Mooca: tempo de mudança

Espigões transformam rapidamente a paisagem, antes dominada por galpões fabris e pequenos sobrados. Apesar da verticalização, o bairro mantém o calor humano e a forte tradição italiana

Por Da redação Atualizado em 14 dez 2016, 12h12 - Publicado em 17 nov 2006, 12h14

Uma das últimas regiões próximas ao centro a erguer prédios – a maioria surgiu no final dos anos 1980 -, a Mooca vive uma explosão imobiliária. “Facilidade de acesso, infra-estrutura e oferta de terrenos com preços acessíveis estimulam o crescimento”, atesta João D’Avila, diretor da Amaral D’Avila Engenharia de Avaliação. Uma área de grande interesse é o Parque da Mooca, valorizado pela presença do clube Juventus e onde ainda predominam casas confortáveis. Junto à linha do trem, nos arredores da Mooca histórica, surgem os novos empreendimentos. Eles substituem galpões abandonados, ocupam grandes terrenos e apostam na arborização. Espera-se que a vinda de mais moradores para essa área contribua para a requalifuicação da orla ferroviária, ladeada pelas avenidas Henry Ford e Presidente Wilson. Na avenida Paes de Barros, concentram-se bancos e escolas do pré ao superior, como as universidades Anhembi-Morumbi, São Judas Tadeu e Unicapital. Há pouco tempo, uma pista de bicicross foi construída na confluência entre Mooca, Água Rasa, Tatuapé e Belém. Mas os moradores ainda se queixam da falta de opções culturais, de lazer e de comércio diversificado. Ao longo dos 450 anos, a região se transformou num rico caldeirão de histórias. Uma delas conta que os índios, seus primeiros habitantes, batizaram o lugar de Mooca ao avistarem os colonizadores erguendo suas moradias. Em tupi-guarani, mo é fazer, e oca, casa. Os séculos passaram e surgiram as chácaras dos barões do café. A partir de 1870, espanhóis, portugueses e italianos se inscreveram na memória da Mooca. Eles chegaram para trabalhar nas fábricas da região, como o Cotonifício Crespi, na rua Taquari. Reformado, hoje o belo edifício abriga uma unidade do supermercado Extra. Quem caminha pelo bairro observa o legado estrangeiro na arquitetura, na culinária, nos gestos e nos sotaques. Os italianos deixaram referências como o time de futebol e o Clube Atlético Juventus, batizado em homenagem à seleção de Turim. Fundado em 1924, o complexo de lazer ocupa uma área de 85 mil m², com piscinas, quadras e salões e tem cerca de 20 mil sócios.

Positivos

Proximidade do centro

Oferta de serviços

Boa convivência entre os moradores

Negativos

Faltam opções culturais e de lazer

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Escassez de áreas verdes

Trânsito intenso nas avenidas

“Estou surpresa com as facilidades da região”

Sempre que visitava a sogra no Pari, a artesã Célia Zanolli passava pela Mooca. Moradora da Vila Olímpia havia 34 anos, ela não queria sair dali. Mas foi convencida pelo marido, Eduardo, a visitar o estande de um prédio em construção próximo ao Parque da Mooca. Célia se encantou com o apartamento de três quartos e com a rua calma. Em 2001, a família se mudou. “Eduardo levava 20 minutos para chegar ao trabalho na marginal Pinheiros e hoje demora uma hora. Mesmo assim ele está feliz”, ressalta.

“O bairro é acolhedor como uma grande família”A professora aposentada Norma Amoroso diz brincando que vive na região há “apenas” 71 anos. “Até procurei outros lugares para morar, mas nunca tive coragem de mudar”. Tenho amigos de longa data, faço compras a pé e trabalho como voluntária para a igreja São Rafael”, conta. O amor pelo bairro também tocou os filhos, que continuam perto da família. “Aos domingos, faço a macarronada da mamma para quase 20 pessoas”.

Mesmo vivendo um momento de modernização e forte verticalização, os moradores da Mooca não abrem mão de seus hábitos e tradições. “É comum encontrar pessoas que nasceram, cresceram, casaram, tiveram filhos, netos e continuam aqui com a família. O calor humano é uma característica peculiar do distrito e isso não se mede em números”, diz Zina Neves, presidente da associação Amo a Mooca.

Com a expansão imobiliária, muitos jovens ex-moradores estão de volta ao bairro, onde se sentem em casa. Algumas famílias compram vários apartamentos num mesmo prédio, para se manterem unidas. Casinhas antigas e bem conservadas parecem saídas de alguma cidade do interior.

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