Trabalho voluntário: quatro histórias emocionantes

Eles não se importam de abdicar algumas horas de descanso e lazer nos dias mais desejados da semana - sábado e domingo - para estar ao lado de pessoas que nem mesmo  conhecem.

Por Texto Keila Bis | Direção de arte Camilla Frisoni Sola | Design Luciana Giammarino | Fotos Renato Navarro Atualizado em 21 dez 2016, 00h41 - Publicado em 5 jul 2012, 18h23
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Histórias curam. Não importa se é feriado, se está chovendo ou fazendo sol ou se tem de trabalhar. Há 14 anos, todos os sábados, das 10 às 11 horas, o publicitário Rogério Sautner, de 41 anos, está presente na ala de doenças infectocontagiosas para crianças e adolescentes do instituto de infectologia Emílio Ribas, em São Paulo. “conto histórias e também os entretenho com desenhos, mágicas e jogos”, explica ele, um dos integrantes da associação Viva e Deixe Viver, que treina e capacita voluntários a se tornarem contadores de histórias em hospitais. “No começo, meu maior desafio foi trabalhar nesse ambiente. Até mesmo o cheiro me incomodava.” Hoje, isso passa longe de ser um problema e, quando indagado sobre o envolvimento emocional com essas crianças, já que muitas delas são portadoras de HIV e morrem, ele explica: “A associação tem psicólogos que nos atendem frequentemente e passamos por workshops para aprender a lidar com essa situação”. Para ele, o que mais o estimula a continuar é verificar a transformação que provoca. “Quando chego, eles estão tristes e desanimados. Quando saio, estão animados e alegres, como num passe de mágica.” A importância dessa ação foi constatada pela psicóloga Cláudia Mussa em uma pesquisa com 24 crianças hospitalizadas antes e depois do trabalho dos contadores de histórias. “Descobri que as queixas de dor diminuíram em 75% dos casos.” Mas não foram somente as queixas das crianças que diminuíram. “Eu também me vi transformado por elas. Parei de reclamar da vida. sou muito mais feliz do que era há 14 anos”, conclui Rogério.

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Resgate da infância. Todos os dias, a analista de comunicação Leila Ferraz, de 29 anos, passa em frente ao Lar Abrigo Saint German, em São Paulo, quando vai ao trabalho. Um dia, resolveu bater na porta e desvendar o que acontecia lá dentro. “Descobri que é um abrigo de crianças retiradas da família pela Justiça devido a maus-tratos. Elas estão ali aguardando adoção”, conta. Apaixonada por esses pequenos e com uma forte inclinação para ser professora, se ofereceu a dar reforço escolar, aulas de inglês e português e musicalização infantil.Convite aceito, trabalha no local aos sábados, das 7 horas ao meio-dia, desde 2005. “Minha mãe sempre me disse: ‘O que temos de bom não pode ser guardado apenas para nós, deve ser dividido’.” O trabalho desenvolveu seu senso de civilidade e a fez questionar quais eram as suas reais necessidades. “Passei a encontrar prazer nos pequenos e cotidianos atos e a dar valor a eles, como uma refeição. Além disso, sinto um prazer inexplicável em ajudar outra pessoa.” No aniversário de 5 anos da sobrinha, no ano passado, as crianças do orfanato foram as convidadas de honra da festa. Mas ela chama a atenção para uma questão importante: “Quando se fala em trabalho voluntário, as pessoas acham isso bonito. Afinal, é bacana dizer que ajuda uma instituição.  O que muita gente esquece é que não se trata de favor, algo que se faz quando está disponível ou quando não tem nada melhor para fazer. Voluntariado é um compromisso tão sério quanto o trabalho que remunera. Não se trata de migalha, mas de um comprometimento valioso”.

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Inclusão socIal. O economista e engenheiro mecânico Jorge Azevedo, de 44 anos, leva uma vida exaustiva. Antes das 7 horas já está no trabalho e não tem hora definida para encerrar o turno. Com frequência, viaja para participar de reuniões e conferências. Ainda treina corrida três vezes por semana e tem um filho de 4 anos, que, como toda criança, exige muitaatenção. Mas, mesmo assim, há dois anos encontra tempo para, aos sábados, comparecer na Sede da Universidade Corporativa, em São Paulo, criada pela empresa onde trabalha,a Ernst & Young Terco (EYT). “Sou um dos voluntários do programa de capacitação de jovens surdos, que oferece aulas de inglês e português. Mas meu trabalho consiste em oferecer coaching a eles, ajudá-los a planejar sua carreira profissional”, conta. O trabalho dura entre três e oito horas e exigiu que aprendesse libras (Língua Brasileira de Sinais). “Assimilar a linguagem utilizada pelos deficientes auditivos, entender sua realidade e problemas, isso para mim é inclusão social”, avalia. Segundo Jorge, as pessoas têm uma visão errada do que é o trabalho voluntário. “Muitos acreditam que somente doamos, mas não é verdade. Aprendemos e recebemos mais do que ensinamos. Ser útil a alguém dá uma satisfação enorme. Hoje me sinto mais completo e esclarecido.” Uma das beneficiadas desse trabalho é a jovem Luana Barros de sousa, de 17 anos, que ficou surda quando tinha 1 ano de vida devido a uma meningite. Participante da Universidade Corporativa há três anos, conseguiu trabalho como auxiliar de gestão de pessoas. “Esses voluntários mudaram de forma positiva o meufuturo pessoal e profissional”, afirma.

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Família voluntária. Eles já limparam e pintaram escolas públicas, já plantaram mudas de frutíferas em praças, já distribuíram agasalho e já fizeram muitas e muitas outras ações em prol de outras pessoas. Adriana e Marcelo Costa, pais de Jessica Caroline, de 16 anos, Marcelo, de 14, e do pequeno Augusto Henrique, de 7, se envolveram com o voluntariado nocomeço da década de 80, quando nenhum dos filhos ainda havia nascido. “Com o nascimento deles, continuamos os trabalhos e passamos a levá-los”, conta Adriana. Jessica diz que faz parte da sua rotina se dedicar ao trabalho voluntário aos sábados e domingos, algo que faz desde os 5 anos. “Meus pais não precisam insistir para eu ir. Vou porque gosto, porque aprendo coisas diferentes, como fazer um cachecol de lã no tear, e porque para mim é importante ajudar as pessoas independentemente de quem sejam elas”, afirma. Integrantes do Mãos Que ajudam – entidade pertencente à igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias –, o trabalho influencia até mesmo na boa comunicação entre a família. “Discutir por besteira, como isso é meu e você não pega, não faz mais parte da nossa vida em família. Acredito que mudamos porque vemos pessoas com perspectivas de vida muito ruins”, explicaMarcelo, o pai. O fato de ser voluntária influenciou adriana até mesmo a enfrentar o tratamento de quimioterapia para se curar de um câncer há dois anos. “Quando você convive com a realidade de pessoas que passam fome, frio e não têm onde morar, passa somente a agradecer pela vida que tem”, diz ela.

Perfil do voluntariado brasileiro

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Idade: 39 anos.

Sexo: 53% são mulheres.

Classe social: 43% da classe C, 40% da A e da B e 17% da D e da E.

Trabalho voluntário: média de 4,6 horas por mês.

 

Fonte: Ibope Inteligência e Rede Brasil Voluntário.

Como ser um voluntário

 

Para se tornar um voluntário, procure o Centro de Voluntariado de sua cidade. Outras informações podem ser obtidas no site http://www.redebrasilvoluntario.org.br. Jovens que desejam fazer intercâmbio cultural como voluntário em outro país devem procurar a AFS Intercultura Brasil: tel. (21) 3724-4411, http://www.afs.org.br.

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