Rubem Alves: Para pensar durante a festa

O Natal não é para ser celebrado com comilança de glutão, desperdício de quilômetros de papel de presente, consumo, consumo, consumo. Isso não evoca em nada o espírito dessa data

Por Rubem Alves Atualizado em 21 dez 2016, 00h02 - Publicado em 4 abr 2013, 16h34
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A caixa de sapatos: Era o dia 25 de dezembro. Na noite da véspera, Papai Noel havia visitado as crianças da vizinhança deixando para cada uma delas um presente. Eram presentes simples. Uma bola. Uma boneca comprada em loja, de celulóide, material antepassado do plástico. Uma boneca de pano que alguém fizera em segredo. Um caminhãozinho de madeira que se comprava na cadeia. Os presos, sem ter o que fazer, transformavam-se em fabricantes de brinquedos. Sim, parecia que Papai Noel visitara todas as crianças da redondeza. E todos os meninos e meninas saíam à rua, exibindo a sua alegria. Menos o Vinícius, menino de 6 anos, meu vizinho. Papai Noel se esquecera dele. Ele estava muito longe, entregue a amores de capital. O Vinícius, então, apareceu puxando o presente que ele mesmo fizera: uma caixa de sapato, amarrada a um barbante.

O Natal me deixa triste. Porque, por mais que o procure, não o encontro. Natal é uma celebração. As celebrações acontecem para trazer do esquecimento uma coisa querida que aconteceu no passado. A celebração deve ser semelhante à coisa celebrada. Não posso celebrar a vida de Gandhi com um churrasco. Ele era vegetariano, amava os animais. Uma celebração de Gandhi teria de ser feita com coisas que o representassem: verduras, água, leite e um falar baixo. Mais a leitura de alguns dos textos que ele deixou escritos. Assim Gandhi se tornaria um dos hóspedes da celebração. Agora, um visitante de outro planeta que nada soubesse das nossas tradições, se ele comparecesse às festas de Natal, sem que nenhuma explicação lhe fosse dada, ele concluiria que o objeto da celebração deveria ser um glutão, amante das carnes, das bebidas, do estômago cheio, da conversas em voz alta, do desperdício. Nossas celebrações de Natal são como as cascas de cigarra agarradas às árvores. Cascas vazias, das quais a vida se foi. Se perguntar às crianças o que é que está sendo celebrado, elas não saberão o que dizer. Dirão que o Natal é dia do Papai Noel, um velho barrigudo de barbas brancas amante do desperdício, que enche os ricos de presentes e deixa os pobres sem nada. Foi isso que ele fez com o Vinícius. Pois é certo que as celebrações do Natal são orgias de ricos, celebrações do desperdício e do lixo. Celebrações do lixo? Aquelas pilhas de papel de presente colorido em que vieram embrulhados os presentes, não são elas essenciais às celebrações? Rasgados, amassados, embolados num canto. Irão para o lixo. Quantas árvores tiveram de ser cortadas para que aqueles papéis fossem feitos. Para quê? Para nada. A indiferença com que tratamos o papel de presentes é uma manifestação da indiferença com que tratamos a nossa Terra.

Estou convidando meus amigos para uma celebração de Natal. Ela deverá imitar a ceia que José e Maria tiveram naquela noite: velas acesas, um pedaço de pão velho, vinho, um pedaço de queijo, algumas frutas secas. À volta de um prato de sopa de fubá – comida de pobre –, tentaremos reconstruir na imaginação aquela cena mansa da estrebaria, um nenezinho deitado numa manjedoura, uma estrela estranha nos céus, os campos iluminados pelos vaga-lumes. E ouviremos as velhas canções de Natal, e leremos poemas, e rezaremos em silêncio. Rezaremos pela nossa Terra, que está sendo destruída pelo mesmo espírito que preside nossas orgias natalinas.

O pai sozinho eu o vi de longe. Era um homem de cabelos brancos. Estava com os braços levantados, como se estivesse sendo assaltado, no aeroporto. Aproximei-me. De fato, era um velho. Devia ter aproximadamente a minha idade. De fato, estava com os braços levantados. Estavam levantados, apoiados no vidro que separa os que partem dos que ficam. Ele era um dos que ficavam. Lágrimas escorriam dos seus olhos. Alguém partira. Seus braços levantados, encosta­­­dos no vidro, diziam da inutilidade das suas lágrimas. Ele chorava por razões emocionais. Mas também por razões místicas que só a poesia diz. Há um momento na vida em que cada separação anuncia a Grande Separação. Olhei para o porteiro que verificava os cartões de embarque. Ele entendeu a pergunta que estava no meu olhar e só disse: “O filho partiu…” Não chorei, mas fiquei com vontade… Os filhos partem. Os pais ficam…

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