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O amor romântico está em extinção, diz Regina Navarro Lins

A psicanalista e escritora Regina Navarro Lins levanta suas ideias ousadas - para não dizer transgressoras - sobre o amor romântico. Confira

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O pensamento da psicanalista e escritora carioca Regina Navarro Lins não se dobra à patrulha das normas pré-estabelecidas. Para ela, os valores tradicionais de relacionamento não estão dando mais respostas satisfatórias e, com isso, se abre espaço para descobrirmos uma nova forma de viver. “No futuro próximo, cada vez mais pessoas vão preferir se relacionar com várias outras a se fechar numa relação a dois”, diz. Ela afirma, ainda, que o mais importante é cada pessoa viver como quiser, seja numa relação tradicional, seja numa relação aberta.

Entre 2000 e 2009, o site de sua autoria, Cama na Rede, foi tomado por desabafos, conselhos e muita polêmica. Os depoimentos dos internautas, aliados às análises da psicanalista, dão subsídio para seus mais recentes livros, Se eu Fosse Você… Uma Reflexão sobre as Experiências Amorosas e A Cama na Rede – O que os Brasileiros Pensam sobre Amor e Sexo, ambos publicados pela editora BestSeller.

Entenda, a seguir, por que a escritora é considerada por muitos uma mulher à frente de seu tempo.

 

A pesquisa que originou seus mais recentes livros aponta a direção no que diz respeito ao comportamento dos brasileiros nas áreas da afetividade e do sexo?

 

Estamos no meio de um processo de profunda mudança das mentalidades. Os valores tradicionais de relacionamento não estão dando mais respostas satisfatórias e, com isso, se abre um espaço para descobrirmos novas formas de viver. No futuro próximo, cada vez mais pessoas vão preferir se relacionar com várias outras a se fechar numa relação a dois. O mais importante é que hoje cada um pode viver como quiser, seja numa relação monogâmica tradicional, seja numa relação aberta. Não existe mais um modelo preestabelecido que aniquila as singularidades.

Por que as pessoas estão buscando novas formas de se relacionar?

 

O amor romântico, calcado na exigência de exclusividade, começa a sair de cena porque contraria o principal anseio da sociedade atual: a busca pela individualidade, pelo desenvolvimento de nossos potenciais. Nesse contexto, a imagem de fusão – dois seres que se tornam uma unidade — deixa de ser atraente. Uma relação só tem sentido se nos ajuda a crescer e a nos desenvolver. Se estiver fundamentada na ética do sacrifício, na ilusão de que é preciso ceder sem limites, torna-se um fardo. Por essas razões, está surgindo um amor mais centrado na amizade e no companheirismo, sem a exigência de exclusividade.

A sociedade está preparada para esse arranjo mais solto?

 

A mudança das mentalidades é um processo lento e gradual. O que está no ar neste momento é o poliamor: a possibilidade de amar e ser amado por várias pessoas ao mesmo tempo. Caminhamos para isso. Mas não posso garantir que seja daqui a dez, 20 ou 30 anos. Se, no passado, alguém dissesse que as separações seriam corriqueiras e que as moças não se casariam virgens, as pessoas ficariam indignadas. É a mesma coisa. Há aspectos da história das mentalidades que demoraram séculos para se firmar.

E onde fica o ciúme nessa história?

 

Nós fomos acostumados a acreditar que o ciúme faz parte da natureza humana e do amor. Há quem fique arrasado se o parceiro não sente ciúme. Entende que não é amado. Os “poliamoristas” dizem que o ciúme nasce do medo da perda. No caso deles, isso não está em jogo, porque é permitido amar mais de uma pessoa sem preterir nenhuma. O fato é que saímos do útero materno, onde não sentimos frio, fome ou cólica, e somos tomados por um profundo sentimento de desamparo. Mais tarde, a criança é ciumenta, possessiva e controladora porque se a mãe sumir ela morre, uma vez que necessita de cuidados físicos e emocionais. Isso é compreensível. À medida que crescemos, o natural seria abandonarmos esse comportamento. No entanto, na fase adulta, o indivíduo entra numa relação a dois nos moldes do amor romântico e acredita que ali vai conseguir reeditar a plenitude intrauterina. Nossa cultura favorece esse entendimento quando deveria estimular as pessoas a desenvolver a capacidade de ficar bem sozinhas e descobrir suas singularidades.

Muitas mulheres são assertivas e competentes na vida profissional, mas se sentem diminuídas por não terem um companheiro. Como você avalia essa contradição?

 

Há uma grande diferença entre a mulher independente e a autônoma. A primeira ganha seu próprio dinheiro, eventualmente mora sozinha, dirige uma empresa ou é profissional liberal. Financeiramente, comanda a própria vida. A segunda, além de gozar de autonomia financeira, não se submete aos valores comumente impostos às mulheres, tais como: manter-se a mulher um ser frágil e dependente que tem de ter um homem ao lado para protegê-la, só fazer sexo com amor, reprimir a vontade de transar para não ser taxada de promíscua. Portanto, existem mulheres independentes que estão longe de ser autônomas.

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No livro Se eu Fosse Você… você afirma que “o casamento proporciona um modo de vida insatisfatório para a maioria” e que “a paixão está em vias de extinção”. Por que, então, tantas pessoas casam de véu e grinalda hoje em dia?

Ainda tem muita gente casando, claro, como também há muitos divórcios. A tendência é o casamento tradicional e seus valores serem menos apreciados. Uma coisa é certa. As uniões duram cada vez menos porque o amor passou a fazer parte delas. Quando esse sentimento não era considerado, modelo que perdurou por milhares de anos, as expectativas eram outras. As principais: o marido ser provedor e respeitador e a mulher dona de casa prendada e respeitável. Com muita sorte, desenvolvia-se estima pelo cônjuge. Quando o amor entrou no casamento para valer, no século XX, as expectativas mudaram, passando a abranger realização afetiva e prazer sexual. Com isso, o nível de frustração das pessoas aumentou.

 

Sua pesquisa revela que na maioria dos casamentos o amor convive com a ausência de desejo pelo cônjuge. Esse impasse tem solução?

 

Não é necessário dizer que existem exceções e que, em alguns casais, o desejo sexual continua existindo após vários anos de convívio. Mas não podemos tomar a minoria como padrão. Por que o desejo acaba no casamento? Mesmo que os dois se gostem, a rotina, a excessiva intimidade e a falta de mistério acabam com qualquer emoção. Busca-se muito mais segurança que prazer. Para se sentirem seguras, as pessoas exigem fidelidade, o que sem dúvida é limitador e também responsável pela falta de desejo. A certeza de posse e exclusividade leva ao desinteresse, por eliminar a sedução e a conquista. Familiaridade com o parceiro, associada ao hábito, pode provocar a perda do desejo sexual, independentemene do crescimento do amor e de sentimentos como admiração, companheirismo e carinho. Penso que a solução é as pessoas reformularem as expectativas que alimentam a respeito da vida a dois, principalmente quanto à exclusividade sexual. A ameaça da infidelidade é, em última análise, o tendão-de-aquiles das relações?

A preocupação com a fidelidade é uma paranoia coletiva, uma doença. E se a imensa maioria tem relações extraconjugais é porque variar é bom e não necessariamente porque algo vai mal no relacionamento ou porque deixaram de amar seus parceiros. A grande questão é: que direito eu tenho de exigir que o outro só faça sexo comigo? Agora, é evidente que se a pessoa começa a transar com alguém fora do casamento e deixa de apreciar a companhia do cônjuge, aí fica ruim.

No entanto, noto sinais contundentes de que essa perspectiva está se alargando. Atendo muitos casais com filhos pequenos que nos fins de semana frequentam casas de swing, onde transam com desconhecidos. Quando um homem iria levar a própria esposa para transar com outro cara?

Não podemos fazer uma escolha racional e optar pela fidelidade?

 

Muitos são os que reprimem o desejo por outras pessoas em respeito ao parceiro. Mas isso tem um preço. Se você abre mão do seu desejo em consideração ao outro, este se torna devedor. Precisamos parar de perder tempo com esse clichê e encontrar maneiras de ser mais verdadeiros conosco e, portanto, mais felizes.

Como dar as costas a séculos de condicionamento sociocultural e passarmos a ser mais fiéis aos nossos anseios?

 

Para viver bem precisamos de coragem para romper com valores equivocados que nos foram transmitidos. As pessoas sofrem muito e desnecessariamente por causa de suas fantasias, desejos, medos, culpas, vergonha. Homens e mulheres só têm de se preocupar em responder a duas perguntas: sinto-me amado (a)? Sinto-me desejado (a)? Se a resposta for positiva, o que o outro faz quando não está ao meu lado não me diz respeito. Mesmo porque é uma ilusão achar que controlamos alguém. Precisamos, sim, manter a autoestima elevada, porque, quem o faz, não se deixa martirizar pela possibilidade de que vai ser trocado a qualquer momento. E se, por ventura, isso acontecer, é que faz parte da vida. Quem desenvolveu a capacidade de ficar bem sozinho pode até sofrer com a separação, mas vai tocar a vida, pois tem amigos, projetos, autonomia.

Nós seríamos mais felizes no campo do amor e da sexualidade se…

 

Se nós nos relacionássemos com as pessoas de forma madura, ou seja, não esperando que o par amoroso satisfaça todas as nossas necessidades como se estivéssemos no útero materno. Se nós nos relacionássemos com alguém pelo prazer de estar juntos e não pela necessidade de aplacar a sensação de desamparo. Se nós entendêssemos que sentir desejo sexual por outras pessoas é absolutamente natural. As pessoas precisam reformular profundamente as expectativas que nutrem a respeito da vida a dois para serem mais felizes.

 

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