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O grande amigo do mestre

O principal parceiro do arquiteto Oscar Niemeyer é o engenheiro calculista José Carlos Sussekind. Ele falou com exclusividade com a repórter Araci Queiroz.

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Em 2007, a revista Arquitetura & Construção comemora 20 anos com o projeto especial Cidade na Prancheta: uma série de reportagens sobre arquitetos brasileiros de projeção internacional com foco nas obras de impacto urbano. A primeira reportagem, publicada na edição de julho, traça um panorama do trabalho de Oscar Niemeyer. Para aprofundar o assunto convidamos o engenheiro calculista José Carlos Sussekind, parceiro principal do arquiteto, para uma entrevista exclusiva. Sussekind destaca o poder emblemático e a apropriação popular das obras públicas de Niemeyer. Mas ressalta: “o êxito da proposta caberá, única e exclusivamente, aos futuros gestores do espaço urbano.” Confira a seguir seu depoimento na íntegra.

Desde as primeiras obras da década de 1940, como a Pampulha, até projetos recentes, como o centro cultural em obras no Principado das Astúrias, na Espanha, Oscar Niemeyer trabalha com intervenções urbanas de grande impacto. Representantes do poder público em todo o mundo investem na sua arquitetura para cria novas centralidades, revitalizar o entorno e atrair atenção internacional para a cidade em questão. O que faz das obras de Niemeyer tão influentes no meio urbano?

Sussekind – O que seria da Pampulha e de Belo Horizonte sem o conjunto de Oscar? Como seria São Paulo sem as obras do Ibirapuera? E Brasília sem a Praça dos Três Poderes? Os projetos do Oscar trazem muito mais do que impacto urbano. Eles se transformam, com o tempo, em peças indispensáveis à identidade nacional. Quando você pensa na representação dos três poderes, harmônicos e independentes propostos por Montesquieu, visualiza imediatamente as formas do Palácio do Planalto, do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal, criadas por Oscar. Quando alguém fecha os olhos e lembra da imagem física de Brasília, o que lhe ocorre? Certamente, alguma outra forma desenhada pelo mestre. Lucio Costa já dizia: “A paisagem de Brasília é a arquitetura do Oscar”.Repito ainda as palavras de Darcy Ribeiro: o poder dos projetos do Oscar está na sua extraordinária beleza. Certa vez, ao final de uma conversa sobre filosofia no escritório do arquiteto, numa noite de terça-feira, quando se discutia filosoficamente o que era beleza, o próprio Oscar afirmou: “Uma obra de arte existe quando, e somente quando, ela simultaneamente traz surpresa e emoção”. Além de beleza, as obras de Oscar trazem surpresa por serem sempre diferentes de qualquer outra. E complemento a resposta com outro viés, que talvez explique a popularidade de seus projetos: oferecem fácil leitura e compreensão, inclusive quanto a seu funcionamento e audácia estrutural. As obras de Oscar são belas, surpreendentes e audaciosas no atacado. Para se fazerem notar não precisam recorrer a recursos de varejo como revestimentos caríssimos. Até titânio já se andou usando por aí.

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Porque Niemeyer não tem a mesma demanda na esfera privada? 

Sussekind – Embora sempre atento ao programa proposto e ao custo da obra, item chave em nossas conversas iniciais, para se certificar da viabilidade econômica dentro dos recursos existentes, Oscar não se sensibiliza com as pressões pelo desejo de lucro a partir de seus projetos. Por isso mesmo, o percentual de projetos privados é bastante inferior àquele dos projetos públicos. Certamente, Oscar não é o nome procurado por quem desejar maximizar o uso de terreno e minimizar o custo de construção no sentido de auferir lucro. Prédios residenciais ou comerciais comuns, que trazem esse perfil, certamente não se enquadram no foco da criação de nosso mestre.

 

De que forma os projetos de Niemeyer favorecem o uso público dos espaços?

Sussekind – É um maravilhoso ovo de Colombo projetar teatros que podem funcionar fechados, para o publico interno usual, ou abertos para fora, servindo a multidões. Assim foi feito em Duque de Caxias, no novo Teatro Popular de Niterói, no novo Anfiteatro do Ibirapuera em São Paulo. Com o projeto de Oscar, as cidades levaram “dois em um”: o teatro tradicional fechado, com todos os seus confortos e, adicionalmente, a possibilidade de usá-lo em apresentações para o grande publico nos espaços externos adjacentes. Se o governo não realizar espetáculos para o grande público, poderá parecer que o projeto arquitetônico falhou. Mas o êxito ou o fracasso da proposta caberá, única e exclusivamente, aos futuros gestores do espaço urbano em questão.Em muitos de seus projetos, Oscar inclui grandes praças abertas. Antes de tudo por uma questão estética, já que os espaços vazios, conforme sempre lembra Oscar, fazem parte da arquitetura. A beleza vem do correto equilíbrio entre volumes cheios e vazios. Por outro lado, é evidente o apreço do mestre pelas grandes praças nuas, tipo italianas. Aí estão São Marcos, Florença e tantas outras que nos encantam há séculos. Já imaginou como seriam muito menos expressivas se fossem cheias de coretos, banquinhos e chafarizes? Com as possibilidades trazidas pelo avanço tecnológico do concreto, Oscar pode evoluir dos pilotis repletos de colunas para pilotis quase sem colunas, pilotis que praticamente se constituem em grandes praças cobertas. No entanto, vale lembrar mais uma vez que o arquiteto materializa a construção para atender a um determinado programa que lhe é encomendado. O uso posterior, fica inteiramente fora de seu controle. Mesmo que o nome do arquiteto seja Oscar Niemeyer.

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