Sonhos em dia: conheça o significado deles

Eles são uma espécie de transcrição do nosso estado de alma. Metáforas de um mundo profundo e salutar. Estimular essa sequência de mensagens que ocorrem involutariamente durante o sono ajuda a decifrar nossas emoções. E é justamente a proposta de um livro recém-chegado ao mercado

Por TEXTO SIMONE CUNHA KIRIGAMI NAOMI UEZU FOTOS GUSTAVO ARRAIS Atualizado em 14 dez 2016, 12h57 - Publicado em 13 nov 2014, 18h44

Quem nunca se pegou sonhando acordado? Imaginando situações, conquistas que ainda não são reais, mas que ocupam espaço no universo do desejo. Os sonhos alimentam o imaginário. Só não vale dar valor apenas aos devaneios que permeiam o pensamento. Também é preciso dedicar atenção aos sonhos que nos transportam durante o sono. Para isso, as autoras Irene Gaeta Arcuri e Marisa Catta-Preta lançaram o livro Sonhos e Arte – Diário de Imagens (Primavera Editorial, R$ 144), em que estimulam a importância de registrar as imagens oníricas, diariamente, ensinando como organizar tais mensagens por meio de tabelas, ilustrações e exercícios. “A atenta observação dos sonhos – decodificando, escrevendo e compartilhando suas imagens – abre um campo inexplorado, permitindo uma análise além do consciente”, explica Irene Gaeta Arcuri, psicóloga clínica e psicoterapeuta junguiana. Ela conta que, na Antiguidade grega, eles eram utilizados para curar doenças, como muito bem fazia Asclépio, um grande médico do século 13 a.C. “Agora, no mundo atual, os sonhos são utilizados pela psicologia com o mesmo objetivo”, associa. A única diferença é que essa sabedoria imagética precisa de algum exercício para ser acessada – estresse, insônia e ansiedade são inimigos de um sono regenerador, que possibilita o contato com o inconsciente com mais naturalidade. Por isso, há quem diga que não sonha com nada; não recorda o que sonhou; ou julgue o sonho sem nenhum sentido. E tais mensagens vão perdendo importância, sendo deixadas de lado como se não tivessem nada a acrescentar. “Mesmo assim, o inconsciente insiste em oferecer oportunidades de consciência, enviando informações e procurando um símbolo mais acessível ao sonhador”, garante Irene.

De acordo com Marisa Catta-Preta, psicoterapeuta junguiana há 22 anos, no consultório, a sequência de imagens pode ser utilizada como um meio de acesso ao inconsciente. “É um instrumento de trabalho, um raio X da alma por meio do qual é possível observar questionamentos que têm de ser elaborados para resolver processos cotidianos”, diz. Irene completa: “As representações que os sonhos nos trazem referem-se aos conteúdos que evitamos, não compreendemos ou ignoramos”. De acordo com a psicologia analítica de Carl Gustav Jung (1875-1961), essas manifestações são produzidas pelo self, o centro da nossa psique. “E têm uma linguagem simbólica elaborada diariamente. Funcionam como se o nosso inconsciente oferecesse uma visão mais abrangente, um balanço, um ensaio de possibilidades e, a partir disso, podemos olhar uma questão e manter um foco”, comenta Marisa. Podem conter lembranças que nos levam ao cerne da questão, inclusive. “Nossos comportamentos podem ser a ponta de um iceberg e nossos sonhos nos levam às águas profundas, onde o problema começou”, revela. Para exemplificar, a autora conta o relato de uma paciente que sonhou que estava numa cadeia realizando uma pesquisa e, de repente, começava uma rebelião. Ela arriscava-se a fugir, mas não conseguia e, pela janela, olhava sua mãe e seu filho do outro lado da rua. Quando procurou sair, um ladrão tentou segurá-la. Ela o empurrou, e ele caiu em um buraco. A paciente despertou assustada. “Com base na análise de uma série de sonhos, foi possível perceber que essa paciente estava aprisionada a alguma situação, a rebelião representava conteúdos que ela fingia não ter visto e, por fim, chegou-se à associação de que o sonho tinha a ver com a o abandono de seu pai, quando ela tinha 6 anos”, explica Marisa.

Momento lúdico

Na teoria, é fácil compreender a importância dos sonhos e querer usá-los para resolver questões pendentes. Na prática, isso exige um exercício contínuo. O mérito da obra lançada por Irene e Marisa é justamente esse: incentivar o sonhador a criar uma disciplina de lembrar do que aconteceu na noite passada, auxiliá-lo a dar valor ao mundo onírico e se dispor a compreendê-lo. As imagens – feitas pelo desenhista, gravurista e escultor Antônio Peticov – complementam o trabalho ajudando a traduzir o sentimento provocado por um determinado sonho. Outro facilitador é uma tabela em que o leitor deve registrar uma série de 30 sonhos (veja boxe no início desta reportagem). Quanto aos exercícios propostos, eles permitem uma ampliação ainda maior da nossa percepção. A ideia é fazer deles um momento lúdico para que num próximo passo haja interesse em trabalhar tais símbolos. A tarefa permite refletir sobre os símbolos mais presentes e que podem representar algo relevante a ser compreendido, enfrentado e resolvido. Nada além de uma orientação. Mas que encanta e transforma.

Para ampliar a compreensão dos sinais  

A seguir, quatro maneiras de exercitar a familiaridade com as imagens dos sonhos

Escolha um personagem. Por exemplo: o lobo que aparece no sonho. Comece descrevendo esse animal, o que pensa dele, se é solitário, agressivo ou tem dificuldade em conviver com os outros animais. Tudo isso o sonhador está atribuindo ao lobo, mas são conteúdos seus ainda inconscientes. Esse lobo está representando uma parte solitária do sonhador, que não tem amigos e tem dificuldades nas relações. Objetivo Identificar o que o personagem no sonho representa na vida do sonhador.

Imagine-se sentado e de olhos fechados dentro de um templo sagrado. Procure sentir o bem-estar que esse lugar transmite. Abra os olhos na imaginação e veja um sacerdote se aproximando e trazendo um personagem escolhido por você até sua presença. Pergunte a ele por que participou do sonho. Despeça-se dele e procure observar como se sente. Esse personagem é apenas uma parte sua que está inconsciente e que precisa ser integrada. Saia do templo e volte para seu espaço inicial. Objetivo Entrar em contato com o complexo do sonho separadamente para poder perceber e sentir com mais clareza quanto ele atua na vida do sonhador.

Divida seu sonho em pedaços, escreva cada parte e faça associações. Por exemplo: sonhei que estava em minha casa de praia. Associo minha casa de praia a um lugar de descanso e onde sou feliz. Então, faço a substituição e fica assim: estou entrando em contato com um aspecto meu onde descanso e sou feliz. Objetivo Mostrar que por meio das associações pessoais podemos compreender melhor o material simbólico dos sonhos.

Pense que tem o poder de um diretor de cinema e mude o desfecho de um sonho. Crie o final que quiser e compare com o anterior. Você vai perceber que muitas vezes o inconsciente nos propõe situações simbólicas das quais nem sempre gostamos, mas que são importantes para nosso processo de individuação. Por exemplo: o sonhador separa-se da mãe numa estação de trem. Isso pode indicar que precisa concretizar essa separação simbólica para que possa amadurecer. Por não compreender isso, o sonhador tentaria colocar a mãe dentro do trem. No entanto, nem tudo que parece ruim no sonho é realmente negativo. Objetivo O inconsciente pode criar soluções diferentes do que estamos acostumados.

Lembrar é questão de hábitos

Aqui, as psicólogas Irene Gaeta Arcuri e Marisa Catta-Preta estimulam o leitor a fragmentar o sonho. Dessa forma, fica mais fácil para os iniciantes encontrar possíveis significados. E alguns itens devem ser observados.

Sonho: Inicie a atividade colocando-os em ordem numérica. Por exemplo: sonho 1, sonho 2 e assim por diante.

Tema: Como percebeu o tema. Parecia uma história sobre um amigo, trabalho, medo etc.

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Cenário: Onde os fatos ocorrem.

Personagens: Quem são as pessoas desse sonho. Podem ser animais que falam e objetos que se comunicam.

Protagonista: Quem faz o papel principal.

Objetos: Quais foram os mais marcantes. Pode ser uma cadeira, um elevador.

Cores: Há uma cor predominante ou alguma que tenha chamado mais a atenção?

Animais: Descreva que tipo de animal surge no sonho.

Ação do sonhador: como ele age: briga, corre, descansa, observa.

Números: quais aparecem de forma direta ou indireta. Exemplo: três casas, quatro amigos.

Emoção: qual predomina no sonho: medo, raiva, paixão.

Meio de transporte: o tipo de veículo que aparece, sua posição e velocidade.

Emoção ao despertar: Qual sentimento permaneceu pós-sonho.

Tipo de sonho: Pequeno, grande, pesadelo, premonitório.

Imagem extrarrealidade: Podem ser seres transpessoais, como símbolos religiosos, ou objetos que não são encontrados no cotidiano.

Final: Descreva como terminou o sonho.  

 

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