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Posso ajudar? Histórias de quem se dedica ao outro

Os quatro personagens que ilustram esta reportagem compreenderam isso: quanto mais felicidade oferecem, mais realizados e plenos se sentem. Porque servir é sagrado

Sabe aquele dia em que está se sentindo muito sozinho, triste, remoendo os problemas e, de repente, o telefone toca e é um amigo? Ele ouve o seu desabafo atenciosamente e oferece apoio. No momento seguinte, é você quem está dando ouvidos aos questionamentos dele e, nessa troca de atenção e afeto, aquela angústia inicial diminui ou até mesmo desaparece. Agora, lembre do dia em que sua ligação ajudou a aliviar a dor de quem estava do outro lado da linha. Ao desligar o telefone, sentiu paz? Amor? Alegria?

A terapeuta de casal e família Renata Machado diz que esses são alguns dos bons sentimentos que desabrocham em nós quando ajudamos ou recebemos ajuda. “Em primeiro lugar, porque deixamos de olhar somente para nós, superestimando ou ficando completamente apegados aos nossos problemas. O descentramento reduz o peso das coisas. Depois, há nesse intercâmbio uma gostosa comunhão de afeto, onde doamos amor e recebemos amor em troca, seja na forma de um sorriso ou de um agradecimento. E, por fim, porque faz bem ao homem sentir-se útil e estar amparado.” Para ela, estudiosa da Teoria do Apego, criada pelo psiquiatra inglês John Bowlby (1907-1990), pesquisador do desenvolvimento infantil, a própria biologia do nosso corpo entende que a vida depende de uma troca de cuidados. “Algo transmitido e ensinado desde o nascimento, quando recebemos de alimento o carinho dos nossos pais. Como uma mãe, sentimos prazer em servir.” Essa teoria ainda postula que, se não fomos suficientemente cuidados na infância, podemos compreender a vida como devedora de algo. Daí muitos assumirem uma postura de quem sempre espera ser servido. Felizmente, essa não é a regra.

Se pararmos para pensar, foi a disposição para ajudar o próximo a responsável pela sobrevivência da nossa espécie, pois somos seres gregários, vivemos em grupo, em união, em conjunto, e, se não fosse dessa forma, não existiríamos.

É natural, portanto, vivenciarmos o bem-estar quando nos relacionamos com o outro. Para o cristianismo, há um fundamento muito maior que rege todas essas explicações. “Somos filhos de um único Pai, o Criador, Deus. Estamos conectados como irmãos, somos parte do todo. Essa é a fraternidade universal que São Francisco de Assis pregava”, explica o frei Djalmo Fuck, da Paróquia São Francisco de Assis, em São Paulo. “Se estamos nos sentindo só, desamparados, é porque, de alguma forma, nos desligamos dessa Unidade”, afirma o frei Djalmo.

Esse sentimento é muito comum dentro dos hospitais. A enfermeira Clodine Pepes, especialista em lesões de pele, percebe isso diariamente nos pacientes. “Normalmente, as feridas têm odor forte, demoram para fechar e isso fere a autoestima. Eles começam a sentir vergonha de si mesmos e se afastam das pessoas”, diz. Quando ela identificou essa solidão, algo nela própria mudou. “Percebi a fragilidade humana numa outra dimensão e, desde então, nunca mais tive sossego enquanto não vi meus pacientes curados não só fisicamente mas emocionalmente também. Eu faço de tudo para eles não sentirem que estão só.” A dona de casa Cleide Brandão foi uma de suas pacientes depois que uma complicação cirúrgica deixou um grande machucado na pele dela. “Clodine me deu tanto carinho, incentivo, vibrava tanto quando cada milímetro imperceptível da pele se fechava, que isso não me deixou cair em uma depressão profunda.”

Servir é estar conectado

A socióloga Maria Aparecida de Moraes e Silva explica que o capitalismo trouxe consigo a ideia do lucro, do acúmulo material e acabou criando um processo de alienação em que o indivíduo se vê como ser separado da natureza, dos demais e também de si mesmo. “Residem aí doenças da alma, do isolamento e outras patologias”, explica ela. “Antes, na Idade Média, as sociedades camponesas eram pautadas pela ajuda mútua, pelas relações estreitas, coesas. Não havia um ser isolado, mas pertencente a uma comunidade, que via o Universo como um todo orgânico.”

Ao sentir que não está integrado com esse todo, o homem passa a confundir individualidade com individualismo. “Esse é um dos males de que padecemos. Na busca de definir quem somos, para assim atuarmos no mundo, por vezes voltamos o olhar excessivamente para nós. Nos tornamos individualistas”, explica Renata. A questão é que nos construímos como pessoa justamente na relação com o outro. “Em parte, é o outro que me diz quem sou e faz isso por meio da leitura das minhas atitudes. De acordo com a reação dele, posso compreender meus atos por outro ângulo.” Se depender da esfuziante dona Ivonete Soares da Fonseca, a relação de troca está salva. Auxiliar de limpeza numa empresa de mídia, ela diz entender que no trabalho não dá para ficar de bate-papo. “Mas podemos falar quando nos encontramos no corredor, no banheiro e no elevador, seja dando um bom dia ou perguntando se está tudo bem ou como foi o fim de semana”, diz ela. “O que falta às pessoas entenderem é que o nosso dia fica mais bonito quando tem um sorriso, um olho no olho ou um aperto de mão. Pode parecer pouco, mas faz toda a diferença”, diz dona Ivonete. A jornalista Nádia Simonelli diz que o grande diferencial da “tia”, como dona Ivonete é carinhosamente conhecida, é o fato de ela não ter esses bons modos somente por educação. “A postura dela é contagiante, desperta a vontade de fazer o mesmo com os colegas. Tem ainda mais valor quando eu paro para pensar que ela gasta quase duas horas de trem para chegar ao trabalho, exerce uma função desgastante para o corpo físico, mas mesmo assim está sempre sorrindo e se preocupa em saber se estamos bem. Ela é aquela sacudida que a vida nos dá, fazendo pensar se nossas irritações e cara feia são realmente necessárias.”

Efeito bumerangue

À medida que interagimos com outras pessoas, aprendemos, ensinamos, modificamos e somos modificados. É o que o psicólogo Djalma de Freitas, que integra o departamento de Psicologia Experimental da Universidade de São Paulo (USP), define como o “Vir-a-Ser” (invertendo as sílabas da palavra “servir” e acrescentando um “a”) no outro. “Nem sempre estamos dispostos a nos relacionar com outras pessoas. O equilíbrio seria nunca deixar de pensar em si mesmo, mas também jamais esquecer que o outro está sempre nos oferecendo possibilidades, prazeres, desafios, enfim, chances de desenvolvimento. O garçom Missias de Oliveira encontrou um ponto de equilíbrio fora dos padrões. “Dar satisfação e alegria ao outro é algo que me encanta, acaba com a minha tristeza nos dias mais difíceis, pois na medida em que dou eu recebo”, afirma ele com tamanha alegria que lábios e olhos sorriem juntos. “Quando eu era pequeno, minha mãe costumava dizer que ‘nosso coração se enche de amor quando fazemos o bem ao outro’ e ela tinha toda razão.” É mantendo esse coração aberto – há 20 anos – aos clientes que frequentam um restaurante na zona central de São Paulo que Missias acabou conquistando simpatia e amizade. O publicitário Marcelo Romão, frequentador semanal do estabelecimento, explica que o garçom teve uma forte influência na expansão da sua própria generosidade. “O Missias é um sábio. Nem dez faculdades e especializações revelariam o que ele me ensina. É um acolhimento, um amor e respeito tocantes.” Marcelo conta um caso emblemático: “Era uma quarta-feira e cheguei sem nenhum amigo para almoçar. Estava meio desanimado porque não gosto de fazer as refeições desacompanhado. Quando entrei no restaurante o Missias veio ao meu encontro e disse: ‘Boa tarde, Marcelo! Hoje você está sozinho?’. Ao responder que sim, ele emendou: ‘Pois agora não está mais’.” No livro A Oração de São Francisco (ed. Sextante), um dos autores, o doutor em filosofia da educação Gabriel Perissé, escreve que São Francisco de Assis tinha essa gentileza no coração e a demonstrava em tudo o que fazia. “A oração que leva o seu nome, de autor desconhecido, na verdade, foi dedicada a ele porque o santo era o amor onde havia ódio, alegria onde havia tristeza, perdão onde havia discórdia”, explica Gabriel.

Os pequenos grandes gestos

As pessoas acham que a única forma de fazer o bem é com trabalho social ou é coisa dos mártires e santos, mas não é. Dê atenção às pessoas, ofereça-se para fazer algo a elas – nem que seja segurar a porta para alguém passar primeiro. “Verá quantas chances tem de praticar aquilo que o santo fez e quanto isso irá fará bem a você”, diz Gabriel.

De uma outra forma, foi essa a conclusão que a ateniense, radicada nos Estados Unidos, Arianna Huffington, criadora do mais importante endereço de jornalismo online do mundo, o Huffington Post, chegou. Em palestra na editora Abril, em São Paulo, ela falou sobre o que é e qual o valor do sucesso. “Independentemente da riqueza e do poder, o mais importante legado que deixamos é uma terceira medida, mais relevante: uma vida de bem-estar com sabedoria, encantamento e doação”, explica ela, que deu o nome de A Terceira Métrica ao seu novo livro (a ser lançado em julho no Brasil pela ed. Sextante).

O gerente predial João Carlos Quadrado fez disso o seu modo de viver e se tornou um “viciado em ajudar”, como diz. No edifício onde trabalha, boa parte do seu dia é tomado resolvendo os conflitos entre os moradores. Alguns pequenos, como vizinhos discutindo porque o gato de um mia e o cachorro do outro late, e outros grandes. “Para todos, uso uma regra: ser paciente, compassivo, fazendo com que um se coloque no lugar do outro e acreditando que o ser humano pode ser sempre feliz.” Foram essas ferramentas que usou quando percebeu um problema grave com um dos residentes, o alcoolismo. “Eu e o síndico oferecemos ajuda e ele aceitou. Levamos pessoas para limpar seu apartamento, compramos comida e alguns vizinhos deram frutas e doces.” Um deles foi Sonia Merched: “Fico feliz em saber que ele está sóbrio há cinco meses”. Seu João descobriu que essa tal felicidade, que todos nós queremos ter, só é possível alcançar quando saímos de nós mesmos e geramos alguma felicidade ao outro.

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