Crônica: história de uma mansão gaúcha

Ela tinha quartos interligados, um generoso jardim e até buraco de tiro na fachada

Por Por Liège Copstein* Ilustração Maria Eugenia Atualizado em 14 dez 2016, 11h48 - Publicado em 19 nov 2014, 21h45
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Os tios da minha mãe moravam no interior gaúcho, numa velha mansão do tempo das batalhas federalistas. Num canto da fachada, o buraco de tiro relembrava aquela época agitada. O pé-direito era altíssimo, e o piso de tábuas bem gastas rangia a cada passo. Eu achava bastante estranha a disposição dos espaços: as salas de estar e de jantar ficavam lá no fim do longo corredor, que começava já na entrada, e os quartos, muitos, distribuíam-se nos dois lados, desde a frente. Alguns deles se interligavam, imperdoável assassinato da privacidade aos olhos de hoje (contam que os dormitórios das moças deveriam ser vigiados pelos pais).

A cultura do morar era espartana. Embora descendentes da elite ruralista, meus tios eram frugais em tudo. Novidades e confortos só chegavam a muito custo. Na sala de TV (até o aparelho demorou!), nada de estofados – só pomposas cadeiras e poltronas de madeira com assento de palha trançada, cheias de entalhes rococó. Lindas, mas duuuras! Bom mesmo era o jardim. Na hora da sesta, obrigatória, eu fugia e sentava nos degraus dos fundos. Gostava de quebrar coquinhos secos com um pedaço de tijolo para comer as amêndoas e, às vezes, encontrava lá dentro a larva de uma lagarta.

Aquele pátio imenso e selvagem, apinhado de abelhas e espinhos mas também de laranjas bem doces, foi diminuindo pedaço a pedaço conforme alguns nacos eram vendidos para empreendimentos imobiliários. Na pequena cidade, viver em apartamento passou a ser mais chique, mas os tios nunca trocaram o terreno por um flat de luxo. Pelo contrário: decidiram construir, e minha tia desenhou, ela mesma, a nova morada ao lado da antiga, que alugou para a prefeitura. Porém, manteve um inusitado arranjo ao deixar uma suíte fora do contrato. Ela se tornou um enclave, com acesso apenas pelo jardim dos fundos, comum às duas construções. Nós a chamávamos de O Anexo, refúgio secreto do meu tio e seus livros e relíquias: a moeda de prata achada depois da enchente, a pedra de boleadeiras talhada por índios, uma vértebra de jacaré… Enfim, aquelas não eram casas simplesmente onde se vivia – eram casas com vida própria. Soube que continuam lá. Às vezes, eu me pego pensando se alguém descobriu o buraco de bala na fachada, se esse testemunho da história foi suprimido sob camadas de argamassa… E torço para que não sejam apenas lembranças.

 

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