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Intuição: histórias de quem segue a sua e escolhe o melhor caminho

Ela dispara como um flash apontando o caminho. A questão é: segui-lo ou não? Cientistas e estudiosos debatem o tema. Mas aqui entre nós – não tente entender isso pelo olhar da lógica.

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Ao final desta reportagem, no espaço dedicado a comentários, compartilhe a sua experiência com a intuição. Você confia nela? Acha que ela…existe? Você já se imaginou em um quarto escuro à procura de um gato preto que pode nem estar lá? Como na descrição do naturalista inglês Charles Darwin acerca dos matemáticos, é assim que o professor doutor Diego Marques Ferreira, da Universidade de Brasília (UnB), se vê diante das equações complexas em seus estudos. Para encontrar as respostas de forma mais veloz, ele se vale também da intuição, aptidão estranha ao seu universo racional, mas eficaz para uma corrente de cientistas encabeçada lá atrás por ninguém menos que Albert Einstein, autor da Teoria da Relatividade. No início do século 20, o físico alemão revolucionou o planeta e chegou às portas da crença ao descrever como espaço e tempo são relativos e estão interligados. O curioso é como ele chegou lá. Acredite, Einstein se valeu de extraordinária sensibilidade para formular sua tese notória.

Como a ciência vê a intuição

 

“Não existe nenhum caminho lógico para a descoberta das leis elementares; o único é o da intuição.” Jovem e respeitado no meio acadêmico, Diego faz coro ao cientista famoso. O matemático cearense não costuma valorizar apenas o pensamento lógico, aproveita sobretudo os  ampejos que surgem com a força e a rapidez de um raio. Mas não o vá imaginando um sujeito alternativo, avesso a tecnologias. O professor tira proveito de todos os recursos disponíveis no Universo para desenvolver seus cálculos com maestria na UnB. A voz interna é apenas um deles. Quando ela aparece, vem acompanhada de indisfarçáveis sintomas físicos. O coração dispara e bate uma incontrolável ansiedade para comprovar o insight. A tais impressões, segue-se um ritual de relaxamento. “Lavo o rosto, faço um lanche, escuto Beethoven no meu iTouch e me deixo levar”, revela. Sem tirar os neurônios de cena, claro, mas é assim que ele acha muitas das soluções de problemas matemáticos complexos. “Eu não tenho dúvidas, bom cientista sabe dosar razão e intuição”, pondera. Graças a essa certeza, o pesquisador evita entrar no quarto escuro (a metáfora de Darwin) quando o gato não está lá. Ou seja, a intuição lhe dá objetividade e o ajuda a não desperdiçar tempo à toa buscando respostas onde elas não existem.

Intuição e religião

 

Sim! Intuir é acreditar. No mínimo em si mesmo. Não existe intuição sem fé nem sem autoconhecimento. E nisso, estudiosos e leigos estão de pleno acordo. A antropóloga e ceramista Sirlene Giannotti, por exemplo, não é uma religiosa de carteirinha, mas crê numa força maior e, especialmente, nesse saber sem motivo aparente. “A base do meu trabalho no ateliê é a intuição”, revela. “Os artistas, as crianças e os loucos também valorizam a intuição — o respeitam como canal de conhecimento –, pois ela precede o pensamento lógico.” Argila, tinta e forno são apenas meios para tornar possíveis suas obras. Está na composição de quem é criativo. O start e a forma das esculturas e objetos, diz ela, estão intimamente ligados ao ato de intuir. Mas não é só na hora de criar que a ceramista dá ouvidos às suas percepções. Anos atrás, sua filha sofreu um acidente na escola e foi parar no hospital. Antes de ser avisada, Sirlene teve o ímpeto de deixar tudo de lado e ir ao encontro da menina.

 

Para o pesquisador Amitai Shenhav, que acaba de concluir tese de doutorado sobre o tema no departamento de psicologia de Harvard, em Boston, Estados Unidos, as pessoas que confiam no instinto são mais propensas a serem religiosas. “Há algo na composição cognitiva dos humanos que promove a crença num ser superior”, descreve Amitai. “É uma tendência natural de enxergar um propósito por trás de eventos aleatórios com base numa necessidade de reduzir as incertezas da vida.”

História da intuição

 

Nem sempre foi assim na história da humanidade. De maneira geral, até a Idade Média não havia espaço para esse tipo de dúvida observada pelo psicólogo. O homem cultivava uma relação vertical com o divino, evidenciada pelo caráter sagrado conferido à natureza. Absolutamente tudo tinha conexão direta com Deus. Não havia, portanto, separação tão definida – muito menos oposição acirrada — entre intuição e razão. Mas, no afã de dominar a natureza, o homem rompe o laço com o sagrado e, pouco a pouco, inicia-se o processo de desenvolvimento da ciência moderna como conhecemos hoje. A partir daí, o lado racional assume papel preponderante sobre a existência e abre caminho para eventos cruciais da história na formação da sociedade ocidental contemporânea. Exemplos não faltam: as grandes navegações, a descoberta de novos mundos e o renascimento na Itália. Em nome de um novo processo evolutivo, civilizações anteriores ao expansionismo europeu de então são dizimadas. No México e na América Central, os incas e os astecas – povos de cultura avançada, que cultuavam divindades representadas pela natureza – foram massacrados pela coroa espanhola. Com a nova ordem ocidental, o pensamento lógico vai ganhando peso.

 

Nobel de economia por seus estudos sobre o comportamento humano, o psicólogo israelense Daniel Kahneman discorre sobre o fato de o cérebro apresentar dois sistemas distintos de pensamento – o primeiro, rápido e intuitivo, confia na experiência, na memória e nos sentimentos para tomar decisões; o segundo, lento e analítico, envolve raciocínio e é uma espécie de guardião do primeiro. “Em muitos casos, as pessoas confiam na primeira resposta disponível na memória, que utiliza um processo automático, com menos esforço, para chegar a uma decisão”, avalia Amitai, em sintonia com Daniel. “A isso chamamos intuição.”

Uma coisa é certa: todo mundo tem intuição

 

Não existe nada de sobrenatural nesses sinais internos, mesmo quando eles não parecem nada lógicos. “A intuição faz parte da natureza humana, algumas pessoas, no entanto, conseguem entendê-la melhor”, diz Virgínia Marchini, diretora do Centro de Desenvolvimento do Potencial Intuitivo, em São Paulo. De acordo com a psicóloga, no entanto, só dá para confiarmos na intuição de olhos fechados quando aprendemos a separá-la de medos e desejos. Essa é a máxima da publicitária paulista Sandra Othon. Coordenadora da equipe de produção da Bossa Nova Films, ela tem um dia a dia agitado e quem a vê trabalhando com tanta objetividade nem imagina seu sexto sentido. “É melhor acreditar naquela percepção do que desprezá-la e depois verificar que errou,” lembra. “Só eu sei dos pepinos que já me livrei por ter sido fiel à minha intuição.” Para ela, um sinal muito evidente é o mau humor. Quando ele chega, Sandra já sabe – é a voz interior querendo dizer algo. “É imprescindível ficar atento a esse tipo de toque, especialmente para gerenciar equipes enormes com os mais variados tipos de pessoas.” E para você, como a intuição se manifesta?

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