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Cameron Sinclair fala sobre arquitetura humanitária no século 21

À frente da Architecture for Humanity, o arquiteto inglês Cameron Sinclair utiliza toda sua experiência e sensibilidade para reconstruir comunidades devastadas pela guerra ou por desastres naturais.

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Acostumado a trabalhar com comunidades que perderam tudo após algum desastre natural ou guerra (muitas delas estão localizadas em áreas de conflito na África), Sinclair e sua mulher, a também arquiteta Kate Stohr, vivem segundo um conceito: “Aos olhos de uma comunidade que se recupera de um desastre, vivendo na pobreza e devastada pela negligência, vislumbrar um projeto é simplesmente um sonho. Um projeto apresentado na forma de imagens em 3D e uma maquete são um grande começo. Mas não a solução”, diz Sinclair. “Há milhões de ideias para mudar o mundo, mas elas não servem para nada se você não as executar.” Esta é a primeira lição que Sinclair aprendeu e o motor de seu trabalho: incluir a comunidade desde o planejamento até a captação de recursos para se reerguer. Essa experiência e os desafios de uma arquitetura responsável no século 21 foram os temas da entrevista exclusiva que ele deu a BONS FLUIDOS.

 

BONS FLUIDOS Você poderia falar um pouco sobre a experiência da Architecture for Humanity?

CAMERON SINCLAIR Tenho o prazer de representar nossa organização mundo afora. Consequentemente, encontro fãs, seguidores, parceiros, doadores de fundos, líderes influentes e, especialmente, pessoas diretamente beneficiadas pelo trabalho que fazemos. Temos uma inacreditável rede internacional e por intermédio dela podemos contratar pessoas, treiná-las e supervisionar a construção de dezenas de projetos a cada ano. Muita gente ficaria surpresa de saber que temos participação no novíssimo Manhattan Bridge Skate Park – um parceiro coordenou o projeto e construiu em um ano algo que teria levado entre cinco e sete vezes mais tempo. Aberto em 21 de junho, é um espaço para a juventude urbana localizado em uma deteriorada parte do bairro do Brooklin, em Nova York. Milhares de pessoas apareceram para ver o parque, que se transformou num dos pontos mais conhecidos para fazer skate na cidade. Isso mostrou aos parceiros da empreitada o quão poderosas podem ser iniciativas desse porte.

 

 

BF Em vídeos no site da AFH, chama a atenção o número de arquitetos que ajudam a reconstruir cidades devastadas. Vocês entram em cena logo no início da tragédia?

CS Não, nós atuamos como “os últimos a fornecer uma resposta” para o que aconteceu. Em caso de desastres naturais, já existem algumas organizações prontas para agir e dar alívio imediato àqueles que estão na zona de devastação. Isso nos garante flexibilidade para olhar mais longe na recuperação dessas comunidades a longo prazo. Ou seja, estamos falando de algo em torno de 20 anos ou mais. Criamos um centro de reconstrução em Porto Príncipe, no Haiti, e um centro de recuperação econômica em Tohoku, no Japão, por exemplo. Cada um desses escritórios baseia-se nas lições de todos os lugares em que já trabalhamos. Temos companheiros de projeto, profissionais voluntários, gente com foco em projetos específicos e nas relações de gerenciamento pessoal. É uma fórmula que estamos refinando, mas sempre há o interesse das pessoas que fazem parte de nossa rede, profissionais e empresas, de se envolverem. Em Kosovo, por exemplo, eu estava desanimando com a lentidão das coisas quando um anônimo doou mais de US$ 20 mil para nos ajudar a tornar aquele sonho e realidade.

 

BF O que mais se aprende com essa arquitetura humanitária?

CS A pensar a longo prazo. Não só numa estratégia de reparo, mas em como encontrar uma solução sustentável para as necessidades sociais, econômicas e ambientais que afetam determinada comunidade.

 

 

BF Essa é a arquitetura do século 21?

CS O que podemos aprender com a arquitetura hoje é que o impacto das construções é possível de ser monitorado. Seja avaliando como os membros de uma comunidade usam um edifício que construímos, seja acompanhando o desempenho de energia de um prédio, estamos encontrando meios mais razoáveis de coletar informações e estudar como uma edificação repercute em seu entorno. Isso tem amplas implicações sobre como as pessoas veem a arquitetura, interagem com ela e quais problemas a arquitetura pode resolver. Além disso, nós nos tornamos mais alertas sobre o diálogo entre um prédio que construímos e seus arredores e nos tornamos mais atentos “ao outro”. Em vez de soluções homogeneizadas, alternativas mais regionais estão sendo consideradas e, em algumas partes, sustentabilidade é uma questão de sobrevivência tanto para as comunidades quanto para seus clientes.

 

BF Recentemente, um importante urbanista brasileiro disse que antigamente não se fazia um prédio sem considerar que ele não poderia criar mais do que uma hora de sombra sobre seu vizinho. ainda há espaço para uma arquitetura cordial?

CS Toda a arquitetura não deveria ser, por princípio, cordial? Nosso papel é humanizar o espaço e criar ambientes coletivos para que as pessoas interajam. Vejo a cidade como um tecido e, à medida que a paisagem urbana se torna mais densa, a maneira como trabalhamos e vivemos nela difere. É responsabilidade da indústria da construção civil, e especialmente dos arquitetos, desenvolver ambientes que enriqueçam essa sensação de pertencimento.

 

 

BF Você costuma dizer que a arquitetura tem de impressionar menos e o ser humano importar mais…

CS Há uma imensa demanda agora para que os construtores e arquitetos escolham materiais locais – o que é uma boa relação custo/benefício e reduz a pegada de carbono de uma construção, entre outras vantagens. O problema é: muitos lugares em que trabalhamos são completamente carentes de materiais locais. O Haiti, por exemplo, está totalmente desmatado, tem pouca pedra para agregar ao concreto e tem um governo razoavelmente cético em relação a novas propostas. Portanto, temos de trabalhar com o que pudermos, importando o que precisamos e pressionando para continuar a testar novos materiais mais resistentes e econômicos. O maior desafio é entender que a arquitetura é um ato político e precisamos nos engajar no processo de moldar e formar uma nova política de investimento e maior infraestrutura.

 

 

BF Quem precisa mais de um arquiteto nos dias de hoje?

CS Eu acho que toda comunidade poderia contar com um bom arquiteto se eles fossem mais disponíveis. Cada parte do mundo tem um conjunto diferente de vulnerabilidades e, sabendo que as catástrofes não vão desaparecer, podemos estar mais preparados para manter as pessoas de pé quando o desastre acontece. Os arquitetos podem fazer isso. Em um nível mais sistêmico, podem trabalhar em conjunto com grupos comunitários. Podem desempenhar um papel importante no desenvolvimento e na implementação de soluções inovadoras e replicáveis em escala.

 

 

BF Quais materiais deveriam ser priorizados numa arquitetura que leva em consideração tanto o homem quanto o planeta?

CS Precisamos optar por itens que podem ser reabastecidos e pensar mais sobre o reaproveitamento das estruturas existentes. Este ano fizemos um concurso de design para transformar instalações militares sem uso. E, com base nas propostas que chegaram, já se vê que a criatividade vale ouro.

 

 

BF Em sua visita ao Brasil, você falou sobre um projeto no Capão redondo, zona periférica de São Paulo. Por que o projeto ainda não foi realizado?

CS É um trabalho para o projeto Vida Corrida, fundado pela maratonista amadora Neide Santos. Trata-se de uma pista de atletismo que vai interligar a favela e reunir os jovens com atividades extracurriculares. Infelizmente, o governo local ainda não aprovou o projeto e os fundos permanecem latentes. Respeitamos os regulamentos da cidade, mesmo em locais com muitas estruturas ilegais. Isso significa que temos de aguardar todo um processo burocrático. Vale dizer que começamos esse projeto junto com o complexo esportivo de Manhattan, ambos apoiados pela Nike. O projeto em Nova York já está construído. O clube esportivo do Capão Redondo ainda aguarda aprovação. Mas estamos comprometidos com Neide e seu desejo de construir um porto seguro para as crianças.

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BF Arquitetura do bem-estar:

CS Um direito humano básico.

 

BF O melhor conselho de Arquitetura que alguém já lhe deu:

CS Há milhões de ideias para mudar o mundo, mas elas não servem para nada até que você execute pelo menos uma.

 

BF A coisa mais importante para pensar quando se está construindo uma casa:

CS Sua vida muda e sua casa deve crescer com você. Ninguém constrói para um momento congelado no tempo, construímos para atender a nossos desejos hoje.

 

BF Uma coisa de que você jamais abrirá mão:

CS Eu sou incansável no que se refere ao trabalho com as comunidades que precisam de ajuda. Não vou descansar até conseguirmos abrigo básico para todos.

 

BF Algo que você mudou e que o fez muito feliz (no que se refere a arquitetura):

CS Eu comecei a trabalhar com as comunidades, e não para elas. Não vejo meus clientes como receptáculos da minha arquitetura, mas sim como parceiros.

 

BF Novidades:

CS Temos três projetos no Brasil. Se tivermos mais um ou dois, não descartamos a ideia de abrir um escritório em São Paulo.

Depoimento de Alex Steffen sobre Cameron Sinclair

 

Se você se preocupa com o futuro que estamos construindo, então deve ler Design Like You Give a Damn” (ainda sem tradução para o português), diz Alex Steffen, escritor e ativista conhecido pela defesa de cidades sustentáveis. Ele fala sobre o novo livro do arquiteto britânico Cameron Sinclair, diretor da Architecture for Humanity (em tradução literal, Arquitetura pela Humanidade), empresa sem fins lucrativos que surgiu em 1999 com uma ideia bastante arrojada: projetar casas, escolas, hospitais e outros equipamentos públicos para as comunidades que mais precisam delas. Até 2011, quando o livro foi publicado, 2 250 construções projetadas pela associação já haviam beneficiado 2 milhões de pessoas (que moram, estudam, se tratam ou trabalham nesses edifícios).

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