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Empoderamento: a importância das mulheres no artesanato

O artesanato permite às mulheres aumento da autoconfiança e autonomia sobre suas buscas pessoais

arte em cerâmica da artesã formada em Artes Plásticas Andreia Pereira

 (José Lourival Figueiro/Casa.com.br)

As mulheres são maioria no Brasil, equivalente a 51,8% da população segundo o censo do IBGE de 2019. Nas comunidades artesanais brasileiras esse número é ainda maior: as mulheres representam 90% de todo segmento. O fortalecimento do trabalho das artesãs no país acontece especialmente pelo trabalho contínuo de comunidades e instituições de apoio, como a Rede Artesol, ONG fundada há 20 anos para fomentar toda a cadeia produtiva artesanal brasileira.

arte em cerâmica da artesã formada em Artes Plásticas Andreia Pereira

 (José Lourival Figueiro/Casa.com.br)

Boa parte das profissionais apoiadas pela Artesol vivem em regiões com poucas oportunidades de trabalho e em comunidades distantes dos centros urbanos, neste ano de maneira agravante, diante o enfrentamento à pandemia do COVID-19, a Rede Artesol atua na economia criativa para superar estigmas de gênero, e fatores como baixa escolaridade e falta de acesso a recursos econômicos.

Mulheres artesãs

 (Artesol/Casa.com.br)

A Rede Artesol é uma iniciativa focada no mapeamento, capacitação e divulgação dos artesãos e núcleos artesanais brasileiros para o mundo. Na plataforma do projeto, o público pode conhecer centenas de associações de todo o território nacional e entrar em contato diretamente com os artesãos. Uma das iniciativas mapeadas pela Rede Artesol é o projeto Seringô, que há mais de 30 anos capacita mulheres em toda a Amazônia para trabalhar com a produção de artesanato de encauchado (um material emborrachado criado com látex da floresta). A artesã e uma das gestoras do projeto, Zélia Damasceno, costuma viajar durante 5 dias de barco para chegar em aldeias como as do povo “huni kuni” no Acre, entre outros territórios de difícil acesso no norte do país. A proposta da Seringô é gerar renda digna para mulheres que vivem em aldeias indígenas, reservas extrativistas e povoados ribeirinhos. As peças produzidas (centros de mesa, sousplats e itens de decoração, por exemplo) retratam a biodiversidade amazônica e já foram expostas em uma das maiores feiras de design do mundo, o Salão do Móvel de Milão.

Pessoas com sousplat feitos de látex da Amazônia pela Seringô

 (Artesol/Casa.com.br)

Zélia conta que a grande dificuldade no processo de capacitação em algumas das comunidades está na resistência dos maridos que não aceitam que suas esposas saiam de casa para participar das oficinas de formação, pois acreditam que elas vão abandonar as atividades domésticas por conta do artesanato. Por isso, em alguns casos, Zélia faz a capacitação individualmente, indo nas próprias casas dessas mulheres até que os cônjuges compreendam o trabalho e concordem com o envolvimento das esposas nas atividades.

Mulher artesã com sousplat feitos de látex da Amazônia pela Seringô

 (Artesol/Casa.com.br)

Zélia explica que essa atenção individual é importante no processo de inserção das mulheres que já sofrem com falta de acesso à educação e renda, e precisam de apoio inclusive no diálogo com os companheiros para que consigam se desenvolver economicamente. Ao todo, a Seringô já capacitou mais de 40 comunidades em todo o território amazônico. A lógica a partir da cooperativa criada pelo projeto é que os homens passem a extrair o látex natural e as mulheres e os homens possam também gerar renda através do artesanato.

peças decorativas de cerâmica, da Mestra Zezinha, do Vale do Jequitinhonha.

 (Artesol/Casa.com.br)

A Presidente da Rede Artesol, Sonia Quintella, revela os inúmeros avanços para mulheres que se dedicam ao artesanato. “Boa parte das artesãs vive em comunidades tradicionais distantes dos grandes centros urbanos. Atuam na economia criativa para superar estigmas não apenas de gênero, mas também a baixa escolaridade e a falta de acesso a recursos econômicos. São ribeirinhas, indígenas, quilombolas ou sertanejas que, muitas vezes, através do artesanato, conseguiram proporcionar melhor educação aos filhos, enfrentaram situações de violência doméstica, melhoraram sua autoestima e se organizaram coletivamente, assumindo a liderança de suas comunidades”.

peças decorativas de cerâmica, da Mestra Zezinha, do Vale do Jequitinhonha.

 (Artesol/Casa.com.br)

Outra integrante da Rede Artesol que merece destaque pelo protagonismo em sua região é Maria José Gomes da Silva. Também conhecida como Zezinha, ela é uma das mais prestigiadas artistas do Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, importante polo de cerâmica do Brasil. Zezinha nasceu no povoado de Campo Alegre e, sendo a primeira de dez irmãos, começou a trabalhar aos 14 anos, ajudando o pai como servente. Depois aprendeu a moldar o barro ao observar a mãe ceramista, se tornando uma grande referência no Jequitinhonha.

peças decorativas de cerâmica, da Mestra Zezinha, do Vale do Jequitinhonha.

 (Artesol/Casa.com.br)

Sua obra se destaca pela delicadeza das feições e nível de sofisticação dos figurinos de mulheres moldadas na argila. “Eu me realizo nas roupas das minhas bonecas, porque quando era adolescente o meu sonho era ter vestidos chiques que minha família nunca conseguiria comprar. Por isso, eu comecei a “bordar” os vestidos das bonecas no barro, desenhava jóias e enfeites que eu sonhava em ter.” Aos 21 anos, Zezinha casou-se com Ulisses, que se tornou um grande parceiro, abrindo mão de sua profissão para assumir as tarefas da casa e de duas filhas do casal para que Zezinha se dedicasse à sua arte – um ato de coragem para a época. Posteriormente, Ulisses passou a dar apoio à produção e comercialização da cerâmica, junto a um grupo de mulheres que se tornaram aprendizes de Zezinha.

peças decorativas de cerâmica, da Mestra Zezinha, do Vale do Jequitinhonha.

 (Artesol/Casa.com.br)

Zezinha e Ulisses criaram uma espécie de museu a céu aberto no jardim de sua própria casa com peças da artista e ampliaram a casa para ministrarem oficinas e vivências de cerâmica a turistas que se interessassem. Na Associação de Coqueiro Campo, Ulisses foi por muito tempo o único homem em meio a mais de 50 mulheres que se dedicavam à tradição de transformar o barro em arte. O apoio do marido foi essencial para que Zezinha transmitisse seu conhecimento para tantas outras mulheres da comunidade.

arte em cerâmica da artesã formada em Artes Plásticas Andreia Pereira

 (José Lourival Figueiro/Casa.com.br)

A ceramista e artesã Andreia Pereira, da cidade de Andrade de Santana do Araçuaí, em Minas Gerais, graduada em Artes Plásticas, que também faz parte da Rede Artesol, aprendeu com sua avó, dona Isabel Mendes, grande mestra do Vale do Jequitinhonha, a arte de criar sua própria narrativa sobre a história do seu lugar e seu povo. Andreia começou a modelar o barro ainda criança e, aos 14 anos, vendeu sua primeira peça, exibida com a produção da família numa exposição no Rio de Janeiro.

arte em cerâmica da artesã formada em Artes Plásticas Andreia Pereira

 (José Lourival Figueiro/Casa.com.br)

Chegou a pensar em cursar arquitetura, mas optou por trilhar o mesmo caminho da mãe e da avó, inaugurando a terceira geração dedicada ao ofício. No entanto, foi a primeira a buscar orientação fora do círculo familiar. Foi morar em Belo Horizonte exclusivamente para estudar artes plásticas na Escola Guignard. Especializou-se em pintura e cerâmica e construiu na escola, com os colegas, um forno de barro típico dos artesãos do Jequitinhonha. Terminado o curso, deu aulas em Portugal e na Espanha, mas retornou a Santana do Araçuaí para dar continuidade à arte da avó e de seus pais.

Andreia se fortaleceu em suas linhagens anteriores para buscar aperfeiçoar-se como artista. “Agradeço a Deus pela minha avó-mãe que tem mãos abençoadas e um dom divinal. E o mínimo que posso fazer é agradecer à minha querida avó-mãe um pouquinho do que aprendi com ela e que Deus nos permita dividir o aprendizado que me orgulha tanto”, comenta emocionada Andreia.

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