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Artesanato: conheça a história da cuias paraenses

Das cuieiras do Pará, brotam frutos que mantêm viva uma tradição cultural: as cuias ornamentadas, prestes a conquistar o status de patrimônio imaterial.

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Bem-te-vi, bem-te-vi! Desperto ao coro de um quarteto de bem-te-vis e de uma grande cantoria de outros pássaros. Salto da rede e em dois tempos já estou na varanda da casa de palafita de dona Cecília, uma das artesãs das cuias, que hospedou a mim e meu marido na comunidade de Aritapera, a cinco horas de barco de Santarém, Pará. Ela vai me ensinando a distinguir os acordes da curica, da jaçanã, e a reconhecer a algazarra do japiim-xexéu. Na véspera, havíamos deixado a orla de Santarém e, após meia hora de viagem, cruzamos o encontro das águas mansas e cristalinas do Tapajós cor de esmeralda com o veloz, barrento e ocre Amazonas. O barco vai parando no trapiche – um pequeno ancoradouro – de cada comunidade, onde os moradores, que vivem da pesca e das pequenas plantações, desembarcam carregados de gelo, indispensável para conservar o peixe, soro antiofídico e gasolina para o gerador. Em Aritapera, logo após o café da manhã, Cecília e suas amigas se reúnem em um jirau (estrado de madeira erguido do solo e com telhadinho) para “bordar” as cuias com motivos florais. Elas servem “para um tudo”, como se diz por lá: tirar água dos barcos, tomar banho no rio, cozinhar e armazenar água. Também servem de copo ou prato, como no caso do tacacá, iguaria feita da goma da mandioca. Como bem definiu o padre Alexandre Ferreira em registro de 1768, quando de sua missão em Santarém: “As cuias são toda a baixela dos índios”. Alexandre descreve o ornamento delas como se fosse renda, e levou muitas para Portugal, onde hoje fazem parte do Museu da Universidade de Coimbra e do Museu da Academia de Ciências de Lisboa. Na mesma época, outro missionário português, frei João de São José, relata que “as mulheres fazem as mais galantes cuias para beber. Elas são cobertas de tinta preta, quase um verniz, tão forte e fino que não perde o lustre. Em nada se distingue do célebre charão da China” – verniz de laca que reveste as típicas vasilhas chinesas.

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De Aritapera, seguimos a bordo de um pequeno barco em direção a Cabeça d’Onça, Surubim-Açu e Carapanatuba, por três horas. Nessas distantes comunidades, as artesãs costumam decorar as cuias com grafismos indígenas e uma boa dose de criatividade individual. Estamos em agosto, e Natanael, nosso barqueiro, avisa que as águas começam a baixar e alguns lugares ficam tão rasos que podemos atolar. E que também é preciso ficar atento aos jacarés. Mas seguimos com fé pelos caminhos aquáticos dessa Veneza rural, também povoados por botos-corde-rosa que vez ou outra nos privilegiam com saltos inesperados.

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Só que o fundo do barco começa mesmo a raspar no leito do rio, e somos obrigados a prosseguir a pé pela mata até Cabeça d’Onça. Ali, os homens estão na roça de mandioca e feijão, e as crianças, no recreio da escolinha. Além das artesãs locais, as de Surubim-Açu enfrentaram mais de cinco horas de viagem para esse encontro. São mulheres com idades bem variadas que irradiam uma alegria rara. Elas nos relatam o quanto esse ofício, o único remunerado, é importante na contribuição de renda das quase 200 famílias que se dedicam a ele, e que é praticamente reservado às mulheres, passando intacto de geração em geração desde os tempos das índias tapajós, no século 17. Hoje, as cuias são vendidas – os preços variam de 20 a 50 reais, conforme o tamanho – no mercado de Santarém e em lojas de artesanato de Belém, mas, diante da iniciativa do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) em elevá-las ao status de patrimônio imaterial, sem dúvida esse reconhecimento lhes trará o justo e merecido valor. De volta à Aritapera, me banho com a cuia. Corpo e alma se refrescam. Logo chega meu ônibus-barco. É hora de seguir viagem. Agora “de mala e cuia”.

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