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Dá para produzir cosméticos sem produzir testes em animais?

Ainda é necessário produzir novas substâncias cosméticas utilizando os testes em animais? O Brasil deve ter a resposta nos próximos dias.

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Dependendo dos olhos do observador, um copo com água pela metade pode significar que está quase cheio ou quase vazio. A segunda opção foi a forma como a enérgica escritora irlandesa Frances Power Cobb (1822-1904) enxergou o seu copo, em 1876, ao saber do resultado da sua luta para despertar a atenção da sociedade inglesa sobre os maus-tratos que os animais vinham sofrendo nas mãos de cientistas. Os bichos eram dissecados vivos para a realização de experimentos. Frances conseguiu, embora quisesse muito mais, que fosse criado um ato jurídico anticrueldade contra os animais. A iniciativa não abolia por completo esse tipo de estudo, mas estabelecia um regulamento que colocava freio no tamanho dessa crueldade. Era o início de uma batalha que se estende até hoje ao redor do mundo, pois o homem continua a manipular ratos, hamsters, coelhos e outros bichos para validar componentes de remédios, produtos de limpeza e cosméticos. “No que se refere à produção desses últimos, avançamos muito. Desde 2009, os testes em animais para a indústria da beleza são proibidos no território europeu. No ano passado, foram banidas até mesmo a venda de produtos e componentes experimentados em animais em países fora do território europeu”, comemora Amanda Nordstrom, advogada do laboratório de investigação da organização americana PETA (People for the Ethical Treatment of Animals – Pessoas para o Tratamento Ético dos Animais), a mais engajada do mundo na proteção animal. A Índia determinou o fim dos testes em 2013. Israel já tinha dado veto em 2007. “Canadá e Estados Unidos não os proíbem, mas também não os exigem como ainda é o caso da China”, conta Amanda. Agora, um dos grandes desafios da PETA é levar aos chineses o conhecimento dos métodos alternativos modernos. No Brasil, a questão tem grandes chances de encontrar uma boa solução em breve. É o que esperam as mais de 6 mil pessoas que assinaram a petição Liberte-se da Crueldade endereçada ao ministro da Ciência, Tecnologia e Inovação, Marco Antonio Raupp, no final do ano passado. “A campanha pede o fim desses testes para a fabricação de cosméticos. Não há razão para eles continuarem sendo feitos. Existem cerca de 12 mil ingredientes disponíveis no mercado e que já foram testados. A partir deles, novos produtos podem ser desenvolvidos sem necessidade de mais experimentos”, explica o advogado que está à frente da empreitada, o francês Helder Constantino, do grupo de proteção animal Humane Society International (HSI), com sede em Washington. A mesma opinião é compartilhada pelo farmacêutico Jadir Nunes, vice-presidente da Associação Brasileira de Cosmetologia e presidente da Sociedade Brasileira de Métodos Alternativos à Experimentação Animal (SBMAlt). “Na realidade, é exatamente isso o que boa parte das 2 mil empresas cosméticas brasileiras tem feito, ou seja, utilizar essa infinidade de substâncias que já foram testadas em animais para criar novos produtos”, diz ele. “Hoje já sabemos que esse tipo de avaliação não é a única forma de garantir a qualidade de um ingrediente. Muitas outras, como as análises in vitro e in silico, já foram validadas cientificamente, ou seja, são tão eficazes quanto os testes em animais. Mas, no Brasil, dependendo do nível de complexidade de um ingrediente novo, ainda pode ser necessário um teste complementar de segurança em seres vivos”, explica Jadir. Para conceder o registro de um produto, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) não exige que ele tenha passado pos testes em animais, e sim que se comprove a sua segurança. A Natura, por exemplo, investiu em uma equipe de cientistas para incorporar novas tecnologias e desde 2006 engrossa o coro das indústrias nacionais que cessaram esses testes em vivos. Detalhe: a reformulação foi em grande parte resultado da pressão que a marca vinha sofrendo de seus consumidores. “Descobrimos que podemos avaliar a atividade anti-inflamatória de um extrato vegetal em culturas de células, determinando a concentração de mediadores inflamatórios”, conta Elizabete Vicentini, diretora de segurança do consumidor da empresa. Esse investimento, assim como a importação de testes de segurança já validados em outros países, representa, no entanto, um custo inviável para muitas fábricas de pequeno e médio porte. É nessa corda bamba que se encontra o assunto no país. Nada complicado demais quando se usa o bom senso. Se não há testes alternativos validados para alguns tipos de ingredientes potencialmente tóxicos para a saúde do consumidor, o que é melhor fazer: testá-los em ratos e hamsters para se obter mais um batom no mercado ou simplesmente abrir mão deles? Para a modelo Fernanda Tavares, que atua na campanha do HSI, não existe justificativa ética para sujeitar os animais a sofrimento com a finalidade de fabricar mais do mesmo. “Temos que livrar o nosso país desses testes antiéticos, arcaicos e desnecessários. Saber que coelhos e outros bichos estão sofrendo uma dor insuportável quando insumos químicos escorrem em seus olhos ou que são forçados a engolir substâncias até chegarem a morte não combina com beleza. É hora de o Brasil se juntar aos países que aboliram essa crueldade para sempre.” Carlos Rosolen, um dos fundadores do Projeto Esperança Animal (PEA), importante nome nesse embate, diz que se a sociedade caminha para um consumo mais consciente, esse tema não pode ser deixado de fora. “Verificamos se a embalagem agride o meio ambiente e optamos por produtos naturais. Por que não buscar saber também se esse item foi testado em bichos?”, questiona. Tendo em vista que a Inglaterra determinou o fim dos testes em animais na produção de cosméticos há cinco anos, mais de um século depois de Frances Cobb ter conseguido a criação da lei, conclui-se que, ao contrário do que ela via, o copo àquela época estava mais cheio.

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O que você pode fazer?

Se na embalagem não houver nenhuma referência que diga se o produto cosmético foi ou não testado em animais, ligue no sAC da empresa e pergunte. “isso faz com que o fabricante comece a pensar na importância de defnir essa informação no rótulo e o pressiona a não testar, mostrando que o consumidor está atento a esse fato”, explica Carlos Rosolen, um dos fundadores do Projeto esperança Animal (PeA). no site do PeA, e no da organização People for the ethical Treatment of Animals (PeTA), http://www.peta.org, há uma lista com o nome dos fabricantes que pararam de usar os animais em avaliações científcas.

 

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