Lagos transformam jardins em refúgios naturais
Executados por meio de paisagismo, espelhos d’água e piscinas naturais formam pequenos ecossistemas e criam possibilidades de contemplação e convivência
O desejo por uma vida mais próxima da natureza vem transformando os projetos residenciais e corporativos, abrindo caminho para novas formas de viver as áreas externas. Esse movimento contribuiu para que os lagos naturais ganhassem destaque no paisagismo, chegando, em alguns casos, a substituir a piscina tradicional.
Porém, para que o resultado seja harmonioso, o lago deve fazer parte do conceito paisagístico desde as etapas iniciais do projeto, em vez de ser incorporado depois como um elemento isolado.
“A inclusão de um lago faz sentido quando contribui para a experiência que se pretende criar no jardim, seja como espaço de contemplação, recurso para ampliar a biodiversidade ou elemento que valoriza a paisagem. Sua implantação precisa dialogar com a arquitetura, a vegetação e a maneira como os moradores vivenciam os espaços”, comenta o paisagista Alexandre Galhego.
Em sintonia com o entorno
Antes de decidir pela criação de um lago, vale pensar em como a família pretende aproveitar a área externa. Os especialistas revelam que é necessário considerar a rotina de adultos e crianças, os momentos de lazer, a relação que desejam ter com a natureza e as expectativas para o novo espaço. A partir dessas respostas, fica mais fácil entender se o lago é realmente a melhor escolha e qual solução combina mais com o projeto.
“No lago natural, a água é mantida limpa por meio da filtragem biológica realizada por plantas aquáticas, peixes e micro-organismos, aliada à circulação contínua promovida por bombas discretas e à oxigenação natural, sem o uso de cloro ou outros produtos químicos. Esse equilíbrio cria um ambiente vivo e, em muitos casos, permite até nadar entre os peixes, proporcionando uma experiência única”, afirmam Arthur e Cleber Depieri, do escritório Depieri Paisagismo.
Conhecendo o terreno
Além de entender os desejos da família, também é essencial realizar uma análise cuidadosa do terreno. Nessa etapa, são avaliados aspectos como topografia, drenagem, incidência solar, características do solo, infraestrutura disponível e espaço para a instalação de bombas e filtros.
É preciso levar em conta a proximidade de construções e tubulações, assim como os tipos de árvores nas margens. Com essas informações, fica mais fácil definir o melhor local para o lago e integrá-lo à casa atual ou futura e aos demais elementos do jardim.
Em alguns casos, a implantação pode se tornar inviável, especialmente quando o terreno é muito pequeno ou instável, apresenta problemas de drenagem ou não oferece espaço suficiente para a estrutura, os equipamentos e a manutenção geral.
Além disso, todos os profissionais envolvidos com o projeto devem trabalhar em conjunto desde o início. “O trabalho coordenado entre o paisagista e a empresa executora do lago, por exemplo, permite compatibilizar questões estruturais, hidráulicas, elétricas, biológicas e paisagísticas, reduzindo retrabalhos e garantindo um resultado satisfatório”, afirma Alexandre.
Seleção das plantas
Além de contribuir para a estética, a escolha das plantas deve considerar as funções que cada grupo desempenha no ecossistema. Algumas espécies contribuem para o equilíbrio biológico da água, enquanto outras ajudam a criar a transição entre os ambientes aquático e terrestre ou dão estrutura à composição do jardim.
Entre as espécies recomendadas para a área do lago, segundo os profissionais do Depieri Paisagismo, estão nenúfares ou lírios-d’água (Nymphaea spp.), papiros (Cyperus papyrus), sombrinhas-chinesas (Cyperus alternifolius), aguapés ou jacintos-d’água (Eichhornia crassipes), alfaces-d’água (Pistia stratiotes), lírios-do-brejo (Hedychium coronarium) e taboas (Typha dominguensis). “São excelentes opções, pois filtram naturalmente a água e criam um visual exuberante”, afirmam.
Já no entorno do lago, o ideal é evitar o plantio de árvores com queda intensa de folhas, flores ou frutos — ou mantê-las a uma distância adequada. Entre elas estão o flamboyant (Delonix regia), a sibipiruna (Cenostigma pluviosum var. peltophoroides), a mangueira (Mangifera indica L.), o jamelão (Syzygium cumini) e a paineira-rosa (Ceiba speciosa).
Nas áreas próximas, são bem-vindas espécies tropicais, como filodendros (Philodendron spp.), alocásias (Alocasia spp.), helicônias (Heliconia spp.), papiros (Cyperus papyrus) e bromélias (família Bromeliaceae). “Também é recomendável priorizar espécies nativas de cada região, que tendem a se adaptar melhor às condições climáticas locais”, aconselham Cleber e Arthur.
Manutenção de um lago
De acordo com os profissionais, a manutenção não deve ser pensada somente no final do processo, mas considerada desde a concepção do projeto. “Um lago bem dimensionado, com soluções técnicas adequadas e integrado ao paisagismo, tende a apresentar maior estabilidade”, diz Alexandre.
Para isso, no entanto, é fundamental utilizar equipamentos de qualidade e corretamente dimensionados (como bombas e filtros mecânicos), com capacidade e potência adequadas, além de acompanhar o equilíbrio do ecossistema.
“Quando bem planejados e executados, os lagos não costumam exigir grandes intervenções. A manutenção de rotina consiste na troca periódica da areia do fundo, em retirar folhas e resíduos, assim como em limpar os filtros e as pedras com acúmulo de sujeira”, explicam os profissionais da Depieri.
O profissional entende que os lagos, apesar de serem construídos pelo paisagismo e pela arquitetura, devem integrar-se plenamente ao local onde estão instalados. “No paisagismo, o lago é pensado como parte integrante da composição, em harmonia com os volumes de vegetação, os caminhos e os materiais escolhidos para o projeto. A intenção é fazer com que ele pareça nascer naturalmente no terreno, como se sempre tivesse estado ali”, finaliza.





