Caminho de Santiago: como se preparar para ser um peregrino

A repórter Keila Bis precisou atravessar o oceano e se tornar peregrina para descobrir o que sempre esteve à sua frente.

Por Texto e fotos Keila Bis | Design Luiz Silviano Atualizado em 14 dez 2016, 11h21 - Publicado em 11 dez 2012, 16h36
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O caminho reflete o que a vida é. Essa foi a conclusão a que cheguei enquanto subia uma das montanhas em direção a Santiago de Compostela. Três dias antes, no dia 3 de outubro, parti de León, noroeste da Espanha, a 323 km do meu destino final, dando início à realização de um sonho que me acompanhava desde a pré-adolescência, com o amoroso apoio do meu pai. A jornada durou 15 dias – mas quem começa do ponto tradicional, em Saint-Jean-Pied-de-Port, na França, chega a caminhar 40 dias para percorrer os cerca de 780 km até Santiago de Compostela – com uma rotina rígida, mas adorável.

Como é a rotina do caminhante

 

Acordar todos os dias às 7 h, tomar café da manhã, colocar a mochila nas costas – que sensação maravilhosa de liberdade! – e andar até o meio da tarde. Hora de escolher um albergue para ficar, cuidar das bolhas nos pés, me alimentar, confraternizar com os outros peregrinos do mundo todo e dormir pontualmente às 22 h – quando todos os albergues apagam as luzes. Conforme cruzava, quase sempre com rios ao meu lado, lindos povoados feitos de casas de pedra, campos agrícolas e montanhas, fui me tornando somente mais uma peregrina, deixando de ser a Keila, com endereço fixo, uma nacionalidade e todos os outros fatores que nos definem na sociedade. Essa inversão de papéis ocorre porque ninguém está interessado em saber o que você é ou qual é sua posição social, mas sim o que o levou a fazer o Caminho. Isso provocou em mim um desenlace com as questões materiais, descortinando minha essência, e uma nova forma de ver as situações, as pessoas e a mim mesma surgiu. A partir de então, o Caminho me mostrou que nada na vida é definitivo. Então, para que me preocupar?

Como é a sensação de se tornar peregrino

 

Há dias de sol, de chuva, de estradas limpas e retas, outras de pedras, barro e subidas, momentos de querer falar, momentos de querer ficar sozinha, tristes e outros alegres. Um lindo ciclo, chamado vida, que não tem fim. Com isso, consegui algo que sempre almejei, mas nunca havia conquistado: celebrar o presente e não criar expectativas sobre o futuro. Fui, então, capaz de ver que a vida sempre nos sorri, mesmo diante dos maiores obstáculos – o maior que encontrei foi caminhar durante sete horas embaixo de forte chuva. Como no dia em que, com fome e sem nada para comer na mochila, e com o próximo vilarejo distante a no mínimo duas horas, surgem plantações de videiras, figos e pereiras. E como no dia em que a chuva apertou e não havia nenhum abrigo por perto. A poucos metros, aparece um bosque de altíssimas castanheiras e eucaliptos, formando uma barreira d’água em suas copas. Além da bondade da natureza, existe a humana, que coroa todo o Caminho. A exemplo de quando comecei a sofrer com bolhas nos pés e pessoas se ofereceram para cuidar delas e outras que arrumaram minha mochila, que insistia em ficar torta, me causando fortes dores nas costas e nos ombros. O Caminho me mostrou também que a vida sempre nos coloca em situações e em contato com pessoas que têm algo a nos ensinar. Isso ficou claro para mim ao ver que eu não iria me machucar se fizesse como os sábios peregrinos mais velhos, que respeitam seu corpo e limites físicos, têm paciência e caminham sempre na mesma velocidade. Curtem tudo o que o Caminho propicia, com a certeza de que a chegada é somente o resultado do caminho trilhado. Então, para que correr? Com os jovens afoitos, que sobem um morro de 1 700 m de altitude em quatro horas e descem em uma hora, sem poupar os joelhos e tornozelos, que, claro, se contundem, o Caminho me disse: a ansiedade tem que ser sempre evitada. Quando voltei ao trabalho, uma grande amiga me perguntou: “O que você concluiu do Caminho?” Respondi prontamente: “Que ele é a própria vida e que a vida é somente amor”.

Como se preparar para fazer o Caminho de Santiago

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Fazer o Caminho de Santiago de Compostela é uma fantástica experiência de vida, mas exige planejamento. Desde a adolescência, um sonho me acompanhava: fazer o Caminho de Santiago de Compostela, na Espanha. Sempre gostei muito de andar, assim como conhecer lugares novos e estar em contato com a natureza, por isso, o Caminho era a representação perfeita para eu ter tudo isso ao mesmo tempo. Além disso, este ano surgiu, aos 34 anos, uma vontade imensa de ficar sozinha, distante do meu cotidiano em São Paulo, onde moro e trabalho como jornalista, para tentar ver de longe a forma como estou me construindo e escrevendo a minha história de vida. Percebi, então, que tinha chegado a hora de realizar o meu sonho. Decidi que faria o Caminho em outubro, mas comecei os preparativos em maio quando fui à Associação de Confrades e Amigos do Caminho de Santiago de Compostela (www.santiago.org.br), em São Paulo, para obter respostas a todos os milhões de dúvidas que uma viagem como essa promove. Como me organizei:

O que levar na mochila: descobri que ela deveria ter 10% do meu peso, portanto, 7 kg. A dica que recebi na Associação era sempre pensar que para cada peça vestida, deveria haver duas outras de reserva na mochila – embrulhadas em saquinhos plásticos, pois se chover muito as roupas estão bem protegidas. Mas, como eu fiz apenas um trecho do Caminho, de León à Santiago de Compostela, ambas na Espanha, um total de 323 Km, não me preocupei em seguir essa regra. No entanto, é necessário para quem faz o percurso original, que começa em Saint-Jean-Pied-de-Port, na França, e chega a caminhar 40 dias para percorrer os cerca de 780 km. Dessa forma, coloquei em minha mochila: duas blusas de mangas curtas que uso para correr, conhecidas como dri fit, e secam rapidamente. Duas blusas segunda pele de mangas longas, uma jaqueta fleece, bem quentinha, e uma jaqueta impermeável. Com relação às calças: um modelo para fazer trilha com zíper – que se transforma em bermuda – uma outra segunda pele, para os dias mais frios, e uma de lycra, que usava quando já tinha terminado a caminhada do dia. É importante levar também: luvas, toca, capa de chuva, três pares de meias finas sem costura e três de  meias grossas – para proteger bem os pés, coloque a meia fina primeiro, e a grossa por cima. Comprei um tênis de cano alto, impermeável, um número maior, já que os pés podem inchar – usei-os durante um mês antes da viagem para me adaptar a eles – e um par de chinelos. Minha toalha de banho era uma fralda de pano, que ocupa pouco espaço e seca facilmente. No mais: lanterna, diário para descrever o dia-a-dia, e saco de dormir – para se abrigar do frio e também porque boa parte dos albergues não oferecem lençóis.

Quando ir: de abril a outubro para fugir do forte inverno europeu. Junho, julho e agosto são os meses preferidos dos peregrinos, já que é verão, mas o sol forte e as altas temperaturas, que chegam a 40º, também castigam. Maio e setembro são excelentes, as temperaturas são mais amenas e, normalmente, não chove. Como eu fiz o Caminho em outubro, do dia 3 ao dia 17, a temperatura variou de 7º a 35º, com muitos dias de chuva intensa.

Quanto levar: em média, gasta-se de 20 a 30 euros por dia. Uma cama em um albergue custa entre 5 e 10 euros. Muitos deles servem jantar e café da manhã, a 7 e 3 euros, respectivamente. As roupas podem ser lavadas a mão, mas ainda há a opção de usar as máquinas de levar e secar, que custam 3 euros cada.

A caminhada: em média, caminha-se 4 Km por hora. No meu caso, iniciava às 8h30 da manhã – quando começava a clarear – e parava no meio da tarde, lá pelas 15h ou 16h, andando cerca de 20 ou 25 km/dia. Fazia umas três paradas por dia em cafés ou restaurantes – que surgem no Caminho quando atravessamos cidades e pequenos vilarejos – ou na beira da estrada para comer frutas, lanches e chocolates que carregava na mochila. Sempre tinha 1,5 l de água comigo. O Caminho é totalmente sinalizado por flechas amarelas, portanto, não há motivos para se preocupar em ficar perdido. Boa parte do tempo caminha-se por estradas de terra, mas há trechos em que andamos pelo acostamento das rodovias. De qualquer forma, levei um guia (Camino de Santiago – de los Pirineos a Santiago de Compostela; editora Rother) que indica os lugares por onde se passa, a distância entre eles, endereços de albergues e informações sobre a história dos locais mais importantes.

Rotina: o dia começa cedo para os peregrinos. Às 6h já é possível escutar alguns levantando e começando a se arrumar. Entre 9h e 10h, deve-se obrigatoriamente sair dos albergues, que recebem novos hóspedes às 14h. A partir dessa hora, os peregrinos já começam a parar de caminhar. Hora de tomar banho, cuidar dos pés, lavar as roupas, comer, conhecer a cidade ou o povoado onde está ficando, jantar às 19h e dormir, pontualmente às 22h, quando as luzes se apagam – é bom levar tampões auriculares se pretende ter silêncio para dormir.

Cuidados com os pés: as bolhas começam a aparecer já no terceiro dia de caminhada. Aprendi que a melhor forma de cuidar delas é a seguinte: use uma linha com agulha para atravessar a bolha de ponta a ponta, deixando a linha dentro. Esprema bem para tirar todo o líquido e, em seguida, passe um anti-séptico. Retire a linha somente no dia seguinte, para que o líquido restante, se houver, saia pelos buraquinhos abertos pela linha. Passe iodo e cubra com band-aid. Pomadas de arnica e emplastro também ajudam a relaxar dores musculares.

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