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Selos verdes: eles estão por toda parte

De chocolate a carro, de produto de limpeza a construção civil, de papel a cosmético. Assim, fica mais fácil fazer escolhas conscientes.

Um olhar atento e não demora para encontrar algum selo verde na grande floresta nacional do consumo. A gama de produtos que estampa seus dotes ecologicamente corretos não para de crescer. Na última pesquisa do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), em 2008, atuavam no Brasil cerca de 30 certificadoras, nos mais diferentes nichos. E, segundo a Iseal Alliance, referência internacional para padrões de sustentabilidade, as vendas de orgânicos certificados aumentam uma média de 10% ao ano por aqui. O mesmo acontece no caso do papel. Nas gôndolas do mercado Super Natural, recém-inaugurado no bairro dos Jardins, em São Paulo, chamam a atenção ainda cosméticos veganos, limpa vidros com a inscrição “não testado em animais”, repelente natural, sabão de coco líquido com “ativo 100% vegetal” e até fraldas biodegradáveis, importadas da Alemanha. Cenário impensável há bem pouco tempo.

Agora, pense na construção civil. Esse filão é, notadamente, um dos maiores agressores do meio ambiente – visualize as toneladas de entulho geradas pelos canteiros de obras e tire suas conclusões. Mas a adoção de técnicas que levam à redução do desperdício de materiais, ao maior aproveitamento da luz natural, ao reúso da água pluvial, à opção por tintas com baixo composto orgânico volátil e por sistemas de ar condicionado que consomem menos energia, entre outras, é capaz de enxugar o impacto (a um custo médio de 1% a 7% maior em relação a uma construção tradicional). Por isso, o setor também merece uma chancela. No caso, o U.S. Green Building Council ou selo LEED – Liderança em Energia e Design Ambiental. Eficiência energética, manejo florestal responsável, produção orgânica, estímulo à biodiversidade são alguns aspectos levados em conta nessas certificações. Condições de trabalho adequadas também. Juntos, esses fatores compõem o rol para um desenvolvimento que, a longo prazo, não esgota os já ameaçados recursos naturais do planeta, além de trazer benefícios à saúde e à qualidade de vida da população.

Trocando em miúdos, os selos escancaram três indicadores básicos de que o produto arrematado não é vilão, e sim mocinho nesses tempos verdes: o fato de ser ambientalmente adequado, socialmente benéfico e economicamente viável. “Eles facilitam a assimilação de informações pelo consumidor e influenciam a compra”, afirma Dalberto Adulis, gerente de conteúdo e metodologias do Instituto Akatu. Podem parecer enxutos, meros carimbos, mas não são. Esses pequenos símbolos estão, de fato, mudando a forma de as pessoas consumirem. E as empresas já entenderam isso.

Tanto é verdade que um levantamento recente feito pelo FSC – Forest Stewardship Council (Conselho de Manejo Florestal), líder mundial em certificação florestal, presente em 79 países, contabilizou: 56% das empresas aderem à certificação justamente para agregar um algo a mais ao seu produto. “A escolha do consumidor faz a diferença”, ressalta a engenheira florestal Fernanda Rodrigues, coordenadora técnica do FSC Brasil. Sim, nós temos a força.

Até o âmbito governamental, responsável por aquisições milionárias, está empregando essa bússola. O custo, em geral, ponto decisivo numa compra pública, deixou de ser o único critério considerado pelo Estado. O retorno socioambiental que um produto traz começou a pesar também. Excelente notícia diretamente das nossas autoridades.

Bom exemplo vem da Secretaria Estadual do Meio Ambiente de São Paulo, que prioriza a compra de produtos e serviços certificados por meio do Programa Estadual de Contratações Públicas Sustentáveis. Segundo Denize Cavalcanti, diretora do Centro de Políticas Públicas da pasta, desde 2005 é feita a “rotulagem ambiental” do catálogo de materiais de todo o governo estadual. A secretaria já atribuiu “selo verde próprio” a cerca de mil itens – desde equipamentos de alta eficiência energética, como refrigeradores domésticos, a sofás de madeira de pinus de reflorestamento e veículos com motor flex, que permite o abastecimento com combustível de fonte renovável, o etanol.

Jogo de aparências

Mas atenção: o verniz do ambientalmente correto tem encoberto muitos discursos ocos por aí. Hoje, existem cerca de 400 selos com apelo sustentável no mundo, de acordo com o engenheiro-agrônomo Luis Fernando Guedes Pinto, gerente de certificação do Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora). Porém, nem todos são idôneos.

Uma atraente embalagem pode vir repleta de mensagens verdes sem lastro. É a chamada greenwashing, ou maquiagem verde. Artifício empregado na tentativa de seduzir mais consumidores uma vez que as “figurinhas” ambientais são as que mais atraem a atenção deles, segundo pesquisa de opinião realizada pelo Idec, em parceria com o Instituto Market Analysis, em 2013. Fácil de entender. As certificações têm o poder de penetrar as mentes e lá depositar a mensagem: “Você está fazendo a coisa certa”.

Entretanto, segundo o gestor ambiental João Paulo Amaral, pesquisador na área de consumo sustentável do Idec, na prática, nem toda validação está ligada a um órgão de fiscalização independente, naturalmente mais confiável, uma vez que as empresas se submetem de forma voluntária ao processo, realizado por certificadoras públicas e privadas, como Imaflora (FSC, Rainforest Alliance), Flo-Cert (Fairtrade) e Inmetro (Cerflor).

Mas como não há regulamentação específica, e a informação impressa na embalagem é de responsabilidade integral do fabricante, circulam também os selos autodeclaratórios, em que a própria indústria se qualifica como ecologicamente correta – exceto no caso de alimentos orgânicos, em que o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) tem que dar seu aval por meio do selo do Sistema Brasileiro de Avaliação da Conformidade Orgânica (SisOrg). “Ele foi instituído em 2009 justamente para facilitar o reconhecimento, pelos consumidores, dos produtos orgânicos colocados no mercado”, informa Caio Rocha, secretário de Desenvolvimento Agropecuário e Cooperativismo do ministério.

O SisOrg ainda esclarece a forma como o produto obteve o certificado: por meio de auditoria ou por sistema participativo de garantia – modelo em que o Brasil é pioneiro. No primeiro caso, o produtor contrata uma certificadora credenciada pelo Mapa. No segundo, um grupo de agricultores, técnicos e consumidores voluntários avaliam uns aos outros, sem custo. “Se o consumidor quer apoiar a agricultura familiar, ele tem como optar por um produto certificado de forma participativa”, ensina Romeu Mattos Leite, presidente da Câmara Temática de Agricultura Orgânica do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.

Entre tantas opções, mais ou menos confiáveis, é preciso que a “ala” verdadeiramente comprometida com a sustentabilidade se sobressaia. “Selos críveis são o principal motor da inovação e da sustentabilidade, por isso devem comunicar muito claramente o que garantem”, defende Luis Fernando Guedes Pinto, do Imaflora. O tipo de validação não intefere no preço final.

Credibilidade é tudo

Há mais de 30 anos no mercado de alimentos naturais e integrais, a Mãe Terra abraçou a certificação. “O selo é a garantia de que o produto é orgânico e aprovado pelo Ministério da Agricultura. Esse aval inspira confiança nos consumidores”, declara Gabrielle Rosemberg, da área de marketing da empresa.

De fato, qualquer pessoa minimamente envolvida com as questões do planeta gosta de saber que por trás dos “carimbos” existe uma cadeia de produção honesta, processos e gestões capazes de zelar pela fauna e pela flora e ainda respeitar os direitos do trabalhador. Sem falar na segurança sentida, no caso dos alimentos, ao se ingerir itens livres de agrotóxicos e, portanto, ricos em nutrientes.

No entanto, em meio à profusão de bichinhos, sementes, plantas e árvores que ilustram os selos ecológicos, vale lembrar que há aqueles não tão simpáticos assim. É o caso do rótulo com um “T” amarelo, indicando a presença de transgênicos na composição do produto. Assunto polêmico? Bastante. Mas esse a gente deixa para outra conversa.

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