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A que ponto o design pode ajudar na forma como lidamos com a morte?

Perder alguém próximo nunca é fácil, mas estes projetos, lugares e ideias querem desmistificar a morte e confortar todos os envolvidos

Capsula Mundi.

Capsula Mundi. (Capsula Mundi/Divulgação)

É comum falarmos de design e da morte, mas raramente os dois termos são colocados em uma mesma frase ou contexto. O primeiro toca todas as partes das nossas vidas. Já o segundo é um tema que causa medo, desconforto e que muitos preferem evitar. Mas, em uma época em que repensamos nossos hábitos e tratamos de bem estar, sustentabilidade, qualidade de vida e nossa existência na era digital, por que não repensar também nossa relação com a morte?

Parando para analisar, nossos rituais funerários são os mesmos há muito tempo. E, de acordo com alguns especialistas e seus estudos, essa condição não é mais suficiente na atualidade. Mas, para falar desse tema, é preciso antes dar um passo atrás e olhar ao nosso redor.

Cimitirul Vesel.

Cimitirul Vesel. (POPOVICI Dan Cristian/Wikimedia Commons)

A morte muitas vezes está relacionada a uma doença. Para Ana Claudia Quintana Arantes, médica de cuidado paliativo e autora do livro A Morte é um Dia Que Vale a Pena Viver, a doença é “uma abstração da realidade. Ela está nos livros, ela está no microscópio, nas definições, nas publicações. Mas, quando a doença encontra um ser humano, ela produz uma melodia única, que se chama sofrimento. As doenças se repetem nas pessoas, mas o sofrimento não. O sofrimento é único – cada um tem o seu”.

Os livros de cuidado paliativo, como diz em seu TEDx Talks, explicam quatro sofrimentos: físico, emocional, social e espiritual. Para Ana Claudia, há uma quinta dimensão: a familiar. “A gente nunca fica doente sozinho – a gente fica doente com a nossa família. A gente faz parte da nossa família, depois a gente se torna um doente da nossa família e, depois que a gente morre, é um buraco que fica nessa situação. E isso precisa ser cuidado”. 

É justamente desse “buraco” que os projetos abaixo tratam. Por meio do design (e da arquitetura), eles buscam confortar e trazer mais normalidade a todos – doentes, idosos, familiares e amigos.

Museu Judaico de Berlim.

Museu Judaico de Berlim. (© Jorge Royan/Wikimedia Commons)

Desconstruindo e descontraindo a morte

A Common Practice (antiga The Action Mill) é um ótimo exemplo. Além de ajudar as pessoas a se prepararem para suas próprias mortes e para o falecimento de familiares, a agência de design criou o Hello, um jogo de cartas que fala sobre a vida e a morte, e o blog Death and Design, que traz textos e produtos para discutir a morte sob diferentes perspectivas.

Alguns projetos similares são o Modern Loss, site dividido por tipos de “perda” e temas mais populares, e o Death Cafe, um grupo de discussão online e físico que fala sobre a morte – desde setembro de 2011 foram organizados 8.846 encontros em 65 países.

Tikker Watch.

Tikker Watch. (Tikker Watch/Divulgação)

A tecnologia em relação à morte

No lado tecnológico, um recurso como o inventado por Tony Stark em Vingadores: Ultimato seria um sonho para muitas pessoas. No filme, o Homem de Ferro deixa um holograma gravado para sua família. Quem não gostaria de poder ouvir a voz, e ver um ente querido ou amigo quantas vezes quiser?

Na vida real, já existem iniciativas como o aplicativo Incubate, que envia mensagens em uma data no futuro, permitindo que as pessoas se façam presentes mesmo depois de mortas; e o app Flutter, que usa a terapia musical para ajudar adolescentes em luto. Também há ideias como o Tikker Watch, relógio que usa uma fórmula para fazer uma contagem regressiva aproximada do seu tempo na Terra.

Leaves.

Leaves. (Leaves/Divulgação)

Desmistificando

Para a designer de serviço finlandesa Marja Kuronen, o primeiro passo para melhorar nossa relação com a morte é desmistificá-la, trazê-la para o dia a dia, e aplicar o design thinking para buscar soluções viáveis e acessíveis.

“A morte é abordada na cultura pop e na arte, mas quando um membro da família morre, as pessoas se deparam com questões que elas realmente não entendem. Isso ocorre porque a morte foi varrida de nossas vidas para hospitais e necrotérios. Isso pode soar macabro, mas eu gostaria que a morte e os enterros pudessem ganhar mais espaço na vida cotidiana das pessoas”, contou em entrevista ao Helsinki Design Week.

Tactile Perception.

Tactile Perception. (Tactile Perception/Divulgação)

A designer descobriu que, na Finlândia, adultos entre 30 e 40 anos buscam uma mudança nos rituais tradicionais – eles querem tirar proveito da era digital, da inteligência artificial e dos materiais inteligentes para planejar eventos com antecedência, participar de funerais de forma remota, e ter acesso a soluções individuais.

“A compostagem do corpo já é possível em algumas partes do mundo, e no Japão, algumas pessoas atuam como planejadores de casamentos para organizar funerais. Em alguns lugares, a inteligência artificial foi usada para reunir memórias e aliviar as diferentes fases do luto”, disse.

Capsula Mundi.

Capsula Mundi. (Capsula Mundi/Divulgação)

Design para a morte

Nessa linha de pensamento, a revista de design digital designboom organizou, em 2013, a competição internacional Design for Death (Design para a Morte, em português). Muitos dos projetos por ele reconhecidos têm a ver com a tradição do enterro – e essa é uma das vertentes mais populares do design relacionado à morte.

Uma das alternativas ao enterro tradicional é a Eternal Reefs, que transforma as cinzas da cremação em um recife para repor a população dos corais na Flórida, nos Estados Unidos. Urnas biodegradáveis, como a Capsula Mundi e a Bios Urn, são sustentáveis e deixam um memorial mais físico: as cinzas são enterradas com uma semente de árvore, que pode ser plantada no jardim da família.

Memento.

Memento. (Memento – After Time Elapsed/Divulgação)

Outros tipos de urna buscam trazer conforto aos familiares e amigos por meio de objetos menores, que podem ser tocados e transportados com facilidade. É o caso da Tactile Perception, uma pequena urna feita com nogueira, e do Memento, objeto criado a partir de uma mistura entre as cinzas e resina. Ambos os projetos são biodegradáveis e podem ser enterrados.

Um enterro mais humano é o que propõe o Leaves, um “caixão” sustentável que usa fungos para biodegradar o corpo para que ele, por sua vez, fertilize o solo. Para as pessoas que preferem manter a lembrança mais próxima, há empresas como a And Vinyly, a Lonité, e a Ashes into Glass, que transformam cinzas em vinil, diamantes e joias, respectivamente.

“Analisar os pontos fortes e fracos dos atuais sistemas e rituais com a mente aberta e aplicar a graça, a previsão, o rigor, a sensibilidade e a imaginação para vislumbrar melhores resultados poderiam nos ajudar a morrer de forma mais humana”, Alice Rawsthorn, crítica de design, explicou ao Design Council.

Waverley Cemetery.

Waverley Cemetery. (Sardaka (talk)/Wikimedia Commons)

Morte por metro quadrado

Isso também tem a ver com os espaços físicos. A Bloomberg, por exemplo, listou os 12 cemitérios mais lindos do mundo, com lugares como o Cimitirul Vesel, na Romênia, com lápides coloridas; e o Waverley Cemetery, em Sydney, que fica de frente para o mar. 

Alguns memoriais também se destacam no quesito delicadeza. Um deles é o Memorial do 11/9, em Nova York. Ali, as antigas Torres Gêmeas foram substituídas por cascatas infinitas que, nas bordas, contêm os nomes dos que morreram ali. À noite, elas são iluminadas e “reconstroem” os prédios que foram destruídos.

Memorial aos Judeus Mortos da Europa.

Memorial aos Judeus Mortos da Europa. (Georg Botz/Wikimedia Commons)

Em Berlim, o Memorial aos Judeus Mortos da Europa usou uma abordagem mais minimalista e clean. Fileiras de blocos cinza de mesmo tamanho (na proporção de um caixão) se repetem e, parecendo intermináveis, criam uma impressão de contínuo.

As Catacumbas de Paris, um dos passeios mais diferentes da cidade francesa, foram criadas para resolver a superpopulação dos cemitérios, que apresentavam um risco para a saúde. Hoje, organizados de forma quase artística, os ossos não permitem discriminação, mas prestam homenagem a esse período da história francesa e aos mais de dois milhões de parisienses enterrados ali.

As Catacumbas de Paris.

As Catacumbas de Paris. (Mariana Bruno/Reprodução)

Lugares e projetos como estes provam que é possível tratar da morte de um forma sutil e, ao mesmo tempo, manter viva a lembrança e a consciência do passado.

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