois são faxineiras do ar. Uma estação? Primavera, como na França, em ruas perfumadas por lavandas. E não podem faltar os gestos como a campanha Rio (de Janeiro) mais Limpo – menos lixo, mais bem-estar. Finalmente, se a cura fosse uma pessoa seria você. As cidades podem trazer aprendizados incríveis desde que você circule por elas num exercício de amor incondicional. Concordo com a frase que vi escrita em um muro de São Paulo: “Mais amor, por favor!”.

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