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Carlos Solano: Carpe diem ou aproveite o dia

Numa exposição de jardins em Portugal, nosso colunista percebeu que despertar os sentidos rejuvenesce o olhar

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Atravessei uma linda ponte e cheguei ao paraíso. Ou melhor, atravessei a vila histórica de Ponte de Lima, uma das mais antigas de Portugal, e entrei no parque onde acontecia, em 2013, o 9º Festival Internacional de Jardins – evento que ocorre todo ano, de maio a outubro, nessa mesma localidade (www.facebook.com/Festival. Internacional.de.Jardins). Rodeado por fores e cores, percebi que os projetos poderiam indicar caminhos de paz e serenidade.

Os jardins, de diferentes países, só duram o tempo do festival. Na exposição que visitei no ano passado havia 11 – cada um do tamanho médio de uma quadra de peteca (7,15 m x 15 m). No primeiro, batizado de Despertar os Sentidos, os visitantes tiravam os sapatos. Criado por portugueses, o projeto parecia dizer: viva o dia a dia com olhos de menino. Inspirado no desenho de um rosto feito por uma criança, o jardim tinha boca, na verdade, um lago sorridente; orelhas, feitas de objetos sonoros; olhos, dois canteiros coloridos; e nariz, muitas plantas aromáticas. “Despertar os sentidos rejuvenesce o olhar?”, me perguntei. A resposta foi amadurecendo enquanto uma brisa me levava ao Redemoinho de Sensações (Espanha). Lá, cinco cabanas conduziam a uma surpresa sensorial no centro: murmúrio da água/audição, folhagens comestíveis/ paladar, fragmentos de um bosque/ tato, aromas no ar/olfato, objetos multicores/visão. Ouça, prove, toque, cheire, olhe… era o convite.

Passei ao Jardim da Abundância (Irlanda), uma grande horta formada por canteiros curvos. Lindo, celebrava uma vida sustentável onde o ponto forte era a compostagem (uso de restos vegetais para adubo) e a captação da chuva. Natureza é paraíso, bem sei, mas o respeito a esse paraíso começa em cada casa. O próximo jardim, Saboreie o Mundo (República Tcheca), reforçou a tese de que tudo é cíclico: nele, havia um grande tubo feito de fos coloridos onde se podia entrar. Dentro, uma panela de 1 metro de diâmetro, vazia. Acima, como o tubo era vazado, via-se o céu. Talvez a panela esperasse os frutos de tudo que existe. Lembrei de uma frase de Albert Einstein: “Só há duas formas de viver a vida: pensar que nada é um milagre ou que tudo é um milagre”.

No final do passeio, a artista brasileira Gabriela Jobim criou Paraíso – um lugar cheio de maçãs gigantes. Feitas de madeira, com 1 metro ou mais de altura, exalavam o aroma da fruta quando tocadas. Nesse Éden, aliás, as maçãs deviam ser tocadas. Em uma das “frutas” vi escrita a palavra “ame”, como se sugerisse que fizéssemos escolhas e construíssemos, com afeto, o nosso próprio paraíso. Saí em silêncio e voltei pela ponte sobre as águas limpas do Rio Lima. Não conseguia mais pensar racionalmente. Me deixei levar apenas por uma imensa paz e felicidade. Entendi que para chegarmos ao paraíso é preciso falar de coisas lindas e ter tempo para senti-las, acolhê-las e refleti-las. Carpe diem.

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