A cidade e a paisagista Rosa Grena Kliass

A especialista brasileira é a primeira entrevistada da série de conversas sobre os centros urbanos. Ao longo de papos tão inspiradores, colecionamos inquietações, exemplos de ações bem-sucedidas e ideias para o futuro

Por Por Carine Savietto e Cristiane Teixeira Atualizado em 9 set 2021, 13h09 - Publicado em 29 mar 2017, 16h52

Convidamos sete mulheres a refletirem sobre como a arquitetura e o urbanismo podem melhorar a vida nas metrópoles. Na sequência de entrevistas, profissionais brasileiras e estrangeiras às voltas com o tema compartilham histórias de pequenas gentilezas urbanas, expressando o desejo coletivo por espaços mais livres e propícios ao convívio.

A primeira a conversar conosco é a arquiteta pioneira do paisagismo no Brasil, Rosa Grena Kliass. Nas próximas semanas, sempre às quartas-feiras, publicaremos o bate-papo realizado com Laura Sobral, Catherine Otondo, Magu Bueno, Nathalie de Vries, Paola Viganò e Adriana Levisky. 

Continua após a publicidade

Quem é: arquiteta pioneira do paisagismo no Brasil, formada pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP), criou projetos para áreas privadas e públicas, entre eles o do Parque da Juventude, em São Paulo, uma área de 240 mil m² onde antes funcionou a Casa de Detenção do Carandiru

Bancos de jardim – Eles são importantíssimos. Ao se sentar num banco, você está se apropriando de uma paisagem. Uma vez, eu estava no Parque da Juventude e ouvi uma flauta: era um menino, sentado, tocando. Pensei: ‘Já valeu ter feito este banco!’

Mais lazer, menos criminalidade – Outra vez, quando cheguei, um casal que estava sentado se levantou para sair. Eu perguntei: Onde é que vocês moram? Aqui no bairro?’. E o rapaz, que era um mulato alto, bonito, respondeu: ‘Ali naquela favela’. Eu disse: ‘Ah, então vocês estão contentes com o parque aqui, não é?’ E ele: ‘Dona, se tivessem feito este parque dez anos atrás, muitos dos meus amigos não teriam ido para o mau caminho’.

Parque da Juventude, em São Paulo. (Foto: Acervo Aflalo/ Gasperini Arquitetos)

Em comunhão – A gente fez umas oito, dez quadras, de vôlei, basquete, tênis… E normalmente elas são cercadas. Mas eu falei com a minha equipe: ‘Nós tiramos as grades do presídio e agora vamos colocá-las aqui? Ah, não’. Só que era necessário proteger os transeuntes das bolas, então colocamos umas grades não nas quadras, mas entre elas e a passagem. Aí, uma vez, levei um paisagista americano para conhecer o parque num sábado e ele perguntou: ‘Mas você não pôs grades?’. Naquela hora, estava passando um guarda e eu falei: ‘Vem cá! O pessoal reclama que não tem grade?’. Ele me olhou e… ele nem tinha percebido que não havia grades! Eu disse: ‘Professor, se tivesse que pôr, a gente punha. Mas veja que não precisa: a bola vai para um lado, e os outros jogam de volta’. É uma comunhão, uma coisa linda.”

Continua após a publicidade

Publicidade